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JÁ NÃO HÁ MAIS LADRÕES COMO ANTIGAMENTE

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o estado de s. paulo

27.4.94

 


ASSIM NÃO é mais possível! Fui assistir ao espetacular show do XPTO no Teatro Sérgio Cardoso, volto e no banco do meu carro, sentado, a me esperar, quieto e desafiante, um enorme e sujo paralelepípedo. Paralelepípedo este que entrou pelo vidro dianteiro do meu possante Twingo arremessando estilhaços de vidros por todos os cantos. Que amadorismo, minha gente! É realmente revoltante. Será que os novos ladrões não sabem nem mesmo abrir mais a porta de um carro?

Antigamente o serviço era feito com mais profissionalismo, com mais apuro. Às vezes, a gente só ia dar conta do roubo de um rádio já em casa. Agora não. Nosso novos ladrões não estão com nada.

Já que o país anda mesmo coitado, que os ladrões são mesmo inevitáveis, o governo poderia organizar melhor os pequenos furtos, já que os grandes são super bem-bolados. Uma escola para ladrões, por exemplo Coisa de primeiro mundo.

No Jardim da Infância, por exemplo, se ensinaria a roubar chicletes em supermercado (sem ser pego), lanche dos coleguinhas e bolinha de gude. E a colar, é claro.

No curso primário, a garotada ia aprender a roubar laranja dos vizinhos, galinhas, carteiras de incautos. Mais uns anos e se poderia ensinar a arrombar portas de casas e de carros, sem deixar a vítima aborrecida com estragos desnecessários. Poderiam ter aulas com os nossos melhores corredores de Fórmula 1 para aprender a roubar os quatro pneus do carro em menos de seis segundos. Nas aulas de educação física. aprenderiam a correr entre multidões e a pular de ônibus andando, andar em cima dos trens e apanhar calados.

Numa espécie de ginásio, aulas de assalto à mão armada, mesmo que o revólver seja de plástico. Halterofilismo. Lutas orientais e capoeira, com alta especialização em trombadas e trombadinhas. Esportes, como salto em altura (muros), saltos em distância e até mesmo o triplo. Algumas línguas, entre elas o inglês e o alemão, para se assaltar gringos. Um trombadinha que fala inglês é muito mais trombadinha. Também algumas aulas de etiqueta e boas maneiras, para se assaltar senhoras desprevenidas.

No colegial, já se aprenderia sonegação de impostos, falsificação de documentos e mil e uma maneiras de se ganhar na loto. Claro que os melhores alunos ganhariam bolsas para o exterior. Uma especialização, por exemplo, no Paraguai ou na Bolívia, seria ótimo. Os mais habilidosos poderiam fazer estágio em Brasília, com aulas ao vivo e a cores. Defenderiam teses, seriam doutores em roubo, poderiam se organizar em sindicatos etc.

E por que não uma Faculdade do Assalto, do Roubo e das Trombadas, a famosa FART (pum!)? Apenas para os melhores. Setecentos candidatos para uma vaga, como acontece nas boas escolas brasileiras. Cadeiras como Jogo do Bicho, Tráfico de Cocaína, Lobby, Plágio Musical etc. Professores brasileiros e estrangeiros. A FART ficaria em Brasília, é claro.

Tenho certeza que, com ladrões profissionais, o Brasil seria um país muito melhor, muito mais primeiro mundo.

Chega de jogar paralelepípedos na nossa cara. Joguemos todos nós um canudo na mão deles. Um diploma. É isso que o Brasil está precisando: educação e cultura! E leques, para se afanar e abanar.