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LÁGRIMAS DE HOLLYWOOD

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o estado de s. paulo

07/01/99

 


MONTEVIDÉU - A deliciosa vitória dos americanos sobre os argentinos, comandada pelo "fenômeno" Lalas, mexeu com a tabela, com vôos cancelados, hotéis desmarcados, sonhos e lágrimas. Quando tudo parecia caminhar para uma quarta-de-final esperada, tudo mudou.Inclusive o meu sono. Não dormi a noite de sexta para sábado.

Assisti ao jogo na casa de um casal uruguaio, comendo churrasco diretamente da lareira. Os uruguaios, como nós brasileiros, também não gostam dos argentinos. Torcíamos para os americanos. Mas acho que torcemos demais: hoje enfrentamos Batistutas e Balboas feridos.

Volto ao hotel. É meia-noite, um frio desgraçado insiste em entrar por um espacinho da vidraça. A televisão não fala noutra coisa. Chove lá fora. Os gols americanos são repetidos em todas as posições e canais.

Toca o telefone. É o fotógrafo do Estadão, o Marcos Mendes. Somente aqui vim a descobrir que ele é lá da Casa Verde, da turma do Toninho Mendes (seu irmão), que edita as revistas do Angeli (também casaverdiano), Glauco e Laerte. Amigo de infância do meu psiquiatra, o professor, doutor e livre docente Jair Mari. Tocou o telefone, eu dizia:

- O desgraçado do Lalas!

Disse isso chorando, o Marcos. No começo achei que ele estava brincando. Depois fui percebendo que ele chorava mesmo, de soluçar. Me disse que precisava de um ombro. Mas logo eu?, pensei. Será que é porque temos um psiquiatra em comum? Chamo o Marcos para o meu quarto.

Abro a porta e ele entra, com um óculos escuros de esconder Greta Garbo, aos prantos. Alguma notícia ruim do Brasil, presumo. Nada disso.

Ele seria o único fotógrafo do jornal em Paissandu. O vôo foi cancelado, Não havia teto nem cá, nem lá.

- Você tá entendendo, cara? O maior acontecimento da Copa e eu não estava lá. Perdi. Ia dar capa.

E chorava. Dei um uísque para ele. Duplo. Tomou sem gelo, foi se acalmando. Perdeu o avião e não dava mais para ir de ônibus. E não havia mais carros para alugar em nenhuma locadora.

Fiquei impressionado com o senso profissional do colega. Já refeito da foto perdida, um pouco anestesiado, foi embora pedindo desculpas pelas lágrimas de Ava Gardner nos meus ombros.

Na porta:

- Sabe que, no fundo, eu torci para os gringos? Mas eu não estava lá. Eu tinha que estar lá.

- Chega!

Ele foi embora. Mas quando ele falou a palavra gringo, eu logo me lembrei de outro colega, o gringo Matthew Shirts, meu companheiro na Copa dos Estados Unidos e que está na Califórnia e, com toda a certeza, não estava sabendo do feito dos seus compatriotas.

Não sabia o telefone dele em Del Mar. Ligo para a casa do Reinaldo Moraes em São Paulo. Me localize o Mateus, já. Mas não diga o que é. Eu quero dar a notícia para ele.

Duas da manhã (lá eram nove da noite) me liga o Mateus ávido de notícias sobre a seleção brasileira. Logo conto o estrago que os Estados Unidos tinham acabado de fazer aqui no Uruguai, na Argetina e em toda a América Latina.

- Três a zero? Na Argentina? Não acredito.

Começo a contar detalhes do jogo e ele, lá no sul da Califórnia, começa a chorar. Mais um, meu Deus.

E ele conversava comigo em português e ia passando as informações para o pai dele, o Gary, em inglês.

- O Lalas marcou um gol de calcanhar, dad. De calcanhar.

E chorava o meu bom Mateus, há uns quinze mil quilômetros de Paissandu. Seu filho chorava, seu pai chorava. Choravam e gritavam, alegres.

- Hollywood tem que fazer um filme com esses caras! Três a zero, meu? Campeão do grupo?

- É isso aí, meu querido. Agora a conseqüência imediata: segunda-feira temos que enfrentar a Argentina.

- De novo?

- Não, idiota. Nós, brasileiros.

- Ah, nós. Shit!

- Shirts?

- No, Silver: shit!

Yah!!!