Foi numa grande festa na pequena cidade que o fato se deu.
O grande homem, olhando para a pequena
mulher, pensou:
- Que pequena.
A pequena mulher, sentindo os grandes
fluidos em sua cabeça, pensou:
- Grande.
Pequenas piscadas, grandes sorrisos, uma
só cumplicidade.
E foi assim que eles foram.
Ele pegou nas pequenas mãos da mulher com
sua grande mão.
Com os seus grandes olhos, procurou os
pequenos dela, grande ternura, pequena timidez.
Com o grande dedo da grande mão direita
passou, levemente, uma pequena alegria para os pequenos lábios do
pequeno sorriso.
Ele sorriu, mostrando dois grandes dentes
e deu um grande beliscão no pequeno nariz que ficou vermelho como o
pequeno coração que disparou dentro do seu pequeno corpo.
Com o seu grande coração conquistou o
pequeno sim e fizeram grandes planos e pequenas despesas.
Um pequeno período de noivado e pensaram
na grande festa do grande dia.
Num pequeno hotel da pequena cidade, numa
grande cama, o pequeno corpo esticou-se atravessado e foi recolhido num
grande abraço. Grandes horas, pequenos segundos, grandes
prazeres, pequenos gemidos, pequenas lágrimas, um grande suor, pequenos
ais, grandes beijos, pequenos dentes, grandes mordidas, grande língua,
seios pequenos contidos por um grande peito.
Pequenos saltos, grandes suspiros.
Um grande amor.
Depois de grandes dias e pequenas brigas,
vieram as pequenas diferenças.
Grandes anos, pequenos segundos, pequenos
filhos, grandes festas, pequenas viagens, pequenos passeios, grandes
almoços, pequenos pileques, grandes barrigas, pequenos partos, grandes
fadigas, pequenas férias, grandes trabalhos, pequenos salários, grandes
dores de cabeça, pequenos comprimidos, grandes ansiedades, pequenas
alegrias, grandes insônias, pequenas noites, grandes desilusões,
pequenos senões, grandes tempos, pequenos tempos.
Grandes brigas, pequenos nãos.
Passou um grande tempo, apenas um pequeno
amor sustentava a grande casa já repleta de filhos pequenos e grandes.
Sentaram-se na grande poltrona da pequena
sala para resolver o grande problema: o grande amor ficara pequeno.
A
sua
grandeza
foi diminuindo e as
pequenas
razões
da
mulher
foram ficando
grandes.
Foi
quando
ela
percebeu
que
era
uma
grande
mulher.
E
ele,
ficando
cada
vez
mais
pequeno,
também.
Ela
pegou uma
pequena
faca e enfiou na
pequena
barriga dele.
Saiu uma
grande
quantidade de
sangue
e o
pequeno
corpo
ficou
ali,
esticado, no
grande
tapete
atravessado, recebendo
pequenos
olhares.
Vieram os
filhos
pequenos
e
grandes
e deram
grandes
gritos.
Para a Polícia ela deu apenas pequenas
explicações e conseguiu uma grande pena: dos pequenos e grandes filhos e
da Justiça.
Anos mais tarde, teve uma pequena morte
numa pequena sala de uma grande penitenciária e o jornal deu apenas uma
pequena nota de um amor que um dia foi tão grande.