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MARCÃO: FILÓSOFO DA OBESIDADE

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o estado de s. paulo

1998

 


Tivesse eu conhecido o Marcão há uns meses atrás e meu livro Diário de um Magro (não confundir com Diário de um Mago, como um jornal fez) teria sido um pouco mais rico e gordo.

Uma vez, visitando o spa vi o Marcão deitado numa suíte. Ele não se levantava. Tinha mais de 200 quilos. Agora bem mais magrinho (perdeu já uns quarenta) anda pelos bosque, digamos, filosofando.

Marcão é representante da Antárctica na região de Itapecerica da Serra. Além da cerveja, exímio conhecedor dos prazeres da carne. De vaca, leitoa, frango, o que vier, ele traça.

No primeiro dia que o conheci ele estava descrevendo um risoto que ele viu no programa da Ofélia pela televisão, satisfação esta que não perde por nada nesse mundo.

A gente estava falando de beber e ele logo filosofou, convicto:

- Não adianta fazer planos para não beber. O problema da bebida é que a oferta é maior que a procura.

Nem meu querido Millôr diria melhor.

Outro dia, enquanto ele descrevia, com minúcias, um sanduíche que ele gostaria de comer naquela hora, fazendo a baba escorrer pelas bocas de gordinhos e gordinhas que a rodeavam, o assunto passou para briga. Briga entre velhos amigos. E ele citou três situações inevitáveis para conseguir brigar com os melhores amigos e amigas.

Primeira, a excursão:

Não há excursão, longa ou curta, nacional ou no exterior, que não termine com os amigos brigando. E ele tem razão. Você não convive com os amigos e amigas o dia inteiro. Mas se partem para uma excursão, a briga no final é inevitável, segundo o Marcão. Ninguém agüenta mais olhar para aquele amigo ou amiga. Principalmente se você divide o mesmo quarto com um que ronca sistematicamente. Se a excursão for de navio, piora muito, porque não dá para mandar o barco parar e descer.

Pela Europa, a briga começa na hora de fazer os planos para a noite. Sem contar naquela mulher do melhor amigo que atrasa sempre. Sempre. E as desculpas são sempre as mais esfarrapadas:

- Nossa, o elevador demorou horas!

Segundo o Marcão, até mesmo sólidos casamentos não resistem a uma excursão.

Segunda, a conta.

Dar festa em casa, convidar vários amigos e rachar a conta. O mais contabilista faz todas as contas, soma tudo, divide e diz:

- Deu trinta e dois para cada um.

Mas tem sempre um amigo que pede a palavra:

- Desculpa interromper, mas eu trouxe a cerveja...

Pronto, a discórdia está estabelecida.

- A sobremesa entrou na conta?

- Peraí, se for descontar a sobremesa, desculpe, mas os copos de plástico...

- Está bem, vamos refazer a conta, diz o anfitrião.

- Benhe, já que é assim, a gente entrou com a casa. Olha a bagunça. Tem que vir a diarista amanhã.

E por aí vai.

Terceira, o churrasco.

Sou um churrasqueiro de mão cheia e sei do que se trata. Churrasco que todo mundo mexe na carne, acaba em briga. Uma vez quase me atraquei com o meu cunhado Alemão (apesar de ser português) que, logo de cara, me fatiou toda a bela peça de picanha, ainda crua.

 - Não me venha com salmora que endurece a carne.

Caipirinha.

- A gordura tem que ficar para baixo, até pingar.

- Cerveja.

- Imagina, a gordura para cima.

Caipirinha.

- O fogo está baixo, vamos colocar mais carvão.

A minha de vodka. Sem açúcar.

- Se colocar mais carvão o fogo vai ficar alto e queimar a carne.

Caipirinha tem que ser de cachaça, vendido!

- Coloca o espeto mais para cima.

Benhe, a cerveja está quente.

- Este já está bom, pode baixar um pouco.

Também, quem trouxe a cerveja chegou em cima da hora.

- Quem foi que jogou água no fogo?

Capirinha.

- Quem foi que colocou as asinhas lá em cima? Está pingando na carne de baixo. A carne vai ficar com gosto de frango.

Acabou o gelo. Quem vai comprar mais?

- Nem pensar em colocar o peixe agora. Ficou doido? Vai querer picanha com cheiro de peixe? Parece tudo amador.

Quem que trouxe tão pouco gelo?

- Afinal de quem é a churrasqueira?

Tira essas crianças daqui.

- Tudo bem, mas quem trouxe a carne?

E o pãozinho, ninguém se lembrou do pãozinho? O serviço está péssimo.

- Tá com muito sal grosso.

Mais cerveja. Morna.

- Melhor colocar mais sal.

- Gente a carne queimou...

- Não disse? Ninguém me ouve...