Tivesse
eu conhecido o Marcão há uns meses atrás e meu livro Diário de um Magro (não
confundir com Diário de um Mago, como um jornal fez) teria sido um pouco mais
rico e gordo.
Uma
vez, visitando o spa vi o Marcão deitado numa suíte. Ele não se levantava.
Tinha mais de 200 quilos. Agora bem mais magrinho (perdeu já uns quarenta) anda
pelos bosque, digamos, filosofando.
Marcão
é representante da Antárctica na região de Itapecerica da Serra. Além da
cerveja, exímio conhecedor dos prazeres da carne. De vaca, leitoa, frango, o
que vier, ele traça.
No
primeiro dia que o conheci ele estava descrevendo um risoto que ele viu no
programa da Ofélia pela televisão, satisfação esta que não perde por nada
nesse mundo.
A
gente estava falando de beber e ele logo filosofou, convicto:
- Não
adianta fazer planos para não beber. O problema da bebida é que a oferta é
maior que a procura.
Nem
meu querido Millôr diria melhor.
Outro
dia, enquanto ele descrevia, com minúcias, um sanduíche que ele gostaria de
comer naquela hora, fazendo a baba escorrer pelas bocas de gordinhos e gordinhas
que a rodeavam, o assunto passou para briga. Briga entre velhos amigos. E ele
citou três situações inevitáveis para conseguir brigar com os melhores
amigos e amigas.
Primeira,
a excursão:
Não
há excursão, longa ou curta, nacional ou no exterior, que não termine com os
amigos brigando. E ele tem razão. Você não convive com os amigos e amigas o
dia inteiro. Mas se partem para uma excursão, a briga no final é inevitável,
segundo o Marcão. Ninguém agüenta mais olhar para aquele amigo ou amiga.
Principalmente se você divide o mesmo quarto com um que ronca sistematicamente.
Se a excursão for de navio, piora muito, porque não dá para mandar o barco
parar e descer.
Pela
Europa, a briga começa na hora de fazer os planos para a noite. Sem contar
naquela mulher do melhor amigo que atrasa sempre. Sempre. E as desculpas são
sempre as mais esfarrapadas:
-
Nossa, o elevador demorou horas!
Segundo
o Marcão, até mesmo sólidos casamentos não resistem a uma excursão.
Segunda,
a conta.
Dar
festa em casa, convidar vários amigos e rachar a conta. O mais contabilista faz
todas as contas, soma tudo, divide e diz:
-
Deu trinta e dois para cada um.
Mas
tem sempre um amigo que pede a palavra:
-
Desculpa interromper, mas eu trouxe a cerveja...
Pronto,
a discórdia está estabelecida.
- A
sobremesa entrou na conta?
-
Peraí, se for descontar a sobremesa, desculpe, mas os copos de plástico...
-
Está bem, vamos refazer a conta, diz o anfitrião.
-
Benhe, já que é assim, a gente entrou com a casa. Olha a bagunça. Tem que vir
a diarista amanhã.
E
por aí vai.
Terceira,
o churrasco.
Sou
um churrasqueiro de mão cheia e sei do que se trata. Churrasco que todo mundo
mexe na carne, acaba em briga. Uma vez quase me atraquei com o meu cunhado Alemão
(apesar de ser português) que, logo de cara, me fatiou toda a bela peça de
picanha, ainda crua.
-
Não me venha com salmora que endurece a carne.
Caipirinha.
- A
gordura tem que ficar para baixo, até pingar.
-
Cerveja.
-
Imagina, a gordura para cima.
Caipirinha.
- O
fogo está baixo, vamos colocar mais carvão.
A
minha de vodka. Sem açúcar.
-
Se colocar mais carvão o fogo vai ficar alto e queimar a carne.
Caipirinha
tem que ser de cachaça, vendido!
-
Coloca o espeto mais para cima.
Benhe,
a cerveja está quente.
-
Este já está bom, pode baixar um pouco.
Também,
quem trouxe a cerveja chegou em cima da hora.
-
Quem foi que jogou água no fogo?
Capirinha.
-
Quem foi que colocou as asinhas lá em cima? Está pingando na carne de baixo. A
carne vai ficar com gosto de frango.
Acabou
o gelo. Quem vai comprar mais?
-
Nem pensar em colocar o peixe agora. Ficou doido? Vai querer picanha com cheiro
de peixe? Parece tudo amador.
Quem
que trouxe tão pouco gelo?
-
Afinal de quem é a churrasqueira?
Tira
essas crianças daqui.
-
Tudo bem, mas quem trouxe a carne?
E o
pãozinho, ninguém se lembrou do pãozinho? O serviço está péssimo.
- Tá
com muito sal grosso.
Mais
cerveja. Morna.
-
Melhor colocar mais sal.
-
Gente a carne queimou...
- Não
disse? Ninguém me ouve...