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Meu nome era Solimon, mas pode me chamar de Amazon  

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Revista Amazônia 21

23/12/99

 


Não sei se você leu um livro meu chamado Minhas Vidas Passadas (a limpo). Lá, conto seis das minhas viagens ao passado através de uma real (mentira!) regressão. Mas tive outras vidas que lá não estão. Como a que se segue.

Meu nome era Solimon e nasci na região do Ponto, na Ásia Menor. Insistem em dizer que nasci no Peru e/ou adjacências. Pura ignorância. Nasci às margens do rio Termodonte (pode olhar no atlas que tem, sim!).

Era filho da rainha Hipólita, aquela mesma que foi vencida por Hércules, pessoa aliás muito mal vista em nosso seio. Era minha tia a Pentesiléia, aquela mesma que socorrera os troianos e que foi morta por Aquiles, o do calcanhar sujo.

Nossa tribo, lá no Ponto, era chamada de Amazonas e era tradição aquelas mulheres guerreiras enjeitarem os filhos varões. Digamos que era uma espécie de feminismo asiático. Outra coisa, elas queimavam o seio direito para poderem mais facilmente atirar com o arco, suas flechas certeiras no coração dos incautos da época.

E eu nasci homem. Mas, como era filho da rainha e o despotismo estava começando, minha mãe não me matou. Com a derrota para o Hércules, pegamos nossas trouxas e atravessamos o Pacífico até chegarmos aqui no norte do Brasil. Foi uma viagem muito acre, atravessando aquele rio branco.

E foi aqui que mudaram o meu nome de Solimon para Amazon, que era para pensarem que eu era mulher, que eu era uma amazonas.

Quando aqui chegamos já haviam uns americanos, que insitiam em me chamar de Transamazon Highway, porque eu era muito alta. Perdão, alto. Tinha um cara chamado Ford, que andava numa máquina esquisita.

Além de estarmos fugindo do Hércules, haviam dito pra gente (lá na Ásia Menor) que aqui tinha muita borracha. E os nossos arcos, eram de elásticos. Por isso, escolhemos aqui. Mas foi, literalmente, uma luta, para nos estabelecermos na região.

Tinha muito índio por aqui. Além do Passarinho e um monte de Pascoal. Tivemos que enfrentar várias tribos. Os índios manaus (segundo os quais, a situação tá maus), os macacapurus (que eram negros como os macacos africanos), os itacoatiaras (que significa povo que jogo pedra nas tiaras), os manicores (que tinham mania de pintarem os unhas das mãos de vermelho cheguei), os jaris (que ficavam o dia inteiro a bolar projetos que nunca realizavam), os marajós (que comiam leitão à pororuca) e os humaitás (que se diziam humanos, mas comiam sopa de pedra).

Foram grandes batalhas entre o meu povo e os índios da região. Muita gente morreu naquele tempo. Foi criado um grande cemitério na periferia ao qual demos o nome de Óbidos. E, a cada enterro de uma nação indígena, tocávamos trombetas de regozijo. O local ficou se chamando Porto Trombetas. Era um bom fim.

Acabei me casando com uma nativa chamda Balbina e criamos vários amazoninos.

Isso tudo foi há muito, muito tempo. Muito antes de aqui chegarem a Santa Rem e o Alenquer, com quem tive um caso.

Tudo ia bem na minha vida até que chegou o Conde de Tordesilhas, esticando uma linha imaginária.  Com ele vieram os bandeirantes com suas entradas sanguinolentas. Depois veio com cara chamado Sting, mas que a gente chamava mesmo era de Picada de Ferrão.

Depois veio vindo cada vez mais gente e não houve São Raimundo que segurasse o poder dos fluminenses lá na náutica serra.

Hoje meu nome é Amazon, mas pode me chamar de Solimon. Pode me chamar de pulmão da humanidade. Com um seio só, mas cheio de ar nos pulmões.

E agora estão chegando mais pessoas lá da minha terra, a Ásia Menor, uns tais de japoneses, liderados por um sujeito chamado Ari Gatô. Mas a gente vai darf um jeito neles.

Ou não me chamo Amazon!