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JÓIA RARA

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O ESTADO DE S. PAULO

21/01/2004

 


Voltei, mãe!

O fato de cometer mais uma teledramaturgia (novela, cá entre nós) quase me deixa seis meses fora daqui.

Não é de hoje que eu estava sendo fisgado novamente por cenas e diálogos.

Trabalhar num roteiro com o Bruno Barreto, baseado num conto meu, reacendeu uma chama parada lá dentro, havia 18 anos, desde que escrevi Helena (aquela mesma, do Machado) para o seu Adolpho Bloch lá na saudosa Manchete.

Lá na mesma Manchete onde eu trabalhava ao lado da irrepreensível Tizuka Yamazaki (aguarde Gaijin 2) que dirigia Kananga do Japão.

Pois quase 20 anos depois a Tizuka começa a insistir para eu escrever uma novela chamada MetAMORphoses para a Rede Record. Uma produção independente.

E a grana era surpreendente. Uma produção cuidadosa, coisa de profissional.

E, além da Tizuka, a ligeira e revolucionária Tânia Lamarca (leia-se Tainá).

Pois é, mãe, me animei, pedi licença aqui, convoquei o Antonio (sim, o seu neto) e o Chico Mattoso, novos e talentosos meninos das letras, e fomos à luta. Literalmente, como viria a perceber dias depois.

A dona da produtora tinha uma sinopse dela. Algumas boas idéias e outras nem tanto. Refizemos a sinopse que foi aprovada pela dona e pelas diretoras. Até mudamos o nome de Metamorphoses para Jóia Rara. Uma reunião que acabou em beijos e uísque. Como convém.

Quando já estávamos no oitavo capítulo, soube que a dona havia acrescentado algumas coisinhas no primeiro capítulo. Algumas coisinhas? Queria ver. Sim, às vezes pedem para a gente mudar uma coisinha aqui, outra ali.

Me lembrei de quando o Ruy Guerra estava dirigindo minha peça Fábrica de Chocolates, me pediu para ir a um ensaio porque achava melhor mexer no texto. Fui correndo para o teatro, apavorado. Afinal, ele era o Ruy Guerra e eu não era nem amigo do Gabriel García Márquez e muito menos parceiro do Chico Buarque. Para meu alívio, ele queria apenas mudar uma quarta-feira por um domingo, pois eu me referia a um jogo de futebol e ele achava melhor que o jogo fosse no domingo. Enfim, me chamou lá para mudar uma palavra.

Enquanto esperava o tal capítulo com as novas coisinhas, me lembrei do Boni que também uma vez me chamou na sua sala porque o ibope da novela que eu escrevia havia caído. Fui com as pernas bambas. Eu era um garoto e ir para a sala do Boni era o mesmo que ir para a sala do diretor no primário. Ele não me pediu para mudar nada. Apenas me aconselhou a colocar um homem bonito na trama. Mais especificamente o Walmor Chagas. E o idiota aqui não colocou e o ibope continuou lá embaixo. Com o Boni, eu vivi e aprendi.

Pensei também no Bruno Barreto, com quem fiz meu último trabalho de dramaturgia. Para mudar alguma coisinha no roteiro, me ligava de Nova York e ficávamos horas ao telefone. Algumas vezes concordava, outras não.

E eis que chega o primeiro capítulo com as coisinhas, escritas sei lá por quem. Mas posso imaginar quem ditou. Imagine, mãe, a senhora que é noveleira de marca maior que, depois de dois minutos de história, colocaram uma ceninha de seis páginas e meia (dez minutos no ar) com uma médica explicando para uma personagem (que não existia na minha sinopse) a importância da cirurgia plástica.

Vou poupar a senhora de contar as outras coisinhas. Foi quando eu caí fora e voltei aqui para o meu cantinho onde, em dez anos de crônica, nunca ninguém mexeu em uma só palavra.

Isso é tudo que eu tinha para contar para a senhora, eram estas coisinhas.

Volto a escrever profissionalmente aqui. Vou ficar com saudades da Tizuka e da Tânia. Mas nada que uma boa cirurgia mental não resolva a curto prazo.

E espero - sinceramente - que as duas façam uma boa novela. Pois é um mercado que está se abrindo para todos os profissionais do ramo.

P.S. - Já nas boas casas do ramo meu livro Diário de Um Magro 2 - A Volta ao Spa.