- Você está parecendo um velho tarado!
Me diz a filha, debaixo dos seus 20 anos. E eu, o
velho tarado, retruco em cima:
- Se você pedir Sukita eu te mato!
Velho e tarado! Velho, porque tenho 53 anos. Tarado,
porque olhei a garçonete se afastando com olhos de, digamos, tarado.
Não vou discutir com você o velho. Mas o tarado,
discuto. Olho em volta. Todo mundo pode olhar para a garçonete. Menos um cara de 53. Por
que? Aquele sujeito lá no canto, por exemplo, tá olhando. Mas ele tem uns trinta. Aos
trinta ninguém é tarado. Pode. E eu pergunto: a partir de que idade o homem vira velho
tarado?
Onde é que está escrito essa lei contra mim?
Matusalém, coitado, deve ter sido o mais velho tarado do mundo. Imagino o homem, com seus
900 anos e a filha, de oitocentos, fiscalizando seus periscópicos e bíblicos olhares.
Digo:
- Outro dia uma menina da sua idade me disse que
quem não toma Sukita engole qualquer coisa!
Ela rebate, no ângulo:
- Tá vendo? Qualquer coisa...
Pronto: velho, tarado e qualquer coisa!
Entra uma - vinte cinco, vinte e seis? - pela porta
giratória. Os seios pulando, dourados, aveludados, me convocando. Todo mundo olha. Até
as mulheres. Mas eu, mas eu não posso. Passei da idade, penso cabisbaixo. E repenso: a
partir de que idade a gente não pode mais olhar? Mas logo agora, que me sinto todo
sábio, logo agora que num bater de olhos de trivela, a partir da curva do seio, posso
imaginar se ela tem ou não umbigo vertical?
O rapaz da mesa ao lado se levanta. Alto, forte,
bonito. Olhos verdes. A filha olha. Eu também olho. Todo mundo olha. Descubro que pra
homem eu posso olhar. Velho, tarado, qualquer coisa, bicha!
Insisto numa volta ao passado. Quero saber quando
foi, exatamente o dia, a hora, o ano da virada. O momento exato onde a sociedade jogou na
minha cara: a partir de agora, velho, não pode mais olhar! O mundo te condena! Compro uma
Playboy e vou olhar no banheiro, escondido? Como fazia na adolescência, cheio de culpas?
Comemos em silêncio. Peço o azeite sem levantar os
olhos para a garçonete. Olhando para o chão. Vendo os pés da moça. Pé, acho, pode
olhar. A partir daquele dedão, me dou o direito de imaginar o resto. Não tem joanete.
Ouso subir o olhar até o joelho. Tem um bandaid lá. Devo confessar que é excitante, um
bandaid do joelho. Penso no Aldir Blanc, torturantemente. Mas não posso me excitar. Só
um velho tarado ficaria babando pelo joelho esfolado da garçonete. Acho que vou ter que
comer de olhos fechados. Comer? Sái, tentação!
Minha cabeça volta para os sete anos de idade
quando eu ainda não era nem um menino tarado e ia me confessar e o padre perguntava: tem
pensado voluntariamente em coisas feias? tem olhado de propósito para coisas feias? tem
prestado atenção a conversas feias? tem lido coisas feias? conversado sobre isso?
cantado alguma música feia? tem feito coisas feias? tem deixado os outros fazer isso com
você?
Levei anos e anos para descobrir - sem culpa - que
as coisas feias dos padres eram lindas. Como essa garçonete. E aqui estou eu pensando
voluntariamente em coisas lindas, olhando de propósito para coisas lindas, prestado
atenção em conversas lindas, lendo coisas lindas, conversando sobre isso, cantando
músicas lindas, fazendo coisas lindas e deixando que outras façam isso comigo.
É, minha filha tem razão. Sou um velho tarado. Que
bom, que coisa linda.
De sobremesa chupo uma manga e me delicio, me
lambuzo todo, olhando o dedão lindo da garçonete, tirando o bandaid da culpa da minha
consciência, como se menino fosse.
E amasse.
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