MONTEVIDÉU - A deliciosa vitória dos americanos sobre os
argentinos, comandada pelo "fenômeno" Lalas, mexeu com a tabela, com vôos
cancelados, hotéis desmarcados, sonhos e lágrimas. Quando tudo parecia caminhar para uma
quarta-de-final esperada, tudo mudou.Inclusive o meu sono. Não dormi a noite de sexta
para sábado.
Assisti ao jogo na casa de um casal uruguaio, comendo churrasco
diretamente da lareira. Os uruguaios, como nós brasileiros, também não gostam dos
argentinos. Torcíamos para os americanos. Mas acho que torcemos demais: hoje enfrentamos
Batistutas e Balboas feridos.
Volto ao hotel. É meia-noite, um frio desgraçado insiste em entrar
por um espacinho da vidraça. A televisão não fala noutra coisa. Chove lá fora. Os gols
americanos são repetidos em todas as posições e canais.
Toca o telefone. É o fotógrafo do Estadão, o Marcos Mendes.
Somente aqui vim a descobrir que ele é lá da Casa Verde, da turma do Toninho Mendes (seu
irmão), que edita as revistas do Angeli (também casaverdiano), Glauco e Laerte. Amigo de
infância do meu psiquiatra, o professor, doutor e livre docente Jair Mari. Tocou o
telefone, eu dizia:
- O desgraçado do Lalas!
Disse isso chorando, o Marcos. No começo achei que ele estava
brincando. Depois fui percebendo que ele chorava mesmo, de soluçar. Me disse que
precisava de um ombro. Mas logo eu?, pensei. Será que é porque temos um psiquiatra em
comum? Chamo o Marcos para o meu quarto.
Abro a porta e ele entra, com um óculos escuros de esconder Greta
Garbo, aos prantos. Alguma notícia ruim do Brasil, presumo. Nada disso.
Ele seria o único fotógrafo do jornal em Paissandu. O vôo foi
cancelado, Não havia teto nem cá, nem lá.
- Você tá entendendo, cara? O maior acontecimento da Copa e eu
não estava lá. Perdi. Ia dar capa.
E chorava. Dei um uísque para ele. Duplo. Tomou sem gelo, foi se
acalmando. Perdeu o avião e não dava mais para ir de ônibus. E não havia mais carros
para alugar em nenhuma locadora.
Fiquei impressionado com o senso profissional do colega. Já refeito
da foto perdida, um pouco anestesiado, foi embora pedindo desculpas pelas lágrimas de Ava
Gardner nos meus ombros.
Na porta:
- Sabe que, no fundo, eu torci para os gringos? Mas eu não estava
lá. Eu tinha que estar lá.
- Chega!
Ele foi embora. Mas quando ele falou a palavra gringo, eu logo me
lembrei de outro colega, o gringo Matthew Shirts, meu companheiro na Copa dos Estados
Unidos e que está na Califórnia e, com toda a certeza, não estava sabendo do feito dos
seus compatriotas.
Não sabia o telefone dele em Del Mar. Ligo para a casa do Reinaldo
Moraes em São Paulo. Me localize o Mateus, já. Mas não diga o que é. Eu quero dar a
notícia para ele.
Duas da manhã (lá eram nove da noite) me liga o Mateus ávido de
notícias sobre a seleção brasileira. Logo conto o estrago que os Estados Unidos tinham
acabado de fazer aqui no Uruguai, na Argetina e em toda a América Latina.
- Três a zero? Na Argentina? Não acredito.
Começo a contar detalhes do jogo e ele, lá no sul da Califórnia,
começa a chorar. Mais um, meu Deus.
E ele conversava comigo em português e ia passando as informações
para o pai dele, o Gary, em inglês.
- O Lalas marcou um gol de calcanhar, dad. De calcanhar.
E chorava o meu bom Mateus, há uns quinze mil quilômetros de
Paissandu. Seu filho chorava, seu pai chorava. Choravam e gritavam, alegres.
- Hollywood tem que fazer um filme com esses caras! Três a zero,
meu? Campeão do grupo?
- É isso aí, meu querido. Agora a conseqüência imediata:
segunda-feira temos que enfrentar a Argentina.
- De novo?
- Não, idiota. Nós, brasileiros.
- Ah, nós. Shit!
- Shirts?
- No, Silver: shit!
Yah!!!