Toca o telefone, atendo:
- É do número tal? (voz de adolescente)
- Pois não.
- Aqui é da Transbrasil e o senhor acaba de ganhar
uma passagem de ida e volta para a p.q.p.!
Era um trote, pois não. E é neste momento do trote
que, quem está lá do outro lado, vai se deliciar. Eu tinha que responder com um
palavrão, tinha que ficar irritado. Mas a mocinha de voz delicada não sabia em quem ela
estava passando trote. Logo em mim, que era o Rei do Trote no início da minha
adolescência, no interior. Fiquei na minha, no desarme:
- Que ótimo! Para quando, o vôo?
Houve um constrangedor silêncio do outro lado da
linha.
- Como?
- Quando parte o vôo? Posso ir acompanhado?
Ela estava desarmada, pega com a boca na botija (ou
seria no bocal?). Não esperava essa minha reação.
- Como assim?
- Ganhei hotel também?
Novo silêncio.
- O senhor é muito simpático, viu? Desculpa...
E desligou.
Quando eu era garoto ainda não existia o telefone
de discar em Lins. Ligava-se, girando uma manivela na parede, para a Central, e a moça de
voz rouca fazia a ligação local. Interurbano era um problema. Por exemplo. Queria se
falar de Lins para São Paulo, pedia-se a ligação e ficávamos sabendo da demora: oito
horas!
E quando o interurbano saia, era uma gritaria
horrível. Todo o quarteirão sabia o que estava sendo tratado na ligação. Depois de um
interurbano, sempre apareciam os vizinhos para dar pêsames ou parabéns. Era um horror.
Depois a Telesp instalou o telefone de discar. Todo
mundo na cidade tinha. Foi uma festa. Com o advento de tal modernidade, vieram,
incontinenti, os trotes. E haja trote.
Tinha um amigo, o César, que passava o dia inteiro
passando trote. Todos da minha idade passavam trote. Como todo mundo na cidade conhecia
todo mundo, o trote era, digamos direcionado. Você sabia em quem estava passando trote. O
trote era anônimo só daqui para lá.
Me lembro que inventamos o Trote Eclesiástico. Era
o melhor de todos. Era assim: pegava-se o telefone de uma beata, daquelas bem beatas e
discava. A santa criatura atendia.
- Alô, aqui é da Telesp, minha senhora.
- Pois não, meu filho.
- Nós estamos testando a qualidade de audição dos
aparelhos. A senhora poderia colaborar com a gente?
- Claro, meu filho.
- O telefone da senhora está perto da mesa de
jantar?
- Está.
- A que distância, mais ou menos?
- Uns três metros, acho.
- Ótimo. Então a senhora, por favor, se não for
incômodo...
- Incômodo nenhum, imagine...
- A senhora, por favor, deixe o telefone em cima da
mesinha, vai até a mesa de jantar, sobe em cima dela e reze uma Ave-Maria. Bem alto.
- Uma Ave-Maria? Bem alto? Em cima da mesa?
- Sim, para ver se estamos ouvindo bem.
- Pois não, meu filho.
E a beata deixava o telefone, subia na mesa e
começava a rezar, cada vez mais alto:
- Ave-Maria, cheia de graça, está me ouvindo, meu
filho?, o Senhor é convosco, bendita sois vós, quer que eu reze mais alto, meu filho?,
entre as mulheres, estou gritando, está me ouvindo?, bendito é o fruto do vosso reino,
Jesus. A segunda parte também? Está me ouvindo? Está me ouvindo, meu filho?
Depois a gente chegou a aperfeiçoar ainda mais. Um
de nós ia para frente da casa da velhinha e ficava olhando pela janela.
Todas colaboravam. Era o espírito cristão a
serviço das novas tecnologias.
Não me surpreenderia nada se o "bispo"
von Helder, desse uns trotes desse tipo. Mandasse a pessoa subir na cadeira e chutar a
imagem de Nossa Senhora Aparecida. E mostrasse pela televisão.
PS - E por falar na competente Telesp, cadê o meu
número do celular? Já tem mais de um ano, gente!