Provavelmente (vê se isso é jeito de começar um texto: provavelmente)
quando você chegar ao final da crônica - se chegar - vai dizer: e eu com
isso? Mas, como provavelmente (de novo) você também teve infância e
adolescência (deve ter tido) talvez perdoe o meu retorno, que será breve.
Herrera, Rui e Noca; Geraldo, Frangão e Ivan; Alfredinho, Américo Murolo,
Washington, Próspero e Alemãozinho foi o primeiro time de futebol que eu
vi jogar. Era em Lins, era o Linense, era o Elefante da Noroeste, que
disputou a primeira divisão entre 53 e 57 contra pelés, gilmares, djalmas,
julinhos e tantos canhoteiros.
E isso me veio à cabeça porque o Linense, por um ponto, um mísero
pontinho, neste domingo, deixou de subir para a Terceira Divisão. Já
estivemos na Quinta. Torci como um menino que era levado (nos dois
sentidos) pela mão do pai doutor Prata para o Gigante de Madeira, que era
o nome do nosso estádio.
Eu, meu pai e os amigos dele, a pé. Eu ali, ouvindo conversa de gente
grande. Falavam num tal de Sputnik, numa cadela chamada Laika, nos peitos
da Gina Lolobrigida, nas pernas de uma Brigite Bardot e comentavam os
olhos da Elisabeth Taylor como Cleópatra. Era bom.
E, no domingo, sofrendo e torcendo para um tal de Capivariano fazer um
golzinho contra um tal de Primavera (que daria a classificação ao meu
Linense) fui invadido não apenas pelo Linense mas pela minha cidade entre
os quatro e os 20 anos. Uma cidade que, há alguns anos, me deu o título de
Cidadão Linense, orgulho exposto na parede da minha casa, no meu coração e
nas minhas lembranças.
Jogar futebol no colégio Salesiano, andar de bicicleta, sair de casa cedo
e só voltar de noite (imundo), ir ao Cine São Sebastião, o Palácio
Encantado da Noroeste, odiar biologia, baile de debutante de smoking e a
segunda valsa com a namorada, as festinhas, as brincadeiras dançantes, o
primeiro beijo (na face), o primeiro sexo (na zona), o sorvete na Bambina,
o chope no Chopão, a operação de fimose com o doutor Baragatti, o exame
para entrar na piscina sem frieira, as aulas de judô (apanhava como gente
grande), as aulas particulares de inglês (que não aprendi até hoje),
roubar leite e pão da frente à casa dos outros depois dos bailes no
Comercial, a japonesada, ser campeão infantil de tênis da Noroeste, a
bomba no primeiro científico, a bomba no segundo científico, o discurso de
orador da turma no terceiro.
Tudo isso enquanto esperava o golzinho do Capivariano da cidade de
Capivari que mal sei onde fica.
Queria o Linense subindo, queria ir à festa, queria rever o coreto, queria
voltar para a missa das dez da Catedral, queria soltar rojão, queria comer
pé-de-moleque feito moleque de novo. Queria ir no bar do Raco, queria
tomar um uísque nacional (Mansion House) lá no Artioli, queria voltar à
zona e ver se a Véia Isabé já morreu.
Ver de novo os discos voadores, ver a saída do colégio das freiras, ficar
na Esquininnha do Pecado, pecando em pensamento e palavras e obra, queria
ir na casa daquele amigo cujo pai tinha uma revista de mulheres peladas,
em preto e branco mesmo.
Reler o Encontro Marcado, todos os livros do Monteiro Lobato, queria
estudar no Tesouro da Juventude, queria comer a coxinha do Sam e o picolé
do Siri.
Mas o Capivariano não fez o tal do golzinho contra o Primavera.
Desta vez foi na trave, mas no ano que vem estamos lá de novo. Uma vez
Linense, Linense até morrer.
No ano que vem a primavera vai ser nossa, pessoal.