2 de agosto de 1959: Aconteceu o que eu esperava. Estou interna no Colégio
Auxiliadora. Um dia ainda me vingo. Hoje não posso dizer mais nada porque as
freiras ficam vigiando e já andaram avisando que é proibido escrever diários,
trocar de roupa sem camisola por cima, ficar mais de três minutos no banho,
conversar com a luz apagada, dormir sem se cobrir, ler qualquer tipo de
revista ou jornal e até mesmo ficar gripada sem aviso prévio. Ah, querido
Diário, vou ter que te esconder muito bem escondidinho.
3 de agosto: É o cúmulo, Diário. Imagine você que hoje eu tive a
primeira aula de ciências e recebi o livro de Ciências Naturais e as freiras
tinham arrancado mais de vinte páginas. Todas as páginas que tinham desenho ou
fotografia do corpo humano elas arrancaram. Disse a Irmã Blanche gue são todas
pecaminosas e facilitam o pecado mortal, incentivam o venial e prova a
existência do original, aquele do Adão e da Eva que, cá entre nós, eu não
tenho culpa nenhuma.
4 de agosto: Infelizmente a classe das internas é separada das
externas. Dizem as freiras que é para evitar contato com os pecados que
existem lá fora. Mesmo assim, hoje, no recreio, pude conversar com a Glorinha
e fiquei sabendo que está passando um filme incrível chamado O Maior
Espetáculo da Terra. Não que aqui no internato não tenha cinema. Tem sim.
Nesse sábado, por exemplo, vai passar As Cruzadas. E no domingo, A Pia Vida de
Dorningos Sávio, feito por um salesiano de Turim. São filmes edificantes,
disse a Madre Conselheira. A Glorinha me disse também que... Apagou a luz!
5 de agosto: Finalmente uma coisa rnaravilhosa aconteceu. Como
você deve saber, o Colégio Auxiliadora é ao lado do Colégio Salesiano, dos
meninos. Durante o recreio deles, tem um serviço de alto falantes que toca
música, fala de futebol e fofoca dos alunos. Aqui da minha classe onde estou
agora, dá para escutar direitinho. Eu sento perto da janela, porque assim eu
posso olhar os carros passando na rua. E quem é que é o locutor do ASI
(Agência Salesiana de Informações), querido Diário, razão da minha vida? Quem?
O Badaró do segundo científico. Eu vou pedir para a Glorinha pedir pra ele
tocar na ASI a música Tenderly, que só me traz boas recordações. Ah, a voz do
Badaró é tão sensual... A Glorinha também, tem uma voz assim meio grossinha...
6 de agosto: A Irmã Blanche me pegou fumando no banheiro no
recreio da tarde.
Foi um bafafá.
Disse que só não chama a minha mãe e o meu pai junto se eu
contar quem foi que me deu o cigarro. Você e eu sabemos que foi a Nenzica da
limpeza. Mas você acha que eu vou contar para ela ? Nem morta. Morro e levo
esse segredo comigo. Não foi o Domingo Sávio que morreu assim, carregando um
segredo? Não, não foi, não, foi São Luis que morreu abraçado num cálice de
hóstias.
7 de agosto: Novidades: A Irmã Bianche disse que não tem a menor
pressa em saber quem me deu o cigarro. Disse que até o dia da minha saída
bimensal eu acabo contando. Já aconteceu com outras, ela me disse. A Glorinha
me trouxe ovos cozidos que eu tive que comer escondida dentro da privada.
Desconfio que estou com febre asiática.
Amanhã eu confirmo. Ah, já ia me esquecendo: sonhei com a
Glorinha, razão do meu internamento. Queria tanto saber o significado do
sonho! Se as freiras descobrem sou excomungada e terei minhas terras salgadas
e as gerações amaldiçoadas.
É tão duro ser cristã!