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HERRERA, RUI E NOCA

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O ESTADO DE S. PAULO

29/10/2003

 


Provavelmente (vê se isso é jeito de começar um texto: provavelmente) quando você chegar ao final da crônica - se chegar - vai dizer: e eu com isso? Mas, como provavelmente (de novo) você também teve infância e adolescência (deve ter tido) talvez perdoe o meu retorno, que será breve.

Herrera, Rui e Noca; Geraldo, Frangão e Ivan; Alfredinho, Américo Murolo, Washington, Próspero e Alemãozinho foi o primeiro time de futebol que eu vi jogar. Era em Lins, era o Linense, era o Elefante da Noroeste, que disputou a primeira divisão entre 53 e 57 contra pelés, gilmares, djalmas, julinhos e tantos canhoteiros.

E isso me veio à cabeça porque o Linense, por um ponto, um mísero pontinho, neste domingo, deixou de subir para a Terceira Divisão. Já estivemos na Quinta. Torci como um menino que era levado (nos dois sentidos) pela mão do pai doutor Prata para o Gigante de Madeira, que era o nome do nosso estádio.

Eu, meu pai e os amigos dele, a pé. Eu ali, ouvindo conversa de gente grande. Falavam num tal de Sputnik, numa cadela chamada Laika, nos peitos da Gina Lolobrigida, nas pernas de uma Brigite Bardot e comentavam os olhos da Elisabeth Taylor como Cleópatra. Era bom.

E, no domingo, sofrendo e torcendo para um tal de Capivariano fazer um golzinho contra um tal de Primavera (que daria a classificação ao meu Linense) fui invadido não apenas pelo Linense mas pela minha cidade entre os quatro e os 20 anos. Uma cidade que, há alguns anos, me deu o título de Cidadão Linense, orgulho exposto na parede da minha casa, no meu coração e nas minhas lembranças.

Jogar futebol no colégio Salesiano, andar de bicicleta, sair de casa cedo e só voltar de noite (imundo), ir ao Cine São Sebastião, o Palácio Encantado da Noroeste, odiar biologia, baile de debutante de smoking e a segunda valsa com a namorada, as festinhas, as brincadeiras dançantes, o primeiro beijo (na face), o primeiro sexo (na zona), o sorvete na Bambina, o chope no Chopão, a operação de fimose com o doutor Baragatti, o exame para entrar na piscina sem frieira, as aulas de judô (apanhava como gente grande), as aulas particulares de inglês (que não aprendi até hoje), roubar leite e pão da frente à casa dos outros depois dos bailes no Comercial, a japonesada, ser campeão infantil de tênis da Noroeste, a bomba no primeiro científico, a bomba no segundo científico, o discurso de orador da turma no terceiro.

Tudo isso enquanto esperava o golzinho do Capivariano da cidade de Capivari que mal sei onde fica.

Queria o Linense subindo, queria ir à festa, queria rever o coreto, queria voltar para a missa das dez da Catedral, queria soltar rojão, queria comer pé-de-moleque feito moleque de novo. Queria ir no bar do Raco, queria tomar um uísque nacional (Mansion House) lá no Artioli, queria voltar à zona e ver se a Véia Isabé já morreu.

Ver de novo os discos voadores, ver a saída do colégio das freiras, ficar na Esquininnha do Pecado, pecando em pensamento e palavras e obra, queria ir na casa daquele amigo cujo pai tinha uma revista de mulheres peladas, em preto e branco mesmo.

Reler o Encontro Marcado, todos os livros do Monteiro Lobato, queria estudar no Tesouro da Juventude, queria comer a coxinha do Sam e o picolé do Siri.

Mas o Capivariano não fez o tal do golzinho contra o Primavera.

Desta vez foi na trave, mas no ano que vem estamos lá de novo. Uma vez Linense, Linense até morrer.

No ano que vem a primavera vai ser nossa, pessoal.