Página anterior

GUGA E ZAGALO: ACONTECEU EM PARIS

Próxima crônica

o estado de s. paulo

10/06/97

 


Meu querido amigo Juca Kfouri que me perdoe, mas eu também chorei no domingo. De manhã (Guga) e de tarde (Zagalo).

Meu querido presidente Fernando Henrique, eu, como todo o Brasil, também acordei cedo no domingo. Concordo, o Brasil estava mesmo precisando de um herói. Precatório, compra de votos, PT etecétera e tal, dormiram até tarde no domingo.

Numa mesma cidade, num mesmo domingo, a ascensão de um menino e a queda de um senhor irritado e vermelho.

Impossível não se apaixonar pelo Guga, que tem a idade do meu filho. Muita coisa me impressionou nele. Em primeiro lugar a humildade, a determinação, a simplicidade. Em segundo lugar, o mundo todo pode observar, uma pessoa fazendo o que gosta. Joga rindo, pedindo desculpas para o adversário. Treme diante do ídolo (Borg), chora, samba.

Mas o que mais me impressinou mesmo foi a modernidade da coisa. Foi a primeira vez que eu vi surgir um novo ídolo (era o Brasil ou a Globo que estava precisando de um novo Senna?) e, na mesma hora, imagens dele com sete, onze, doze anos. Fiquei deslumbrado. Ele que é muito jovem ou eu é que estou velho? Da minha infância guardo apenas pequenas fotos preto e branco.

Só faltou a televisão mostrar o parto da mão dele. E por falar em parto, a simpática mãe dele não parece "mãe de miss"?. Quem é que não viu aquela senhora, chorando, gritar diante da televisão:

- Eu não acredito que ele saiu de dentro de mim!!!

Saiu, minha senhora, saiu. Fica tranqüila. Surgiu até a "vó de miss", uma velhinha que foi empolgar o velho mundo com seus conhecimentos tenísticos.

Outra coisa: você reparou como ele é a versão loira do meu querido Luis Fernando Carvalho, diretor do Rei do Gado? Até na altura eles batem.

Obrigado, Guga, obrigado aqui deste modesto cronista e ex-campeão noroestino infantil na década de sessenta. Você fez tudo que todos nós, que jogamos tênis um dia, queríamos.

E de tarde o outro extremo, o Zagalo. Agora sim, Zagalo, você é realmente um tetra.

Zagalo é o oposto do Guga. Pretencioso, ganancioso, de uma imodéstia a toda prova. Nunca me esqueço, na última Copa América, no Uruguai, quando ele dizia para os correspondentes esportivos do mundo todo:

- Sou o único tetra-campeão do mundo. Não tenho que provar nada a ninguém.

Não sei como uma pessoa que não tem que provar nada a ninguém pode ser técnico da nossa seleção. Tem mais é que provar.

E ele enumera o seu tetra: como jogador em 58 (o titutar seria o Canhoteiro, do São Paulo que se contundiu) e 62. Como técnico em 70 e como auxiliar do Parreira em 94 quando o Brasil não ganhou a Copa. As outras equipes é que a perderam. Eu estava lá, vi de perto a agonia.

Mas eu acho que o tetra do Zagalo é outro. Ele perdeu a Copa de 74 na Alemanha. E só saiu da primeira fase depois de vencer do Zaire (Zaire!) que vinha tomando de sete de todo mundo, por um modestro três a zero, no maior sufoco da história do Brasil em Copas do mundo.

Bem, perdeu a de 74. Depois perdeu a Copa América de 95. Depois perdeu a Olimpíada de 96. Agora perdeu o Torneio da França. Portanto, agora ele é mesmo tetra. O único tetra do Brasil.

E o mais doido da história é que ele sempre tem desculpas. Estamos treinando, foi bom para a seleção, etc.

Foi o Zagalo, há três anos, quem inventou o tal do número 1. Já queimou uns dez jogadores de alto nível na função. Amoroso, Juninho, Rivaldo, Zé Elias, Giovani, Djalminha, Leonardo, e mais outro tanto. Seriam esses jogadores todos ruins ou é o número 1 que não funciona? Com a palavra os especialistas liderados pelo meu querido Benevides. Por que é que ninguém nunca refutou o tal do número 1? Pressão da Brahma? Sei lá.

E está partindo impávido e colosso para a Bolívia, tentar o penta. Zagalo vai ser penta, tenham certeza.

Todo mundo fala (e eu concordo) que hoje temos uma geração para formar-se umas quatro seleções imbatíveis. Temos também uns quatro técnicos imbatíveis. Mas eles querem o Zagalo (afinal com quantos Ls) tetra-perdedor. Não entendo.

Não sei que é mais fácil. O Guga ser tetra no Grand Slam ou o Zagalo ser penta na Bolívia.