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MULTA NELES SENHOR MALUF

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o estado de s. paulo

21/11/94

 


Senhor prefeito Paulo Maluf, meus mais sinceros parabéns. O senhor está contribuindo para que a nossa cidade entre, definitivamente, na civilização do primeiro mundo. É com muita alegria que vejo os paulistanos, há uma semana, usando cintos de segurança. Infelizmente, neste nosso país, algumas coisas só funcionam na marra mesmo, na porrada. Mas atente seus fiscais, senhor prefeito, para multarem também de noite, que me parece a hora de maiores acidentes, pois os débeis afrouxam o cinto na chamada calada da noite. Mas ficou provado que, no grito, o paulistano encolhe a barriga e passa o cinto.

O que o senhor fez, senhor prefeito, foi o mesmo que Lady Bird Johnson, primeira dama americana, fez nos anos sessenta por lá. Multa para quem sujasse as ruas e estradas, multa para quem bebia alcoolizado. Civilizou um pouco mais a América. Multas pesadas. Se não me engano, jogar um cigarrinho pela janela do carro custa cem dólares.

O senhor está provando que esta cidade pode dar certo. Sugiro que o senhor estenda as multas para outros departamentos e situações com as quais vivemos diariamente. Vamos civilizar a cidade, senhor Maluf. Mando aqui do alto desta página umas modestas colaborações:

Guardador de carro. Multa neles, senhor prefeito. Sei de muita gente que não vai mais ao teatro e ao cinema pois são achacados para se divertirem.

Buzina. Se cobrar um real por cada buzina tocada na cidade de São Paulo, vai sobrar dinheiro para o senhor administrar até o final do século. Buzina noturna deve pagar cinco reais.

Teatro e show com atrasos. Outra boa fonte de renda para a prefeitura. Por que os teatros nunca começam na hora combinada? Dez reais por minuto atrasado e o secretário Konder vai arrecadar dinheiro para financiar o próprio teatro paulista.

Caminhões com alto-falantes. Desses que vendem morango de Atibaia, abacaxi do norte, melancia de 12 quilos. Vender tudo bem, mas o serviço de alto-falantes é mortal. Multa neles.

Gente que chega atrasada em encontros. O senhor deve criar um departamento para dedar-se estes amigos. O sujeito atrasou, a gente liga para a prefeitura, vem um fiscal e cobra-se uma multa em cima deles.

Celular tocando. Principalmente dentro de restaurantes, cinemas, teatro e no Bingo. Um real por toque e o senhor poderá ampliar a rede telefônica do município com lucro.

Times que jogam quatro vezes por semana. Multa nos cartolas, senhor Maluf. Não há quem aguente. Nem nós, nem os jogadores.

Cerveja quente. Multa para os os bares que vendem cerveja quente e uisque com medidor.

Secretária eletrônica com voz de criança. Multe os pais engraçadinhos.

Mulher bonita bêbada. Tem que multar. De leve, mas multe.

Homem com medo de amar. Multa neles, senhor prefeito. A cidade, as mulheres e os homens andam carentes de amor. Ficou com medo, uma multinha.

Secretária que diz que o chefe está em reunião. Aqui, acho que a multa tem que ser grande. O dinheiro arrecadado deverá pagar todas as contas da prefeitura.

Papel higiênico. Multar as fábricas que vendem papel higiênico picotado mas que nunca rasgam no picote.

Políticos que prometem e não cumprem. Mil reais por promessa não cumprida.

Programação de televisão. Multa de dez mil reais por minuto no atraso de cada programação.

Pais que batem em crianças. Principalmente nas ruas e na cabeça. Uma multa tão forte quanto o tapa ou puxão de orelha. Se a surra for dentro de casa, a multa pode ser mais modesta.

Camisinha. Sei que será difícil fiscalizar quem não está usando, mas sempre se dá um jeito. Pode dar uma boa receita.

Policiais corruptos. Multar os policiais que não multam, com o dobro do valor da multa que deveriam cobrar.