Página anterior

HAPPY HOUR NO THE PLACE

Próxima crônica

o estado de s. paulo

20.10.93

 


NÃO É MAIS o barulho da pipoca do espectador de trás que nos incomoda no escurinho do cinema. Ou do teatro. Agora tem o telefone celular, que toca na melhor cena, interrompendo o aguardado beijo ou o tiro à queima-roupa.

O mundo gira, a lusitana roda e o brasileiro copia e inventa moda. Semana passada, fui a um happy hour de trabalho no The Place. No bar. Eu e mais quatro altos, simpáticos e modernos executivos paulistas.

Logo na porta, antes de entrar, entregando o meu modesto Gol para o simpático manobrista, já havia um senhor a bordo de um telefone celular explicando para a esposa (talvez) que a reunião ainda não havia acabado. Na minha mesa, os quatro traziam, no bolsinho do paletó, antes destinado para lencinhos de seda para oferecer para as damas incautas, todos eles, traziam o seu celular. Em pouco tempo percebi que todo o bar do excelente restaurante estava cheio de celulares. E também, incontinenti, percebi que, ao contrário do falos, quanto menor o celular, mais status dá. Coitados dos pobres brasileiros - como diria o Casseta & Planeta: terão que usar "orelhão celular" nas costas e, ao menor descuido, vem um vagabundo e o usa.

Evidentemente que o cidadão com um celular pouco maior que um maço de cigarros tem uma certa dificuldade - além do barulho reinante no recinto - para se fazer ouvir lá do outro lado. Como o bocal fica na altura da bochecha, ele tem que entortar a boca para falar. E era isto que se via ali no bar. Gomalinados executivos a torcer a boca. Parecia que era a sala de espera de um consultório médico especializado em derrame cerebral. Impossível manter uma conversa. Que happy hour mais bad trip...

Os que não estavam falando, estavam aguardando telefonemas. A toda hora tocava em uma mesa. Ou melhor, em um bolso. Com que alegria e soberba eles tiravam os microcelulares de lá. Moda é moda e, à lusitana, ela roda.

Na ida ao banheiro, depois de algumas cervejas, vejo um senhor na escada a explicar para a namorada (talvez) que ele não tinha nenhuma obrigação de fazer o exame de Aids, uma vez que ele nunca tinha se picado, nem tivera homens e nunca tinha feito transfusão de sangue. Esta informação toda, entre um degrau e outro. E ainda fez uma piadinha com a coitadinha: Aids é pica ou pico!

 

Mas foi no banheiro que a coisa se deu mais grave. Estava eu a fazer o meu inocente xixi naquelas privadas de parede  - que eu nunca soube o nome daquilo - quando ouço -   pasmem -, trancado dentro de um reservado, um senhor ao telefone falando com a mulher (talvez). Não resisti; me tranquei ao lado, sentei-me calmamente e fui anotando:

 

- Não, meu bem. Já estou na Raposo Tavares (devia morar na Granja Viana). Não, meu amor, em cinco minutos eu estou aí. (força) Já pegou os meninos na escola? (mais força). Estou te dizendo, amor. Pode dizer para a Joana servir que, em quinze minutos, o doutor Ruy está chegando. Não confia mais no seu Ruy, amor? (pum!) O que temos para comer hoje? (força. Mais força) Rouco, eu? Não, é que eu vou levar o Luiz para comer com a gente. Estamos fechando um negócio. (muita força) Depois eu te explico. Mandou buscar a BMW? (som de alívio) Sei, sei, hã-hã, hã-hã. (barulho de papel higiênico sendo derenrolado) Não, pode deixar que depois eu vejo isso. (descarga exageradamente alta) Chuva, meu bem. Está chovendo muito aqui na Raposo. Ah, aí não? Estrelado, é? Interessante... (pra sacanear, eu puxo a minha descarga durante horas). Está ouvindo, amor? Trovões. Tá muito forte a chuva por aqui. Talvez até demore um pouco mais. Outro, meu amor. Estou chegando. Se a chuva melhorar, é claro (desligou e ainda deu uma escarrada e mais uma descarguinha).

Saio antes, espero ele descer e vejo ele sentar com uma loira bem hebe (secretária?).

Como os celulares estão cada vez menores, imagino que, no futuro, serão apenas dois pequenos botõezinhos. Um instalado na orelha do executivo, e outro, no segundo molar superior direito. Mas talvez para aquele Ruy instalem noutro orifício qualquer.