Oi, geeeeeeente! Olha eu aqui de novo. Agradeço ao Mauro ter ocupado
este espaço com suas sambísticas crônicas.
Depois de escrever durante quase três anos
aqui neste espaço, nas férias senti um vazio profundo. Todo domingo
acordava e pensava no que deveria escrever. Fui amontoando idéias.
(Sou obrigado a interromper esta crônica -
é meio-dia da segunda-feira - para informar - orgulhosamente - que o meu
filho entrou na USP. Filosofia. Todo pai é mesmo igual. Baba sobre a
própria criação. Mas vamos voltar ao que interessa.)
Eu dizia que fui amontoando idéias. De
repente percebi que todas elas tinham algo em comum: a idade, o
envelhecimento. Hoje sei o motivo. É que eu faço cinqüenta anos (!!!)
domingo. Dá mesmo para parar e pensar no assunto. Olhar para trás e
tentar ver o que vem pela frente. Fazer promessas. Fumar menos, beber
menos, casar de novo, coisas assim, quase impossíveis.
Tudo começou quando li o livro Quase
Memória, do Carlos Heitor Cony que não sei porque ainda não figura entre
os dez mais vendidos. Trata-se de uma obra-prima. Sem dúvida, o melhor
livro que eu li nos últimos dez anos. Cony-personagem conta a vida,
venturas e desventuras do seu pai. Você chora e ri ao mesmo tempo. E ali
está constante o problema da idade, é claro. E faz a gente pensar no
nosso próprio pai (hoje com 84 anos) e nos nossos filhos (hoje com 18 e
16).
Depois li um livro maravilhoso sobre o
alcoolismo, escrito pelo Ruy Castro. Chama-se Estrela Solitária, que é
como ficam os alcoólatras depois de um certo tempo. Para escrever o
livro Ruy Castro pegou, como pano de fundo, a vida do Garrincha.
Aconselho o livro para quem gosta de futebol e muito álcool. Dá para
pensar seriamente em parar de beber para sempre. Obrigado pelos toques,
Ruy. E um beijo na grande Elza Soares.
Mas o mais trágico nessas minhas leituras,
foi uma notinha (bem pequena) que eu li nos jornais e deve ter passado
desapercebida por muitos. Falava do Baltazar. Quem não se lembra de
Cláudio, Luizinho, Baltazar, Carbone e Simão, o arrasador ataque do
Corinthians em meados dos anos 50?
Baltazar era muito mais ídolo que o
Luizinho, o Pequeno Polegar, por exemplo. Pelo menos para mim, ainda
garoto e já corinthiano. Pois era ele quem fazia os gols. De cabeça. Era
conhecido como O Cabecinha de Ouro.
Me lembro que na Copa de 54, o Brasil
chegou até as quartas de finais e iria enfrentar a poderosa Hungria. Os
húngaros mandaram chamar um zagueiro de dois metros para marcar o
Cabecinha de Ouro. Não deu outra. Perdemos de quatro a dois e voltamos
para casa. Eu tinha oito anos e ouvi o jogo pelo rádio. Baltazar era o
meu ídolo.
Mas voltemos à notinha dos jornais. Dizia
que o centro-avante fora encontrado, quase nu, andando por uma praia do
litoral paulista, sem destino e sem memória. Estava desaparecido de casa
há cinco dias. E mais nada informava. Será que a garotada da imprensa
esportiva não sabe quem foi o Baltazar e a nota era para ser primeira
página? No mínimo.
Fiz as contas e ele estava desaparecido
desde o dia da estréia do Edmundo onde o colega de Baltazar, Luizinho,
fora homenageado pelo time corintiano jogando cinco minutos para,
depois, ceder seu lugar ao craque que vinha do Flamengo.
Será que tem alguma relação, a homenagem
ao Pequeno Polegar Luizinho e o desaparecimento do Cabecinha de Ouro
Baltazar? Talvez.
Pois foi com estes três personagens que
perambulei pelas minhas férias, louco para voltar a escrever para vocês.
O falecido pai do Cony, o genial Garrincha e o desmemoriado Baltazar. E,
é claro, a proximidade do meu meio século (!!!).
Me desculpem se voltei meio baixo-astral.
Tenho certeza que, depois dos cinqüenta anos, voltarei com mais bom
humor. E mais sábio e mais experiente. Afinal não só sou eu que estou
fazendo cinqüenta. É toda a minha geração, é claro. E a minha barriga é
a menor de todos eles. Apesar da cerveja e de uma certa saudade de mim
mesmo.