A
Arapuã começou modestamente numa esquina de Lins. Vendia tecidos. Depois abriu
uma outra loja, na esquina de cima, de eletrodomésticos. Resolveu partir para
Bauru e Araçatuba e, depois, para todo o Brasil. Para tanto, contrataram o
Roberto Filipelli, jovem publicitário paulistano, para dar o empurrão. Os
donos Jorge e Caio Simeira Jacob eram bem jovens.
E
foi o Filippeli, hoje o homem de vendas da Globo para todo o mundo (e cada vez
mais meu amigo) quem me chamou para fazer um jornalzinho com ele. Jornal do Lar.
Eu tinha 16 anos. Fui trabalhar lá. E o que mais me impressionou foi a
quantidade de funcionários japoneses e nisseis. Perguntei ao Jorge e ele, já
do alto do seu tino comercial:
-
Japonês trabalha mais. Japonês não falta ao serviço. Japonês rende mais.
E
deve mesmo ter rendido.
Me
lembrei deste caso, mais de trinta anos depois, quando as manchetes brasileiras
foram invadidas por dois japoneses ilustres e dignos.
O
primeiro, Manabu Mabe (em Lins se procunciava Mabábu), que chegou criança em
Lins, vindo do Japão e foi colher café. Nas horas vagas pintava cafezais
e telhados da cidade. Era um duro. Ia ao médico ou ao advogado e dizia não ter
dinheiro. Pagava em quadros. Quadros que eram deixados no fundo da garagem,
depois vinham para a cozinha, até atingirem a parede principal da sala,
conforme o homem ia se internacionalizando. Até hoje muitos linenses têm seus
Mabes na paredes, de uma fase que ninguém conhece. E tem mais: ele desenhava
ilhas com coqueiros e mulheres sensuais. Em gravatas brancas. Será que alguém
ainda tem uma raridade dessas lá em Lins?
Começou
a ter aula com o linense Kumasaka, tão bom ou melhor do que ele. Um dia
Kumasaka saiu de Lins para mostrar seus quadros em São Paulo. Mabe já famoso.
A crítica foi cruel:
-
Parece muito com o Mabe...
Kumasaka
voltou para Lins e continuou a fazer fotos três por quatro no seu ateliê.
Mabe
morreu na semana passada. Dizem que foi ingrato com a cidade nunca mais voltando
lá. Mas isso é outra história. Foi um grande japonês, um dos maiores
pintores brasileiros deste século.
E
por falar em japonês que está nas manchetes, não posso deixar de falar no
Massa (como ele gosta de ser chamado) Ota. Pai do pequeno Yves morto pela PMB
(polícia militar bandida), uma facção da PM paulista.
Infelizmente
a tragédia trouxe este nissei aos jornais. Ele e sua mulher. Eles e as suas
coragens.
Resolveu
entrar na luta pelos direitos dos cidadãos. Pelo direito das pessoas viverem
sem medo dos bandidos e das polícias.
Jorge
Simeira Jacob, da Arapuã, deve estar pensando:
-
Agora a coisa vai ser moralizada.
Conheço
os japoneses. Eles levam as coisas a sério. Assim como eles desmontaram os
radinhos americanos depois da guerra, aprenderam como se fazia e fizeram melhor,
acho que o bom Massa vai desmontar a impunidade e a arbitrariedade brasileiras e
montar outra vez. À moda japonesa. Ou seja, melhor e mais barata.
Parte
o Manábu e entra em cena o Massa Ota. Que o Massa e sua mulher e seus parentes
e seus conterrâneos não esmoreçam. Sou de Lins, convivi com a metade da populção
japonesa (tinha até príncipe lá) e sei que, onde eles se metem, alguma coisa
acontece. Nada será como antes.
Como
a pintura do Mabe que revolucionou a arte brasileira e mundial. Como a Arapuã
que cresceu pelo Brasil todo.
Infelizmente,
Massa, você surgiu no noticiário de uma maneira triste, muito triste. Mas
tenho a certeza que vocês todos, japoneses, nisseis e sanseis, vão continuar a
ajudar o Brasil.
Afinal,
Massa, o Brasil já é de vocês. Seu Yves foi. Um anjo da guarda, como disse a
sua mulher. Mas muitos Yves vão continuar a viver.
Neste
momento, somos um povo só.