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Mundo, 505, América do Sul, 8

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o estado de s. paulo

27/09/2000

 


Duas coisas que sempre me fascinam: esportes e matemática. De longe, é claro.

No futebol, jogava no gol só porque a bola era minha. Nunca tive a ginga necessária. No basquete, arranhava. Cheguei a ser quase bom no tênis. Tenho na minha memória um jogo contra o Thomas Koch, em 1961, quando perdi (orgulhosamente) por seis-zero, seis-zero, lá em Lins. Nadava nada.

Da matemática sempre fui um curioso. Estudei economia pela inclinação aos números até que fui aluno do Delfim Neto e descobri as possibilidades das manipulações do PIB. O milagre econômico.

E a Olimpíada é mesmo uma mistura de esportes e números. Cronometragem, distâncias, tempos, marcas, número de medalhas. O quadro de medalhas - particularmente - me fascina. Fico a olhar, comparar. Descubro ali países que nem sei onde ficam, com medalhas. De ouro!

Até domingo, era interessante notar que chorávamos a conquista apenas de cinco medalhas e a Argentina tocava tango apenas para umazinha. E nesta segunda, não tendo mais nada para fazer, refestelado na cama, jornal no colo, resolvi analisar mais a fundo o tal do quadro das medalhas, onde estamos lá, lá bem embaixo.

Enquanto os países da Europa, Ásia e América Central e do Norte já estão com 505 medalhas, a nossa América do Sul tem apenas 8. São 505 contra 8. Ou seja, 1,3% das medalhas disputadas na Austrália ficaram com os latinos americanos. Perde para os cucarachos apenas a África. Mas, com as provas de atletismo, estarão a nos golear antes do próximo domingo. Ou seja, nós somos mesmo o U do mundo! U de último!

O mais interessante é que o brasileiro adora esportes. Torce, vibra, se emociona, chora. E perde!

Tudo bem que é difícil enfrentar com gringos comendo o que o brasileiro come. Difícil enfrentar o primeiro mundo com as infra-estruturas que os governantes nos oferecem. Aquele garoto de Bastos, judoca que ganhou prata (ou seja, é o segundo do mundo!), viu o pai vender o carro da família para conseguir dinheiro para treinar. O ciclista de Marília comprou a bicicleta com dinheiro emprestado (e ainda não pagou). Lá do interior de Minas saiu uma lavadeira para levantar peso. E não é brincadeira, não. Nosso tenista-mór envolveu-se numa briga de patrocinadores antes de embarcar. O Vanderlei da Silva tirou o terno mas deixou o Romário aqui (Luxa, vide Zamorano, aquele chileno). O outro pega três trens de subúrbio no Rio para treinar o seu atletismo.

Isso é o Brasil, essa é a nossa América Latina. Estamos em campanha salarial. Perdão, eleitoral. Ninguém fala em esportes. Uns falam em quadras poli-esportivas. A serem construídas onde? Na avenida Paulista ou nos jardins de Machu Pitchu?

O campeonato brasileiro de futebol - que tem o nome do sogro do organizador - tem time que já jogou 16 vezes e outros que jogaram apenas 11. Isso não consegue entrar na minha cabeça. Aqueloutro, diretor do Clube dos 13, um clube que tem mais de 20, afirma pela mídia que jogador que recorrer à Justiça não joga mais no Brasil. Isso é muito grave. É crime! Ninguém se tocou com o negócio. O gato-bundão Vanderlei da Silva, todo mundo sabe que, se cair, vai cair atirando pra todo lado. Tá certo ele. Então vão dar uma grana chamada "rescisão de contrato" para que o tombo seja silencioso. E, pelo tamanho da grana, vamos poder imaginar a altura que seriam os seus berros cheios de palavrões. E ele é bom de grito.

Mas temos do que nos orgulhar. Estamos entre os dez mais corruptos do mundo.

Entre os cinco mais violentos. E, em lugar nenhum do mundo (mesmo em tempos de guerra) mata-se mais gente do que num fim de semana em São Paulo. Aliás, está disputadíssima a briga entre o Covas e o Garotinho para ver quem é que matou mais a cada fim de semana. São Paulo é medalha de ouro, prata, bronze e chumbo em chacinas.

Em termos de índices de analfabetismo... deixa pra lá.

Num país onde apenas o leite é transparente, fica difícil manter o ideal olímpico. Fica difícil carregar a tocha. Fica, cada vez mais, quase impossível torcer pelo Brasil.

Desta olimpíada, fica para mim a imagem da lavadeira de Minas Gerais tentando levantar inutilmente o peso do Brasil . E caindo sentada, coitada.

Sem nenhum apoio.