Senhor prefeito Paulo Maluf, meus mais sinceros
parabéns. O senhor está contribuindo para que a nossa cidade entre, definitivamente, na
civilização do primeiro mundo. É com muita alegria que vejo os paulistanos, há uma
semana, usando cintos de segurança. Infelizmente, neste nosso país, algumas coisas só
funcionam na marra mesmo, na porrada. Mas atente seus fiscais, senhor prefeito, para
multarem também de noite, que me parece a hora de maiores acidentes, pois os débeis
afrouxam o cinto na chamada calada da noite. Mas ficou provado que, no grito, o paulistano
encolhe a barriga e passa o cinto.
O que o senhor fez, senhor prefeito, foi o mesmo que
Lady Bird Johnson, primeira dama americana, fez nos anos sessenta por lá. Multa para quem
sujasse as ruas e estradas, multa para quem bebia alcoolizado. Civilizou um pouco mais a
América. Multas pesadas. Se não me engano, jogar um cigarrinho pela janela do carro
custa cem dólares.
O senhor está provando que esta cidade pode dar
certo. Sugiro que o senhor estenda as multas para outros departamentos e situações com
as quais vivemos diariamente. Vamos civilizar a cidade, senhor Maluf. Mando aqui do alto
desta página umas modestas colaborações:
Guardador de carro. Multa neles, senhor prefeito.
Sei de muita gente que não vai mais ao teatro e ao cinema pois são achacados para se
divertirem.
Buzina. Se cobrar um real por cada buzina tocada na
cidade de São Paulo, vai sobrar dinheiro para o senhor administrar até o final do
século. Buzina noturna deve pagar cinco reais.
Teatro e show com atrasos. Outra boa fonte de renda
para a prefeitura. Por que os teatros nunca começam na hora combinada? Dez reais por
minuto atrasado e o secretário Konder vai arrecadar dinheiro para financiar o próprio
teatro paulista.
Caminhões com alto-falantes. Desses que vendem
morango de Atibaia, abacaxi do norte, melancia de 12 quilos. Vender tudo bem, mas o
serviço de alto-falantes é mortal. Multa neles.
Gente que chega atrasada em encontros. O senhor deve
criar um departamento para dedar-se estes amigos. O sujeito atrasou, a gente liga para a
prefeitura, vem um fiscal e cobra-se uma multa em cima deles.
Celular tocando. Principalmente dentro de
restaurantes, cinemas, teatro e no Bingo. Um real por toque e o senhor poderá ampliar a
rede telefônica do município com lucro.
Times que jogam quatro vezes por semana. Multa nos
cartolas, senhor Maluf. Não há quem aguente. Nem nós, nem os jogadores.
Cerveja quente. Multa para os os bares que vendem
cerveja quente e uisque com medidor.
Secretária eletrônica com voz de criança. Multe
os pais engraçadinhos.
Mulher bonita bêbada. Tem que multar. De leve, mas
multe.
Homem com medo de amar. Multa neles, senhor
prefeito. A cidade, as mulheres e os homens andam carentes de amor. Ficou com medo, uma
multinha.
Secretária que diz que o chefe está em reunião.
Aqui, acho que a multa tem que ser grande. O dinheiro arrecadado deverá pagar todas as
contas da prefeitura.
Papel higiênico. Multar as fábricas que vendem
papel higiênico picotado mas que nunca rasgam no picote.
Políticos que prometem e não cumprem. Mil reais
por promessa não cumprida.
Programação de televisão. Multa de dez mil reais
por minuto no atraso de cada programação.
Pais que batem em crianças. Principalmente nas ruas
e na cabeça. Uma multa tão forte quanto o tapa ou puxão de orelha. Se a surra for
dentro de casa, a multa pode ser mais modesta.
Camisinha. Sei que será difícil fiscalizar quem
não está usando, mas sempre se dá um jeito. Pode dar uma boa receita.
Policiais corruptos. Multar os policiais que não
multam, com o dobro do valor da multa que deveriam cobrar.