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Na conta

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Revista BCP

26/06/2002

 


Era só o que me faltava: virei conta de telefone! De agora em diante eu espero que todo mês alguém aí da sua casa pergunte: já chegou a conta do Prata?

Não sei se você sabe quem eu sou. Eu escrevo umas coisas seriíssimas que eu chamo de bobageras e sempre tem uns caras que me pagam para isso. E uns terceiros acham graça. Sou um cronista, se me permitirem Nelson Rodrigues, Fernando Sabino, Rubem Braga e Verissimo. Mas não sou apenas cronista.

Em Florianópolis, por exemplo, existe um criado-mudo de uma fábrica que se chama "Mesa de Apoio Mario Prata". É duro, depois de 40 anos trabalhando, virar criado-mudo. Cadê a Lista Telefônica? Tá no Mario Prata!

E não é só. Já ouviu falar nas bolsas Mario Prata? Juro que eu não tenho nada a ver com isso. Virar bolsinha, depois dos cinqüenta, sei não. Coisas duns caras lá de Birigui.

E agora, mãe (quando a minha mãe ler isso aqui ela não vai entender nada. Também é da BCP. Sim, escritor também tem mãe que paga telefone), e agora, mãe, além de criado-mudo e bolsinha, virei conta.

Lembra quando a senhora me mandava na loja - não tinha telefone assim como hoje, não – e me pedia para por Na Conta? Na Conta era uns papeizinhos que o japonês tinha numa gaveta. E sempre achava: doutor Prata. E marcava com caneta tinteiro. No fim do mês a gente pagava e não se falava mais nisso. Naquele tempo, garotão, ninguém desconfiava de ninguém.

Tô pensando aqui, mãe, se, naquela época, eu pedisse para o Sam para escrever uma crônica Na Conta, ele iria dizer que eu estava doido. E comentaria – com aquele risinho japonês - com a mulher atrás, no balcão: tá ficando muito esquisito esse menino!

Eu sei que você está achando esquisito esta crônica aqui Na Conta, minha filha. Mas, cá entre nós, eu também estou.

Esquisitérrimo, diria minha parte bolsinha. E a criado-mudo, por ser mudo, não falaria nada. Mas daria uma olhada para você, como quem diz: não vai esquecer de pagar a conta, hein?

E advertiria: não guarde a conta em mim, hein?