CALIFÓRNIA - Calo Aberto Parreira não gosta de dar
entrevistas exclusivas. Mas abriu uma exceção para O Estado de S. Paulo, ontem, perto da
concentração da nossa seleção, na clínica de uma magérrima calista tailandesa,
enquanto ela cuidava dos seus memoráveis calos.
Como todos vocês sabem, Calo Aberto é muito
conhecido entre Bragança Paulista e a Arábia por ter espetaculares calos nos dois pés
(e alguns na cabeça), desde a mais tenra e calorosa idade. E foi por causa destes calos
que ele nunca conseguiu ser um exímio jogador de futebol. Mas ele ficou neste esporte com
um grande sonho: um dia treinar uma seleção brasileira onde todos os jogadores tivessem
calos como ele, Calo Aberto Parreira. Calos que dificultassem, definitivamente, os passes
e os chutes a gol. Vamos à rápida entrevista:
ESTADO - É verdade que antes de ser treinador da
seleção brasileira o senhor tentou montar um time só seu, no Brasil? Com jogadores com
calos?
CALO ABERTO - A informação é correta. Sim, só
com jogadores com calos, como eu. Tentei montar um grande time com o patrocínio da Caloi
e, depois, da Calunga. Mas ninguém me levava a sério. Mas desde que o Teixeira viu os
meus calos, que tudo mudou na sua vida. O Teixeira é uma pessoa muito sensível, como
você deve saber. E entende de calos como ninguém no Brasil. Dizem que ele tem uma
coleção maravilhosa de calos na casa dele. Só do sogro Havelange ele guarda mais de
dez, numa caixinha de prata. E me parece que ele tem um filho que se chama Calo Havelange.
ESTADO - Os Estados Unidos ofereceram boas
condições para jogadores com calos, como os seus?
CALO ABERTO - E como. Excelentes, excelentes. Veja,
estamos jogando na Univesidade de Stanford, em Calo Alto, no estado da Califórnia, que
como você sabe muito bem, quer dizer terra dos calos. Tudo esteve a nosso favor. E em
Dallas vai ser melhor ainda pois os texanos usam sempre botas, o que facilita muito o
surgimento de calos nos pés. Vamos estar com a torcida a nosso favor. Pensei nisso tudo
antes de aceitar este desafio.
ESTADO - Mas os seus jogadores erram muitos passes,
não acertam o gol...
CALO ABERTO - O futebol arte acabou nos anos 70.
Hoje o jogador tem que ter calos. Não se bate mais com os três dedos e sim com os dois
calos da frente. É outro tipo de espetáculo. Mas o torcedor não pensa, não está
entendendo nada. Não sabe onde dói o calo.
ESTADO - Mas o Zinho, por exemplo...
CALO ABERTO - O Zinho peca por ainda ter um
calozinho. Mas o calo deve deve crescer nas próximas partidas.
ESTADO - E por que os seus jogadopres jogam sempre
de costas para o gol?
CALO ABERTO - Isso é uma estratégia minha. Jogando
de costas, ninguém pisa nos calos deles. Veja o caso do Leonardo, por exemplo. Ele deu
aquela cotovelada no americano porque o americano pisou no calo dele. Pode ver o replay
que você vai concordar comigo. Primeiro o pisão no calo, depois a cotovelada. No lugar
dele eu teria feito o mesmo. Com calo não se brinca.
ESTADO - Como vai ser o seu esquema para as
próximas partidas?
CALO ABERTO - O de sempre. Quatro calos atrás (no
calcanhar), quatro calos no meio do pé e dois na frente.
ESTADO - Mas não seria mais interessante jogar com
três calos na frente?
CALO ABERTO - Em absoluto. Com três calos na
frente, o jogador pode acertar o pé. Dá um certo desequilíbrio. E a idéia, você sabe,
não é essa.
ESTADO - Dizem que quem escala o time é o seu
supervisor. É verdade?
CALO ABERTO - Isso é um absurdo. Veja o verbo
escalar: significa colocar os calos em campo. Eu escalo. Sempre escalei. Ninguém entende
melhor de escalação do que eu.
ESTADO - Antigamente a selecão brasileira viajava
com um calista. Por que hoje não temos mais esta funcão na comissão técnica?
CALO ABERTO - Já respondi a esta pergunta. Se é
para jogar com calos, para que um calista?
ESTADO - Os jogadores estão reclamando muito da
falta de recreação na concentração. Procede?
CALO ABERTO - Não procede. Todas as noites eles
dançam comigo o nosso ritmo preferido, o calipso. Você já reparou na dança do calipso?
Só quem tem grandes calos pode dancar requebrando daquele jeito.
ESTADO - E o senhor tem alguma jogada ensaida para
enfrentar os holandeses?
CALO ABERTO - Claro. O corner. Como você deve
saber, calo em inglês é corn, como milho. No nosso corner, acertar na veia é como
acertar no corn, ou seja, no calo. Vamos fazer muitos gols de corner, ou melhor, de calo.
|