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Habemus sanctus

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o estado de s. paulo

22/05/2002

 


Agora só falta mesmo o Prêmio Nobel. E não é por falta de candidatos. Já tivemos um Carlos Drummond de Andrade (se Neruda ganhou, por que não ele?), um Oswaldo de Andrade e um Millôr Fernandes. Mas acontece que os três citados tinham humor, tinham o molejo na nossa literatura, do nosso povo. E, como você sabe, para ganhar o Nobel de Literatura tem que ser, no mínimo, chato. E falar da opressão dos pobres de qualquer dos continentes. O humor jamais será levado em conta como arte por qualquer acadêmico, seja ele de Oslo ou ali da USP mesmo. Por outro lado, se um dia inventarem o Nobel da Fotografia, o Tião Salgado será tetracampeão.

Fui criado durante nove anos entre padres, rezando para santos estrangeiros. Principalmente São João Bosco e São Domingos Sávio. Confesso que não acreditava que aqueles santos estrangeiros fossem resolver meus problemas. Naquele tempo, já ficava a pensar se um dia teríamos um santo ou uma santa nossa, mais próxima, mais íntima, que compreendesse os milagres que o Brasil precisava. Pois eis agora que no domingo o papa nos deu uma santa brasileira, a madre Paulina. Na verdade não é bem brasileira, nasceu em Trento, norte da Itália, veio para cá com uns 10 anos e nunca conseguiu falar o português muito corretamente. Mas entendeu a alma do nosso povo, lutou, ajudou e andou fazendo milagres (dois comprovados, segundo o Vaticano). Mas a Carmen Miranda também não era brasileira e nos exportou para os Estados Unidos como ninguém. Me perdoem os mais católicos do que eu, pela comparação. Mas a portuguesa, para mim, também era uma santa.

Fiquei mesmo feliz, no domingo, ao ver a cerimônia lá na capital da Itália. Só o fato de ela ter trocado o nome de batismo de Amabile Lucia Visintainer por Paulina do Coração Agonizante de Jesus, já deve ter lhe dado alguns pontos, na santidade. Mas, sem ironia nenhuma, fez um trabalho riquíssimo em Santa Catarina, operou milagres (comprovados, já disse) e merece agora, depois de tantos anos morta, a recompensa da imortalidade que o título lhe confere. Não é por nada não, mas a Carmen Miranda também mudou de nome. Chamava-se Maria do Carmo Miranda da Cunha.

Mas tem uma coisa a me perturbar. Você se lembra daquela novela genial chamada Roque Santeiro? O que era? Era a história de um tal de Roque que sumiu, virou santo na pequena cidade de Asa Branca e um comércio se instalou ali. A cidade passou a viver em torno dos milagres e da alma generosa do Santo Roque. Até que um belo dia o Roque, que não era santo, nem nada, volta. E a volta dele irá significar o fim do comércio que se estabeleceu com a sua suposta morte e santidade. Belíssimo trabalho do ateu Dias Gomes.

Agora, com a nossa Santa Paulina em seu devido lugar, sacramentada pelas mãos e orações do papa, duas coisas de vêm à cabeça.

A primeira: se o papa conhecesse bem o povo brasileiro, iria aproveitar a cerimônia de domingo para beatificar não apenas a madre Paulina, mas alguns milhões de brasileiros que são santos. Primeiro, porque fazem milagres diariamente para transformar em comida o salário que ganham. Sim, são milagres. Depois, porque fizeram voto de pobreza na marra. E são injustiçados diariamente, são martirizados diuturnamente e, sobretudo, roubados até mesmo pelo governo municipal, estadual e federal. A eles não foram dadas as chances nem da saúde, nem da educação. São todos santos, meu querido papa. O Brasil tem - pelo menos - 38 milhões de santos com corações agonizantes. Todos vivendo dos próprios milagres.

A segunda (coisa que me vem à cabeça): morando perto de Nova Trento, cidade que não tinha este nome, onde a nossa santa atuou, venho observando como, apressadamente, estão tentando transformar a pequena cidadezinha perto de Brusque, numa nova Aparecida do Norte. Domingo, por exemplo, os 10 mil habitantes da cidadezinha, receberam 100 mil peregrinos. É o comércio e a exploração batendo na terra da santa. Desordenadamente estão construindo hotéis, pontes, novas avenidas, locais para romaria, etc. A Novíssima Trento está ficando horrorosa. E nas ruas tudo se vende. Dias Gomes não teria imaginação para tanto. Resumindo: a santa dá dinheiro! A santa é um bom negócio! A outra santa, a minha Santa Catarina, santa e mágica ilha, nunca mais será a mesma. Vão vender a nossa santa de todas as maneiras.

Até eu já estou pensando em escrever um livro. Não sobre a Santa Paulina, pois para isso me falta a fé necessária, o talento e a devoção. Mas que o que está a acontecer em Nova Trento merece um estudo mais sério, eu não tenho a menor dúvida.

Bem-vinda, madre Paulina. Et ora pro nóbis.

P.S.: Poderemos considerar como terceiro milagre da Santa Paulina o Fernando Henrique comungando?