Não sei se você leu um livro meu chamado Minhas
Vidas Passadas (a limpo). Lá, conto seis das minhas viagens ao passado através de uma
real (mentira!) regressão. Mas tive outras vidas que lá não estão. Como a que se
segue.
Meu nome era Solimon e nasci na região do Ponto,
na Ásia Menor. Insistem em dizer que nasci no Peru e/ou adjacências. Pura ignorância.
Nasci às margens do rio Termodonte (pode olhar no atlas que tem, sim!).
Era filho da rainha Hipólita, aquela mesma que
foi vencida por Hércules, pessoa aliás muito mal vista em nosso seio. Era minha tia a
Pentesiléia, aquela mesma que socorrera os troianos e que foi morta por Aquiles, o do
calcanhar sujo.
Nossa tribo, lá no Ponto, era chamada de Amazonas
e era tradição aquelas mulheres guerreiras enjeitarem os filhos varões. Digamos que era
uma espécie de feminismo asiático. Outra coisa, elas queimavam o seio direito para
poderem mais facilmente atirar com o arco, suas flechas certeiras no coração dos
incautos da época.
E eu nasci homem. Mas, como era filho da rainha e
o despotismo estava começando, minha mãe não me matou. Com a derrota para o Hércules,
pegamos nossas trouxas e atravessamos o Pacífico até chegarmos aqui no norte do Brasil.
Foi uma viagem muito acre, atravessando aquele rio branco.
E foi aqui que mudaram o meu nome de Solimon para
Amazon, que era para pensarem que eu era mulher, que eu era uma amazonas.
Quando aqui chegamos já haviam uns americanos,
que insitiam em me chamar de Transamazon Highway, porque eu era muito alta. Perdão, alto.
Tinha um cara chamado Ford, que andava numa máquina esquisita.
Além de estarmos fugindo do Hércules, haviam
dito pra gente (lá na Ásia Menor) que aqui tinha muita borracha. E os nossos arcos, eram
de elásticos. Por isso, escolhemos aqui. Mas foi, literalmente, uma luta, para nos
estabelecermos na região.
Tinha muito índio por aqui. Além do Passarinho e
um monte de Pascoal. Tivemos que enfrentar várias tribos. Os índios manaus (segundo os
quais, a situação tá maus), os macacapurus (que eram negros como os macacos africanos),
os itacoatiaras (que significa povo que jogo pedra nas tiaras), os manicores (que tinham
mania de pintarem os unhas das mãos de vermelho cheguei), os jaris (que ficavam o dia
inteiro a bolar projetos que nunca realizavam), os marajós (que comiam leitão à
pororuca) e os humaitás (que se diziam humanos, mas comiam sopa de pedra).
Foram grandes batalhas entre o meu povo e os
índios da região. Muita gente morreu naquele tempo. Foi criado um grande cemitério na
periferia ao qual demos o nome de Óbidos. E, a cada enterro de uma nação indígena,
tocávamos trombetas de regozijo. O local ficou se chamando Porto Trombetas. Era um bom
fim.
Acabei me casando com uma nativa chamda Balbina e
criamos vários amazoninos.
Isso tudo foi há muito, muito tempo. Muito antes
de aqui chegarem a Santa Rem e o Alenquer, com quem tive um caso.
Tudo ia bem na minha vida até que chegou o Conde
de Tordesilhas, esticando uma linha imaginária. Com ele vieram os bandeirantes com
suas entradas sanguinolentas. Depois veio com cara chamado Sting, mas que a gente chamava
mesmo era de Picada de Ferrão.
Depois veio vindo cada vez mais gente e não houve
São Raimundo que segurasse o poder dos fluminenses lá na náutica serra.
Hoje meu nome é Amazon, mas pode me chamar de
Solimon. Pode me chamar de pulmão da humanidade. Com um seio só, mas cheio de ar nos
pulmões.
E agora estão chegando mais pessoas lá da minha
terra, a Ásia Menor, uns tais de japoneses, liderados por um sujeito chamado Ari Gatô.
Mas a gente vai darf um jeito neles.
Ou não me chamo Amazon!