Pode até não ter, mas que
o título
é
chamativo
(além
de
apelativo),
é. Tanto
é que você
leu - pelo menos
- até aqui.
Todos nós cronistas esbarramos no branco. Outro dia
foi o Ubaldo. E olha que
o espaço
dele é bem maior.
E o branco
dele foi brilhante.
Me lembro que
uma vez
o velho
- ainda não tão velho
- Rubem Braga num dos seus brancos
escreveu sobre
uma
borboleta. Olho em volta, não
tem
borboleta
nenhuma na minha
imaginação. Me
lembro do mestre
Fernando Sabino ao encher
uma página inteira
da
Manchete sobre um sujeito que
começava um
discurso
dizendo: meus
senhores
e minhas senhora, eu não
sou daqueles que... Aí
o orador
parou, pois não
sabia se dizia daqueles que
diz ou
daqueles que
dizem. Ficou reiniciando o
discurso
várias vezes, até encerrar,
dizendo:
meus senhores
e minhas senhora, enfim, eu não
sou daqueles!
O pior
do branco não
é a
ausência
da idéia central.
É o cronista começar
a ficar aflito,
a suar
(como quando não
consegue ter
uma relação,
digamos, sexual)
e aí começa
a pensar em
milhares
de coisas para
se estimular.
E, quanto mais
exercita, mais tenso
vai ficando.
Principalmente quando chega um e-mail
da arte
do jornal,
dando um toque:
e aí,
a crônica
sai ou não
sai? É quando broxa
de vez
e jura que
foi a
primeira vez, que isso nunca
havia acontecido.
A
primeira coisa que começa
a pensar são nos e-mails
e cartas para
a redação
perguntando até
ao dono
do jornal, como
é que
se permite que um sujeito
fique aqui
escrevendo sobre
o nada.
Pois
é no nada que
o cronista se esbalda. Quando
consegue transformar
numa pequena
e modesta arte algo
do banal,
do cotidiano.
E ter um branco,
broxar,
é do cotidiano embora não muito banal.
Agora chegou o meu filho aqui atrás
- que também
escreve
crônicas
na revista Capricho
-, olhou por cima
da minha cabeça
e resmungou: pô, pá, outra sobre
o branco?
- Como outra?
Tá doido?
- Outro dia mesmo você
escreveu uma.
- Com, outro dia? Anos, anos!
- Sei não.
Me deu culpa.
Por que a culpa?
É o que eu
tenho perguntado à minha
psicanalista.
Todo mundo acha que a pessoa que
vive de criar, ou
seja, um criador, não
faz nada
o dia inteiro.
Fica só
pensando. É verdade.
O
problema
é que ninguém
considera o trabalho
de pensar como ofício.
Daí a culpa
ensimesmada.
Será que só
pode ser
considerado
trabalhador
o sujeito que
fica o dia inteiro
numa mesa
de
escritório,
ouvindo pela janela
"olha
a uva
de Atibaia", "melancia barata, melancia barata"?
Você vê
uma frase
num outdoor tipo
"refresca até
pensamento". São três
palavrinhas mágicas.
O sujeito que
inventou isso
deve ganhar
uma fortuna por mês.
O que ninguém
entende é que ele
trabalha
há 20 neste ofício.
Pode ser que
a frase
tenha saído
de um estalo. Mas um estalo
20 anos depois. Não precisa ser
nenhuma Brastemp para
se ter
uma idéia
dessas. Ou precisa? Mas
o povo pensa: ganhar
essa fortuna para escrever
uma bobagem
dessas?
Cada vez que lanço um livro,
estréio uma peça
de teatro ou
vou ao cinema ver um filme com roteiro meu, me
dá pânico.
Fico pensando: o pessoal
vai pensar que eu
escrevi isso
na maior moleza. Que eu
sou um
vagabundo.
E eu,
realmente,
fico achando que
sou. Algumas
mulheres
trabalhadeiras já me
jogaram isso
na cara.
E tome divã!
Para aliviar meu
sofrimento, penso
no Romário que
trabalha
umas dez horas por mês
e ganha
100 mil
dólares. Será que ele
tem culpa?
O Chico Buarque, que
fica meses sem
"trabalhar",
jogando futebol,
será que ele acorda com culpa?
E o Erasmo Carlos, tem uma culpa
tremendona?
Juro que eu trabalho, gente. Penso, invento,
crio. E esses
funcionários
fantasmas, que
trabalham em
várias
repartições
e nunca
comparecem? Será que eles não
têm culpa?
Será que só eu me
sinto culpado neste país?
Conta
uma lenda que quando
Einstein esteve no Brasil foi recepcionado pelo Austregésilo de Athayde. O imortal
andava com um
caderninho para ir
anotando as idéias para seus livros
e ensaios.
Perguntou se o genial
Einstein não
fazia o mesmo.
No que ele
respondeu: "Não. Só
tive uma idéia
na vida."
E o pior,
é que
essa idéia tinha só três
letrinhas. Deve ter
morrido,
relativamente, sem culpas.
Foram anos
e anos
de culpa para conseguir escrever
esta crônica. Mas
saiu.
Mas não
adiantou nada.
Continuo com culpa
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