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HOJE NÃO TEM CRÔNICA

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o estado de s. paulo

11/12/2002

 


Pode até não ter, mas que o título é chamativo (além de apelativo), é. Tanto é que você leu - pelo menos - até aqui.

Todos nós cronistas esbarramos no branco. Outro dia foi o Ubaldo. E olha que o espaço dele é bem maior. E o branco dele foi brilhante.

Me lembro que uma vez o velho - ainda não tão velho - Rubem Braga num dos seus brancos escreveu sobre uma borboleta. Olho em volta, não tem borboleta nenhuma na minha imaginação. Me lembro do mestre Fernando Sabino ao encher uma página inteira da Manchete sobre um sujeito que começava um discurso dizendo: meus senhores e minhas senhora, eu não sou daqueles que... Aí o orador parou, pois não sabia se dizia daqueles que diz ou daqueles que dizem. Ficou reiniciando o discurso várias vezes, até encerrar, dizendo:

meus senhores e minhas senhora, enfim, eu não sou daqueles!

O pior do branco não é a ausência da idéia central. É o cronista começar a ficar aflito, a suar (como quando não consegue ter uma relação, digamos, sexual) e aí começa a pensar em milhares de coisas para se estimular. E, quanto mais exercita, mais tenso vai ficando. Principalmente quando chega um e-mail da arte do jornal, dando um toque: e aí, a crônica sai ou não sai? É quando broxa de vez e jura que foi a primeira vez, que isso nunca havia acontecido.

A primeira coisa que começa a pensar são nos e-mails e cartas para a redação perguntando até ao dono do jornal, como é que se permite que um sujeito fique aqui escrevendo sobre o nada.

Pois é no nada que o cronista se esbalda. Quando consegue transformar numa pequena e modesta arte algo do banal, do cotidiano. E ter um branco, broxar, é do cotidiano embora não muito banal.

Agora chegou o meu filho aqui atrás - que também escreve crônicas na revista Capricho -, olhou por cima da minha cabeça e resmungou: pô, pá, outra sobre o branco?

- Como outra? Tá doido?

- Outro dia mesmo você escreveu uma.

- Com, outro dia? Anos, anos!

- Sei não.

Me deu culpa.

Por que a culpa? É o que eu tenho perguntado à minha psicanalista.

Todo mundo acha que a pessoa que vive de criar, ou seja, um criador, não faz nada o dia inteiro. Fica só pensando. É verdade. O problema é que ninguém considera o trabalho de pensar como ofício. Daí a culpa ensimesmada. Será que só pode ser considerado trabalhador o sujeito que fica o dia inteiro numa mesa de escritório, ouvindo pela janela "olha a uva de Atibaia", "melancia barata, melancia barata"?

Você vê uma frase num outdoor tipo "refresca até pensamento". São três palavrinhas mágicas. O sujeito que inventou isso deve ganhar uma fortuna por mês. O que ninguém entende é que ele trabalha há 20 neste ofício. Pode ser que a frase tenha saído de um estalo. Mas um estalo 20 anos depois. Não precisa ser nenhuma Brastemp para se ter uma idéia dessas. Ou precisa? Mas o povo pensa: ganhar essa fortuna para escrever uma bobagem dessas?

Cada vez que lanço um livro, estréio uma peça de teatro ou vou ao cinema ver um filme com roteiro meu, me dá pânico. Fico pensando: o pessoal vai pensar que eu escrevi isso na maior moleza. Que eu sou um vagabundo. E eu, realmente, fico achando que sou. Algumas mulheres trabalhadeiras já me jogaram isso na cara. E tome divã!

Para aliviar meu sofrimento, penso no Romário que trabalha umas dez horas por mês e ganha 100 mil dólares. Será que ele tem culpa? O Chico Buarque, que fica meses sem "trabalhar", jogando futebol, será que ele acorda com culpa? E o Erasmo Carlos, tem uma culpa tremendona?

Juro que eu trabalho, gente. Penso, invento, crio. E esses funcionários fantasmas, que trabalham em várias repartições e nunca comparecem? Será que eles não têm culpa? Será que só eu me sinto culpado neste país?

Conta uma lenda que quando Einstein esteve no Brasil foi recepcionado pelo Austregésilo de Athayde. O imortal andava com um caderninho para ir anotando as idéias para seus livros e ensaios. Perguntou se o genial Einstein não fazia o mesmo. No que ele respondeu: "Não. Só tive uma idéia na vida." E o pior, é que essa idéia tinha só três letrinhas. Deve ter morrido, relativamente, sem culpas.

Foram anos e anos de culpa para conseguir escrever esta crônica. Mas saiu.

Mas não adiantou nada. Continuo com culpa