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Meu filho Antonio de minha mulher Marta

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o estado de s. paulo

19/02/2003

 


Brigamos muito na adolescência (dele). Entrou em Rádio e TV, largou. Entrou em Filosofia na USP, largou. E agora está fazendo Ciências Sociais na PUC ("Não é só pela grana, não"). Como escritor, mantém um certo distanciamento dos pais. Às vezes mostra algum texto inédito e aproveita apenas 10% dos comentários. Talvez esteja sendo sábio.

Mas me orgulho de ter apresentado a ele Xavier de Maistre, Campos de Carvalho, Cortázar e agora, mais recentemente, Laurence Sterne, de quem falei aqui outro dia. Campos de Carvalho, que é nosso primo, fez a cabeça do então "saindo da adolescência". E quando o primo morreu, o Estadão publicou uma entrevista que o Antonio havia feito com ele, dois dias antes da sua morte. Veja a conversa entre um escritor que estava nascendo e um gênio que estava morrendo.

Walter, você dizia que não davam valor à sua obra, que ninguém lia seus livros, até que a José Olympio os reeditou. Você achou que seria essa a única edição e lá veio outra. Você está começando a acreditar que lêem os seus livros?

CDC - Estou começando a crer, mas eu digo a você que estou falando mal, conforme você está notando, então eu só poderei responder as coisas assim, em monossílabos, ou aos poucos, porque não dá pra mais.

Bom, monossílabo tem cinco sílabas...

CDC - Vou fazer força. Eu não tenho nada a dizer de novo. Estou muito velho.

Tudo o que eu sei é velho.

Você diz isso, mas na entrevista para o Pedro Bial contou que está escrevendo um livro chamado De Novo no Ovo, alguma coisa de novo deve ter.

CDC - Eu não estou escrevendo nada no momento, estou tentando, mas não sai.

Estou querendo pensar num livro. Terá que ser humorístico. O título é... Eu não sei o título, esqueci...

E aquele outro que você tinha me falado, o Mosaico sem Moisés?

CDC - Eu estou tentando nos dois, compreende? Estou tentando e não conseguindo.

Você disse que A Lua Vem da Ásia e a Vaca de Nariz Sutil surgiram a partir do título. Esses dois que você está tentando escrever agora, surgem a partir do quê?

CDC - Do título, também. O Concerto no Ovo, é esse o nome. É uma pintura, do início do século. Quantos anos você tem?

Vinte anos.

CDC - É recém-nascido. Você gosta do Púcaro Búlgaro?

Gosto muito.

CDC - (Silêncio) Você disse numa entrevista que, ao publicar o Púcaro, seu editor havia dito que você só seria lido pela juventude dali a 30 anos.

CDC - Pois é. Eu não sabia que 30 anos duravam tanto. Demora muito, mas depois que chega, te pesa demais. De fato, eu só cheguei a compreender agora.

Mas hoje as pessoas estão voltando a ler seus livros...

CDC - Sim, percebi isso pela segunda edição. Esteve aqui minha editora, Maria Amélia Melo. Não toquei muito sobre o livro não. Inclusive ela também tocou pouco...

Sobre o que vocês conversaram?

CDC - Generalidades. Estou lhe falando que não tenho nada a lhe acrescentar ao que eu já disse antes. Eu não posso me aprofundar. Me aprofundar, me aprofundar, descobrir o nada...

Na primeira frase da Lua, você escreveu "Aos 16 anos matei meu professor de lógica, alegando legítima defesa (...)", mas todos os seus livros têm uma lógica impecável...

CDC - Faz mais de 30 anos que eu escrevi isso, então, atualmente eu sei disso. Mas, na época, saiu no tom em que se pensava. Não houve nada sabidamente antecipado. Você está perguntando mesmo o quê?"

Num dos livros do parente Ignácio de Loyola Brandão, nosso homem das sextas-feiras, um personagem vai assistir a uma peça de teatro (uma tragicomédia escrita por Mario Prata) com elenco encabeçado pela Vera Fischer. A peça tinha o título desta crônica e o Loyola teve a pachorra de desenhar o cartaz da mesma e inserir nas páginas do livro. Marta Góes ainda era minha esposa e o filho Antonio deveria ter uns 5 anos.

E foi com esta idade que um dia, num passeio de carro, ele olhando para as árvores, disse: "As árvores crescem e se derruba. Eu não quero ser árvore porque não quero que derruba eu." Eu e Marta, no banco do frente, nos olhamos de soslaio e ficamos na nossa. Mas que o menino tinha feito um poema, tinha. Achamos melhor não incentivar. Pai e mãe escritores, era melhor deixar pra lá.

Pois. O Antonio virou escritor. E já está nas boas casas do ramo As Pernas da Tia Corália, o que já causou uma certa discussão na família, pois ele não tem tias do lado da mãe e as únicas são mesmo as minhas irmãs Rita e Ruth.

De quem serão aquelas pernas que ilustram a capa do livro editado pela Objetiva? Jamais saberemos.

NOTA - Fotos do autor de As Pernas da Tia Corália no site www.marioprataonline.com.br. E lá você vai encontrar também algumas crônicas que escrevi sobre o velho primo. E alguma coisa do pai (com muito orgulho e corujice) do Antonio Prata.

NOTA II - Tá meio confusa esta crônica, né? É que fica difícil escrever sobre escritores-parentes. E perna de tia e vaca de nariz sutil.