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MEU FILHO, O PAI DO CONY,GARRINCHA E BALTAZAR

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o estado de s. paulo

06/12/96

 


Oi, geeeeeeente! Olha eu aqui de novo. Agradeço ao Mauro ter  ocupado este espaço com suas sambísticas crônicas.

Depois de escrever durante quase três anos aqui neste espaço, nas férias senti um vazio profundo. Todo domingo acordava e pensava no que deveria escrever. Fui amontoando idéias.

(Sou obrigado a interromper esta crônica - é meio-dia da segunda-feira - para informar - orgulhosamente - que o meu filho entrou na USP. Filosofia. Todo pai é mesmo igual. Baba sobre a própria criação. Mas vamos voltar ao que interessa.)

Eu dizia que fui amontoando idéias. De repente percebi que todas elas tinham algo em comum: a idade, o envelhecimento. Hoje sei o motivo. É que eu faço cinqüenta anos (!!!) domingo. Dá mesmo para parar e pensar no assunto. Olhar para trás e tentar ver o que vem pela frente. Fazer promessas. Fumar menos, beber menos, casar de novo, coisas assim, quase impossíveis.

Tudo começou quando li o livro Quase Memória, do Carlos Heitor Cony que não sei porque ainda não figura entre os dez mais vendidos. Trata-se de uma obra-prima. Sem dúvida, o melhor livro que eu li nos últimos dez anos. Cony-personagem conta a vida, venturas e desventuras do seu pai. Você chora e ri ao mesmo tempo. E ali está constante o problema da idade, é claro. E faz a gente pensar no nosso próprio pai (hoje com 84 anos) e nos nossos filhos (hoje com 18 e 16).

Depois li um livro maravilhoso sobre o alcoolismo, escrito pelo Ruy Castro. Chama-se Estrela Solitária, que é como ficam os alcoólatras depois de um certo tempo. Para escrever o livro Ruy Castro pegou, como pano de fundo, a vida do Garrincha. Aconselho o livro para quem gosta de futebol e muito álcool. Dá para pensar seriamente em parar de beber para sempre. Obrigado pelos toques, Ruy. E um beijo na grande Elza Soares.

Mas o mais trágico nessas minhas leituras, foi uma notinha (bem pequena) que eu li nos jornais e deve ter passado desapercebida por muitos. Falava do Baltazar. Quem não se lembra de Cláudio, Luizinho, Baltazar, Carbone e Simão, o arrasador ataque do Corinthians em meados dos anos 50?

Baltazar era muito mais ídolo que o Luizinho, o Pequeno Polegar, por exemplo. Pelo menos para mim, ainda garoto e já corinthiano. Pois era ele quem fazia os gols. De cabeça. Era conhecido como O Cabecinha de Ouro.

Me lembro que na Copa de 54, o Brasil chegou até as quartas de finais e iria enfrentar a poderosa Hungria. Os húngaros mandaram chamar um zagueiro de dois metros para marcar o Cabecinha de Ouro. Não deu outra. Perdemos de quatro a dois e voltamos para casa. Eu tinha oito anos e ouvi o jogo pelo rádio. Baltazar era o meu ídolo.

Mas voltemos à notinha dos jornais. Dizia que o centro-avante fora encontrado, quase nu, andando por uma praia do litoral paulista, sem destino e sem memória. Estava desaparecido de casa há cinco dias. E mais nada informava. Será que a garotada da imprensa esportiva não sabe quem foi o Baltazar e a nota era para ser primeira página? No mínimo.

Fiz as contas e ele estava desaparecido desde o dia da estréia do Edmundo onde o colega de Baltazar, Luizinho, fora homenageado pelo time corintiano jogando cinco minutos para, depois, ceder seu lugar ao craque que vinha do Flamengo.

Será que tem alguma relação, a homenagem ao Pequeno Polegar Luizinho e o desaparecimento do Cabecinha de Ouro Baltazar? Talvez.

Pois foi com estes três personagens que perambulei pelas minhas férias, louco para voltar a escrever para vocês. O falecido pai do Cony, o genial Garrincha e o desmemoriado Baltazar. E, é claro, a proximidade do meu meio século (!!!).

Me desculpem se voltei meio baixo-astral. Tenho certeza que, depois dos cinqüenta anos, voltarei com mais bom humor. E mais sábio e mais experiente. Afinal não só sou eu que estou fazendo cinqüenta. É toda a minha geração, é claro. E a minha barriga é a menor de todos eles. Apesar da cerveja e de uma certa saudade de mim mesmo.