Outro dia escrevi aqui sobre amigos de Cabo Verde,
África, e citei o escritor e deputado Germano Almeida. E, para minha felicidade, Germano
Almeida, amigo eterno, escrivinhador de fino humor e grossa ironia, está hoje no Brasil,
hospedado na minha casa. Uma honra e eu explico.
Em 1991, estava eu a passear em Lisboa e um produtor
do cinema português, meu amigo Zé Luiz Vasconcellos, entre tragos de uísque no
Pavilhão Chinês (o bar mais bonito do mundo) me joga um livro nas mãos e pergunta se eu
quero fazer a adaptação cinematográfica. O livro era O Testamento do Sr. Napumoceno da
Silva Araujo. O autor, caboverdiano. Tava lá a foto dele na orelha. Parecia o Lothar,
aquele guarda-costas (literalmente?) do Mandrake. Olhei para aquele livrinho editado em
Cabo Verde (tiragem de 750 exemplares), dei uma sacada no título, na cara do indivíduo e
pensei: o que é que a gente não faz para ganhar a vida..., já que a grana oferecida
(tinha dinheiro da CEE na jogada) não era de se jogar fora. E disse mais o produtor: eu
teria que fazer umas viagens para Cabo Verde para conhecer o país onde se passava a
história e o autor, o tal do Germano Lothar Almeida. Onde fica Cabo Verde?, perguntei.
De volta ao Brasil, ainda sem fechar o negócio, no
avião, por falta de opção, resolvo bater os olhos naquele livrinho de capa duvidosa
(depois viria a saber ter sido feita pelo artista Leão Lopes que logo depois viraria
ministro da Cultura do arquipélago). Deveríamos estar já sobrevoando a africana Cabo
Verde e eu já havia terminado de ler as aventuras do senhor Napumoceno. Num só fôlego,
estupefato. Um obra prima. Me apaixonei pelo Napumoceno, pela cidade de Mindelo e pelo
Germano.
Não é nenhum exagero dizer que O Testamento está
para a África assim como Cem Anos de Solidão está para a América. Meses depois, diria
isso para o Germano comendo camarões na casa dele em Mindelo e ele daria uma gargalhada.
"Você ainda vai ganhar o Nobel", acrescentei. Nova gargalhada e ele me disse:
"Pode até ser. De vez em quando eles gostam de dar o prêmio para um crioulo. Pega
bem".
Germano Almeida tem a minha idade, mais de dois
metros de altura, odeia ternos, gravatas, sapatos e discursos pomposos, é advogado
(formado em Lisboa) e deputado junto a Assembléia do seu país. Na sua biblioteca tem
mais livros de autores brasileiros que na minha. Adora mulheres (tem um filho com cada uma
das três esposas oficiais que já teve). Come como um leão, gargalha como uma hiena e é
mão-de-vaca. Tem uma Mercedes Benz e a melhor casa de Mindelo, centro cultural de Cabo
Verde, com menos de 40 mil habitantes, com todo o jeitão da Bahia.
Germano Almeida veio ao Brasil participar, em
Brasília, de um encontro de escritores de língua portuguesa. Não vi nenhum linha nos
jornais de São Paulo sobre este evento. Mas Germano me ligou de Brasília dizendo que
estava cheio de crioulo por lá. Acho que a mídia perdeu a oportunidade de conhecer o
Germano, a sua obra e, principalmente, o que ele tem na cabeça. Além da oportunidade de
conhecermos um pouco do seu mais que cativante país.
Cabo Verde tem 300 mil habitantes divididos em 10
ilhas na costa oeste da África. A capital chama-se Praia. Basta isso para se imaginar
como vivem os caboverdianos. Durante o tráfico dos escravos, ali era uma parada
obrigatória. E foi assim que ingleses, franceses e até mesmo holandeses atracavam por
ali, passavam uns dias e deixavam marcas definitivas nos ventres das jovens caboverdianas.
Hoje o povo não é negro como os senegalenses, mas sim marrom. Olhos azuis e verdes com
cabelos tipo Sonia Braga. Aliás, se você quiser ter uma idéia da beleza da mulher
caboverdiana, imaginem a Braga com um mês de sol na pele.
Mas o que mais me chamou a atenção nas nativas -
observação comprovada e também admirada pelo Germano - foi a bunda das moças. Todos
sabem que esta bundinha arrebitada das brasileiras - fora as negras, não existem bundas
assim por aí - não veio das portuguesas. Veio com os negros mesmo. E, antes de chegar ao
Brasil, passou por Cabo Verde. Escrevi um artigo sobre as bundas das caboverdianas, um
texto quase acadêmico, que foi publicado num jornal de lá, dirigido, por sinal, pelo
Germano. Fiz muito sucesso entre a intelectualidade local.
Estou tentando convencer o meu amigo Pedro Paulo de
Senna Madureira que, além de dono do Bar Nabuco é editor da Siciliano, a publicar os
livros do Germano, um grande bundólogo, por aqui.
Assim ele dará entrevistas e vocês ficarão fãs
dele, como eu. E aprenderão a conhecer um país maravilhoso, alegre, feliz, onde a gente
vê garotinhos com a camisa do Flamengo na praça e mocinhas cantarolando Chico Buarque,
requebrando a bundinha pra cá e pra lá.
Benvindo, Germano, benvindo senhor Napumoceno da
Silva Araujo, com suas três mulheres.
Em tempo: fiz a adaptação para o cinema. O filme
começa a ser rodado em janeiro.
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