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Guerra é guerra!

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o estado de s. paulo

26/09/2001

 


Você está chegando à última página do jornal e eu prometo não falar na guerra, apesar do título.

Mas não resisto. Peguei dois vôos na semana passada. Agora a revista é pra valer: não pode canivete, tesoura e faca (ordens dos Estados Unidos). Aí você entra no avião e eles oferecem, de bandeja, uma faca (além da colher e o ponteagudo garfo) para cada um dos cem passageiros. Faca de aço inoxidável, com serrinha e tudo. Brazil!!!

Desde o dia 11, portanto há duas semanas, o mundo não fala em outra coisa. Parece a seleção brasileira de futebol: todo mundo entende do assunto. Análises contundentes, sorrisos sem dentes, lágrimas derramadas, dólares lá em cima, Deus no céu e Bush na Terra. <p

Claro que as piadinhas já surgiram, tipo: errar é humano, acertar é mulçumano. Até uma montagem do barbudinho possuindo o pentágono do George já rolou por aí. <p

Nada mais importa no mundo. Estamos em guerra. E o brasileiro adora uma guerra. É como um esporte, tem as estatísticas, gols pró e gols contra. Torce-se para um time, orgulha-se de um jogador. No fim do jogo vai ter medalhas, choros e velas, atletas recebidos pelo carro do Corpo de Bombeiros.

O restante do mundo eu não sei, mas brasileiro adora uma guerra. Mesmo porque a possibilidade de algum jogador nosso entrar no segundo tempo é muito remota. Uma guerra é uma autêntica Copa do Mundo! Que horror, meu Deus. Que horror, meu Alá!

Falei em Copa do Mundo. Era aqui que eu queria chegar. No Ronaldinho. Não o dentuço, o outro. Ao mesmo tempo que um afegão atinjia as fálicas balizas americanas com chute a curta distância, o nosso Ronaldo se preparava para voltar ao campo de guerra. Ninguém estava prestando atenção nele. Uma ou outra notinha aqui, um teipezinho ali. O povo quer sangue, quer mais é que ele quebre a perna de novo? E o Felipão o convoca? Brazil!!!

É um soldado fora de combate? Onde andará seu petardo? Não se fala mais no Ronaldinho nas mesas de bar. Bin Laden é o craque da vez. Só que o Bin Laden não pode ganhar a guerra para nós, brasileiros.

Desde que o catarinense Guga virou nosso herói (e com toda a justiça) o Ronaldinho foi para a reserva do nosso exército de homens capazes de vencer a única guerra que nos interessa. A Copa do Mundo. Roland Garros ficou mais importante que o Maracanã.

Nosso presidente liga para o técnico dos Estados Unidos, o George, para perguntar se está tudo bem. E para o Ronaldinho, nem um telegraminha? O nosso presidente deveria estar, neste momento, querendo é saber se o soldado Ronaldo vai ser convocado ou não para a guerra de 2.002. Podia até perguntar ao George o que ele acha, porque os americanos entendem bastante de guerras na Coréia e no Japão. Por falar nisso, eu não era nem nascido, mas será que o mundo ficou tão barbarizado assim, quando os americanos soltaram aquele tirombaço sobre as duas cidades japonesas e tem japonês morrendo até hoje? Será?

Não consigo entender essa fascinação do brasileiro pelas guerras dos outros. Mesmo considerando que os americanos perderam o primeiro jogo em casa. Três a zero para o terror. Se somarmos todas as pessoas que ficaram soterradas lá debaixo da trave americana, vai dar menos, muito menos do que os mortos por chacinas só em São Paulo em um ano.

Mas essa nossa guerrinha particular aqui não abala nem o mundo nem nenhum prédio. É caseira, normal. Brasileiro gosta mesmo é de ver bomba, soldados americanos com criancinha no colo. Hollywood nos encanta. Ronaldinho encantava. E eu torço para ele voltar com todas as suas munições e tiros. Ele é o meu soldado e é com ele que eu quero vencer a guerra. Os americanos já bateram na Coréia e no Japão. Agora é a nossa vez.

E, se por acaso, você ver por aí o Bin Laden entrando no Brasil pelo Paraguai, aproveita e convide o cara para ser técnico da nossa seleção. E se ele não fizer sucesso como nosso técnico, aí sim, vamos ter motivos para matá-lo. Sujeitinho asqueroso!

Ronaldinho, estamos aí! Força, garoto! Você é o nosso soldado, o nosso herói. Você é brasileiro como milhares e milhares que são mortos impunemente todos os dias por aqui.