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Próxima crônica

o estado de s. paulo

24/04/00

 


Tem uma senhora aí que, sempre que eu falo de mim aqui, me manda raivosos e mal-amados bilhetes. Pode mandar, minha senhora, porque eu vou falar.

Como se algum cronista do mundo, em alguma crônica, não estivesse falando dele. Sempre. Por mais que ele dê voltas e dribles, é sempre ele que está ali naquele espaço.

Escrever crônica é uma bandeira. É se expor. É dizer o que a gente pensa e não pensa. É dizer besteiras, lavar a alma, estender uma mão (ou uma pêra) para um lado e a outra para o outro. O escritor é um livro (bom ou ruim) aberto.

Impossível, minha senhora, ler Proust e não enxergar a bicha asmática lá no Ritz (o de Paris) pagando a conta pra todo mundo. Impossível tirar o Drummond da repartição ou o Amado da Bahia. Impossível imaginar o Jorge Bernardo Shaw sem uma my fair lady ao lado perguntando para ele: mas todas as mulheres fazem isso?

Não dá para encarar o Saramago sem imaginar o mau humor e a melancolia dele.

Ou a tristeza do Tennessee Williams à margem da vida. E basta olhar para a cara do Millôr que você ri. Ou entrar na fossa com o genial Fernando Bonassi. Basta mirar a Stella Florence e saber que ela acha que acorda gorda.

Repito: escrever é uma bandeira. Não, minha senhora, não é a bandeira hasteada idolatrada, não. É a bandeira de dar bandeira. Ou a senhora não entende nada de larica?

Toda essa verborragia aí para entrar num projeto que eu vou começar a escrever amanhã no meu computador. O João Ubaldo, ao saber, mandou um e-mail dizendo que eu estava maluco. Mas, na surdina de sua afinada e imortal orquestra baiana, está lançando um livro pela Internet, na calada da noite.

Mas será a Benedita?

Pra você que não está entendendo nada, mas leu até aqui, eu explico.

A partir de amanhã, às 9 da noite, vou começar a escrever meu novo livro que atende (é só chamar pela Internet) pelo nome de Os Anjos de Badaró. E te convido para me ver trabalhando.

Atendendo a muitos leitores e leitoras que vivem me escrevendo perguntando como é que se escreve, como é que se cria, et cetera; atendendo ao apelo que a Internet vem me fazendo, me chamando, querendo alguma coisa cá de mim; e, atendendo a necessidades econômicas, resolvi abrir não o meu coração, mas a minha tela do computador para você. E para a senhora também. Isso, se você quiser.

Explico melhor: amanhã, às 9 da noite (e nos dias seguintes em horário previamente combinado), vou estar escrevendo o romance aqui em casa. E você, que tem Internet, vai ver a minha tela no seu monitor. Pode preparar o cafezinho, que eu vou entrar aí na sua casa e na sua cara.

E você, se quiser, durante seis meses, vai acompanhar essa maluquice. E, se na hora que você entrar, eu não estiver on-line, você pode ler os capítulos anteriores, dar uma olhada no perfil dos personagens. Tem também um horóscopo (me disseram que site que se preza tem) feito pelo professor M. d'Argent. E tem ainda a Madame Samara que responderá às suas dúvidas sexuais e sentimentais. E mais uma porção de bobagens. Fora mais de 500 crônicas. E o resto da obra (que palavra!).

Eu avisei que ia ser um comercial. Já que você chegou até aqui, vamos até o fim, que ainda vem o endereço. Quem criou a ferramenta para essa doidice foi a TV1, lugar de jovens doidos e quem vai nos abrigar é o Portal Terra, lugar de outros lunáticos. Ou seja, é coisa de gente grande.

Se você quiser participar desta aventura comigo, basta entrar no www.terra.com.br/marioprata ou www.marioprataonline.com.br.

E tem mais, vovó Maria. Se a senhora quiser ver as caras e caretas que eu faço enquanto trabalho vai ter uma câmera mostrando cá seu neto. Só não vale escrever, depois, dizendo que eu estou fumando muito e bebendo cerveja. O cigarro vai ser careta e a cerveja é sem álcool.

E vai ter um lugar lá para você dar palpites. Como, por exemplo, eu parar com isso, que eu já tenho idade para ser levado a sério.

O importante, minha senhora, é ser levado. Segundo o Aurélio, "travesso, traquinas, irrequieto, indócil, indisciplinado".

E tenho dito. Ou melhor, digitado!