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HOMEM ATUAL Velho tarado?

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Revista Mulher Atual

17/01/00

 


- Você está parecendo um velho tarado!

Me diz a filha, debaixo dos seus 20 anos. E eu, o velho tarado, retruco em cima:

- Se você pedir Sukita eu te mato!

Velho e tarado! Velho, porque tenho 53 anos. Tarado, porque olhei a garçonete se afastando com olhos de, digamos, tarado.

Não vou discutir com você o velho. Mas o tarado, discuto. Olho em volta. Todo mundo pode olhar para a garçonete. Menos um cara de 53. Por que? Aquele sujeito lá no canto, por exemplo, tá olhando. Mas ele tem uns trinta. Aos trinta ninguém é tarado. Pode. E eu pergunto: a partir de que idade o homem vira velho tarado?

Onde é que está escrito essa lei contra mim? Matusalém, coitado, deve ter sido o mais velho tarado do mundo. Imagino o homem, com seus 900 anos e a filha, de oitocentos, fiscalizando seus periscópicos e bíblicos olhares.

Digo:

- Outro dia uma menina da sua idade me disse que quem não toma Sukita engole qualquer coisa!

Ela rebate, no ângulo:

- Tá vendo? Qualquer coisa...

Pronto: velho, tarado e qualquer coisa!

Entra uma - vinte cinco, vinte e seis? - pela porta giratória. Os seios pulando, dourados, aveludados, me convocando. Todo mundo olha. Até as mulheres. Mas eu, mas eu não posso. Passei da idade, penso cabisbaixo. E repenso: a partir de que idade a gente não pode mais olhar? Mas logo agora, que me sinto todo sábio, logo agora que num bater de olhos de trivela, a partir da curva do seio, posso imaginar se ela tem ou não umbigo vertical?

O rapaz da mesa ao lado se levanta. Alto, forte, bonito. Olhos verdes. A filha olha. Eu também olho. Todo mundo olha. Descubro que pra homem eu posso olhar. Velho, tarado, qualquer coisa, bicha!

Insisto numa volta ao passado. Quero saber quando foi, exatamente o dia, a hora, o ano da virada. O momento exato onde a sociedade jogou na minha cara: a partir de agora, velho, não pode mais olhar! O mundo te condena! Compro uma Playboy e vou olhar no banheiro, escondido? Como fazia na adolescência, cheio de culpas?

Comemos em silêncio. Peço o azeite sem levantar os olhos para a garçonete. Olhando para o chão. Vendo os pés da moça. Pé, acho, pode olhar. A partir daquele dedão, me dou o direito de imaginar o resto. Não tem joanete. Ouso subir o olhar até o joelho. Tem um bandaid lá. Devo confessar que é excitante, um bandaid do joelho. Penso no Aldir Blanc, torturantemente. Mas não posso me excitar. Só um velho tarado ficaria babando pelo joelho esfolado da garçonete. Acho que vou ter que comer de olhos fechados. Comer? Sái, tentação!

Minha cabeça volta para os sete anos de idade quando eu ainda não era nem um menino tarado e ia me confessar e o padre perguntava: tem pensado voluntariamente em coisas feias? tem olhado de propósito para coisas feias? tem prestado atenção a conversas feias? tem lido coisas feias? conversado sobre isso? cantado alguma música feia? tem feito coisas feias? tem deixado os outros fazer isso com você?

Levei anos e anos para descobrir - sem culpa - que as coisas feias dos padres eram lindas. Como essa garçonete. E aqui estou eu pensando voluntariamente em coisas lindas, olhando de propósito para coisas lindas, prestado atenção em conversas lindas, lendo coisas lindas, conversando sobre isso, cantando músicas lindas, fazendo coisas lindas e deixando que outras façam isso comigo.

É, minha filha tem razão. Sou um velho tarado. Que bom, que coisa linda.

De sobremesa chupo uma manga e me delicio, me lambuzo todo, olhando o dedão lindo da garçonete, tirando o bandaid da culpa da minha consciência, como se menino fosse.

E amasse.