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Muito pêlo contrário

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o estado de s. paulo

26/02/2003

 


Tem um texto navegando aí pela internet escrito pelo Kledir (ou seria pelo Kleiton?) chamado "Tipo Assim", que é realmente genial. O compositor gaúcho tentando explicar para os seus filhos adolescentes as coisas que existiam no nosso tempo. Uma luta, por exemplo, para explicar o telefone que discava ou o que era uma máquina de escrever. Tipo assim.

E outro dia eu estava conversando com uma amiga - 22 anos - pelo messenger e ela me contou que havia sido convidada para escrever para uma revista de mulher pelada. E eu comecei a contar - para espanto dela - como eram as revistas de mulheres peladas - inclusive a Playboy brasileira - nos anos duros (ops!) dos redentores militares.

Imagine você, minha amiga, que pêlo não podia. Jamais! Portanto, as revistas de mulheres peladas no começo dos anos 70 eram apenas de peitos pelados. Mas os peitos também sofriam os cortes das tesouras da caserna. Peito grande podia, mas bico grande, não. Até hoje eu não entendi muito bem a implicância com o problema dos bicos.

Meu irmão Leonel editava a revista Homem (mas que era de mulheres), da Editora Três. Quando a foto apresentava um bico um pouco maior, tinha de pegar cromo por cromo das fotos e raspar. E, naquela época, não tinha computador para diminuir bicos. Era com a gilete mesmo. Aquilo ficava meio esquisito: aquele seio grandão e o bico mínimo. Pêlo, dizia eu, nem pensar.

Você vê que os militares eram atentos. Queriam salvar não apenas o Brasil, mas a família e os pêlos da tradição e da propriedade alheia. A maconha, por exemplo, era alvo dos militares. Não por viciar, fazer mal, ser contrabando, levar perigosamente a outras drogas, desviar dos estudos. Nada disso. Fumar maconha era, segundo eles, subversão. Era subverter o social, a ordem constituída. Portanto, ser maconheiro, era subversivo. Conheci muito comunista naquela época que fumava só para contrariar a oliva classe dominante. Uns, fumam até hoje. Só para contrariar.

Mas voltemos aos pêlos lá de cima. Ou melhor, cá de baixo. Um dia, não mais que de repente, sabe-se lá o porquê, liberaram os pêlos. Foi tão inesperado aquilo que nenhuma das revistas tinha pêlo em estoque. E mais, as mocinhas da época não iam se expor assim sem mais nem menos. Podia ser um golpe da ditadura (sem trocadilho) para descobrir os pêlos subversivos. As Adrianes, Maitês, Tiazinhas e Lucianas da época, por preço algum iriam entrar na fria.

A solução imediata foi a exportação dos pêlos pubianos. Me lembro que uma noite o Leonel chegou lá em casa com um pacote de 200 pêlos frontais ingleses. Como ele sabia que eram de mocinhas inglesas, eu não sei. Podiam muito bem ser pêlos paraguaios, falsificados. Eram muito escancarados para serem comportadamente ingleses. Mas a revista dele não podia ficar atrás da Playboy que iria chegar às bancas com os púbis americanos, loirinhos.

O que ele queria é que a gente inventasse o nome, idade, profissão, daquelas garotas, como se elas fossem brasileiras. Tipo assim: "Carlinha tem 19 aninhos, mora em Angra dos Reis, estuda psicologia, tem 1,75 metro e olha a cinturinha dela. Adora J.G. de Araújo Jorge, foi miss Verão 71 e está solteiríssima." E toma páginas e páginas de pêlos ingleses (ou paraguaios).

Só que na euforia toda, o Leonel se exaltou e colocou uma delas na capa da revista Homem (me parece que pêlo em capa não está liberado até hoje) com uma espada na mão. Como era setembro, mês da Semana da Pátria (na verdade semana dos militares e não da Pátria), deu o nome para a moça de Elvira, do Ipiranga. E, lá dentro, 20 páginas. E o texto todo era uma paródia do Hino Nacional, mais ou menos assim: "Elvira nasceu às margens plácidas do Ipiranga, de um brado retumbante"... Foi preso e processado, é claro. Mesmo porque, naquela época, o nosso Hino e a nossa Bandeira não eram mais nossas.

Eram deles. Não se podia sair por aí enrolado numa bandeira do Brasil. Fazer bermudinha com as cores do Brasil dava exílio na hora. Não fosse o parentesco de um nosso cunhado com o ministro da Justiça da época (Gama e Silva) o Leonel teria caído na clandestinidade com seus abusados pêlos. E se fosse aqui no Estadão, no lugar dos pêlos, sairia o bigode do Camões ou uma receita de linguado.

Hoje, 30 anos depois, começo a achar que os milicos estavam um pouco certos.

Porque hoje em dia escancaram demais. E a nudez da mulher exige uma certa arte. Não se pode mostrar tudo. Há de ter um paninho aqui ou ali. Nem que seja apenas "a ponta de um torturante bandeide no calcanhar". Há de se usar calcinhas, sim senhora. Há de existir a mágica do escondido, do proibido. Do procurável, do inacessível que pode, um dia, tornar-se achado e acessível.

Ou, muito pelo contrário.