Voltei, mãe!
O fato de cometer mais uma teledramaturgia (novela, cá entre nós) quase me
deixa seis meses fora daqui.
Não é de hoje que eu estava sendo fisgado novamente por cenas e diálogos.
Trabalhar num roteiro com o Bruno Barreto, baseado num conto meu,
reacendeu uma chama parada lá dentro, havia 18 anos, desde que escrevi
Helena (aquela mesma, do Machado) para o seu Adolpho Bloch lá na saudosa
Manchete.
Lá na mesma Manchete onde eu trabalhava ao lado da irrepreensível Tizuka
Yamazaki (aguarde Gaijin 2) que dirigia Kananga do Japão.
Pois quase 20 anos depois a Tizuka começa a insistir para eu escrever uma
novela chamada MetAMORphoses para a Rede Record. Uma produção
independente.
E a grana era surpreendente. Uma produção cuidadosa, coisa de
profissional.
E, além da Tizuka, a ligeira e revolucionária Tânia Lamarca (leia-se
Tainá).
Pois é, mãe, me animei, pedi licença aqui, convoquei o Antonio (sim, o seu
neto) e o Chico Mattoso, novos e talentosos meninos das letras, e fomos à
luta. Literalmente, como viria a perceber dias depois.
A dona da produtora tinha uma sinopse dela. Algumas boas idéias e outras
nem tanto. Refizemos a sinopse que foi aprovada pela dona e pelas
diretoras. Até mudamos o nome de Metamorphoses para Jóia Rara. Uma reunião
que acabou em beijos e uísque. Como convém.
Quando já estávamos no oitavo capítulo, soube que a dona havia
acrescentado algumas coisinhas no primeiro capítulo. Algumas coisinhas?
Queria ver. Sim, às vezes pedem para a gente mudar uma coisinha aqui,
outra ali.
Me lembrei de quando o Ruy Guerra estava dirigindo minha peça Fábrica de
Chocolates, me pediu para ir a um ensaio porque achava melhor mexer no
texto. Fui correndo para o teatro, apavorado. Afinal, ele era o Ruy Guerra
e eu não era nem amigo do Gabriel García Márquez e muito menos parceiro do
Chico Buarque. Para meu alívio, ele queria apenas mudar uma quarta-feira
por um domingo, pois eu me referia a um jogo de futebol e ele achava
melhor que o jogo fosse no domingo. Enfim, me chamou lá para mudar uma
palavra.
Enquanto esperava o tal capítulo com as novas coisinhas, me lembrei do
Boni que também uma vez me chamou na sua sala porque o ibope da novela que
eu escrevia havia caído. Fui com as pernas bambas. Eu era um garoto e ir
para a sala do Boni era o mesmo que ir para a sala do diretor no primário.
Ele não me pediu para mudar nada. Apenas me aconselhou a colocar um homem
bonito na trama. Mais especificamente o Walmor Chagas. E o idiota aqui não
colocou e o ibope continuou lá embaixo. Com o Boni, eu vivi e aprendi.
Pensei também no Bruno Barreto, com quem fiz meu último trabalho de
dramaturgia. Para mudar alguma coisinha no roteiro, me ligava de Nova York
e ficávamos horas ao telefone. Algumas vezes concordava, outras não.
E eis que chega o primeiro capítulo com as coisinhas, escritas sei lá por
quem. Mas posso imaginar quem ditou. Imagine, mãe, a senhora que é
noveleira de marca maior que, depois de dois minutos de história,
colocaram uma ceninha de seis páginas e meia (dez minutos no ar) com uma
médica explicando para uma personagem (que não existia na minha sinopse) a
importância da cirurgia plástica.
Vou poupar a senhora de contar as outras coisinhas. Foi quando eu caí fora
e voltei aqui para o meu cantinho onde, em dez anos de crônica, nunca
ninguém mexeu em uma só palavra.
Isso é tudo que eu tinha para contar para a senhora, eram estas coisinhas.
Volto a escrever profissionalmente aqui. Vou ficar com saudades da Tizuka
e da Tânia. Mas nada que uma boa cirurgia mental não resolva a curto
prazo.
E espero - sinceramente - que as duas façam uma boa novela. Pois é um
mercado que está se abrindo para todos os profissionais do ramo.
P.S. - Já nas boas casas do ramo meu livro Diário de Um Magro 2 - A Volta
ao Spa.