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ME PASSARAM UM TROTE

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o estado de s. paulo

23/10/85

 


Toca o telefone, atendo:

- É do número tal? (voz de adolescente)

- Pois não.

- Aqui é da Transbrasil e o senhor acaba de ganhar uma passagem de ida e volta para a p.q.p.!

Era um trote, pois não. E é neste momento do trote que, quem está lá do outro lado, vai se deliciar. Eu tinha que responder com um palavrão, tinha que ficar irritado. Mas a mocinha de voz delicada não sabia em quem ela estava passando trote. Logo em mim, que era o Rei do Trote no início da minha adolescência, no interior. Fiquei na minha, no desarme:

- Que ótimo! Para quando, o vôo?

Houve um constrangedor silêncio do outro lado da linha.

- Como?

- Quando parte o vôo? Posso ir acompanhado?

Ela estava desarmada, pega com a boca na botija (ou seria no bocal?). Não esperava essa minha reação.

- Como assim?

- Ganhei hotel também?

Novo silêncio.

- O senhor é muito simpático, viu? Desculpa...

E desligou.

Quando eu era garoto ainda não existia o telefone de discar em Lins. Ligava-se, girando uma manivela na parede, para a Central, e a moça de voz rouca fazia a ligação local. Interurbano era um problema. Por exemplo. Queria se falar de Lins para São Paulo, pedia-se a ligação e ficávamos sabendo da demora: oito horas!

E quando o interurbano saia, era uma gritaria horrível. Todo o quarteirão sabia o que estava sendo tratado na ligação. Depois de um interurbano, sempre apareciam os vizinhos para dar pêsames ou parabéns. Era um horror.

Depois a Telesp instalou o telefone de discar. Todo mundo na cidade tinha. Foi uma festa. Com o advento de tal modernidade, vieram, incontinenti, os trotes. E haja trote.

Tinha um amigo, o César, que passava o dia inteiro passando trote. Todos da minha idade passavam trote. Como todo mundo na cidade conhecia todo mundo, o trote era, digamos direcionado. Você sabia em quem estava passando trote. O trote era anônimo só daqui para lá.

Me lembro que inventamos o Trote Eclesiástico. Era o melhor de todos. Era assim: pegava-se o telefone de uma beata, daquelas bem beatas e discava. A santa criatura atendia.

- Alô, aqui é da Telesp, minha senhora.

- Pois não, meu filho.

- Nós estamos testando a qualidade de audição dos aparelhos. A senhora poderia colaborar com a gente?

- Claro, meu filho.

- O telefone da senhora está perto da mesa de jantar?

- Está.

- A que distância, mais ou menos?

- Uns três metros, acho.

- Ótimo. Então a senhora, por favor, se não for incômodo...

- Incômodo nenhum, imagine...

- A senhora, por favor, deixe o telefone em cima da mesinha, vai até a mesa de jantar, sobe em cima dela e reze uma Ave-Maria. Bem alto.

- Uma Ave-Maria? Bem alto? Em cima da mesa?

- Sim, para ver se estamos ouvindo bem.

- Pois não, meu filho.

E a beata deixava o telefone, subia na mesa e começava a rezar, cada vez mais alto:

- Ave-Maria, cheia de graça, está me ouvindo, meu filho?, o Senhor é convosco, bendita sois vós, quer que eu reze mais alto, meu filho?, entre as mulheres, estou gritando, está me ouvindo?, bendito é o fruto do vosso reino, Jesus. A segunda parte também? Está me ouvindo? Está me ouvindo, meu filho?

Depois a gente chegou a aperfeiçoar ainda mais. Um de nós ia para frente da casa da velhinha e ficava olhando pela janela.

Todas colaboravam. Era o espírito cristão a serviço das novas tecnologias.

Não me surpreenderia nada se o "bispo" von Helder, desse uns trotes desse tipo. Mandasse a pessoa subir na cadeira e chutar a imagem de Nossa Senhora Aparecida. E mostrasse pela televisão.

PS - E por falar na competente Telesp, cadê o meu número do celular? Já tem mais de um ano, gente!