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Gente normal

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o estado de s. paulo

01/11/2000

 


Foi um abraço forte, bonito, demorado e comovido. Ao me afastar um pouco, ela disse:

- Vai embora, não. Vai sair um macarrãozinho.

Uma hora antes, no domingo, meu filho passou na minha casa. Ia deixar o carro na garagem. Iria para a Paulista, como sempre faz quando o Corinthians ganha alguma coisa. Todo mundo estava indo para a Paulista. O Corinthians, do povão, havia ganho. Também o Palmeiras dos imigrantes, o São Paulo da classe média, a Lusa dos nossos pais, o moleque travesso do Juventus e o pequeno Nacional. A Marta! A Marta ia para a Paulista, me garantia o Antonio, com uma camiseta onde se lia Detesto o Maluf (ismo).

Fiquei olhando para aquele ex-garoto, agora de peito aberto, feliz, comemorando com os amigos, com a namorada.

Peguei o telefone e disquei para a casa da Marta. Claro que ia dar ocupado.

Não deu. Atenderam. Oito da noite. Era a Valéria, a secretária. A Marta não estava.

- Tá no comitê. Oito e meia ela chega. Vem pra cá.

Eu? Devia estar uma loucura a casa dela. Antevi a cena. Já estive, como jornalista, em casa de prefeito eleito. No dia da eleição. Rojões, bebedeiras, bilhetinhos em bolsos.

- Mas...

- Vem pra cá.

Eu fui. Resolvi dar um beijo na moça. Há 17 anos, fui pela primeira vez na casa deles. Pedir autorização para adaptar um dos livros dela para teatro.

Ela ficou me ouvindo, ouvindo. E falou:

- Mas eu vou fazer a adaptação com você.

Ela foi logo me explicando que não entendia daquilo. E não entendia mesmo.

Queria saber quando ia começar os treinos (ensaios). Quem iria fazer as fantasias (figurinos). Seis meses se passaram e eu comecei a aprender umas coisas de teatro com ela. Ela mergulhou no projeto. Me corrigia. Mas também ouvia. A Marta, quem diria, se transformara, em seis meses, numa dramaturga.

De mão e coração.

A última vez que nos falamos, foi antes de começo da campanha. Me ligou, já tarde, para me contar de uma peça que havia assistido em Paris com o Eduardo. Uma com a filha do Reale Jr., a Cristiane. Me contou em detalhes, sabendo do meu amor por teatro. A moça estava pós-graduada em teatro.

Voltemos ao domingo da Rua Grécia. Primeiro espanto ao chegar é que tinha vaga para estacionar. Fiquei mais preocupado ainda. Não deveria ter ninguém lá dentro. E eu, ali. Na porta, a Globo e a Record com aqueles repórteres que a gente vê na casa da gente. Toquei a campainha e - milagre? - a porta se abriu. Pouca gente. A dona da casa e o marido não haviam chegado ainda. O filho mais velho, o Supla, me recebe, coloca um rock e só me diz uma palavra: 1974. Da pesada.

Passo pela sala de televisão. A mãe da Marta e mais duas pessoas assistindo televisão, na mais absoluta normalidade. No escritório me encontro com o Breda, velho militante, anjo psiquiatra. E mais a delicadíssima Suzana Prado, viúva do meu querido Caio Graco e a filha Maiá. Beijos, abraços.

Saudades, o que você anda fazendo, etc. Estava tudo normal demais da conta.

Alguém comenta. A Marta chegou. O abraço e o fica aí que vai ter um macarrãozinho.

E eu fiquei. Chegaram pessoas. Não mais de 50. E rolou mesmo aquele macarrãozinho com a Marta entrando e saindo da cozinha infinitas vezes. Era um jantar igual a vários outros que eu já havia ido naquela casa. Filhos por ali, o lavabo aqui, as pessoas conversando, um cachorro latindo, a Leilah me contando da peça nova. Dei um giro de 360 graus. Foi quando a minha ficha caiu. As pessoas que estavam ali, naquele momento, naquele instante histórico para a dona daquela casa, naquele momento que pode estar mudando São Paulo, eram pessoas normais, absolutamente normais. Sabe como é?

Ninguém de terno. Nenhum conchavo em cantinho. Ninguém falando no ouvido de uns e outros. Ninguém dividindo e loteando pedaços da cidade. Ninguém articulando mutretas. Nada. Pessoas normais. Nenhum nefasto, nenhum oportunista, nenhum interesseiro. Um jantar de gente normal.

Esta minha cidade havia resolvido, em sua grande maioria, dar a cidade para pessoas normais tomarem conta dela. Foi isso que me emocionou ali no meio daquela sala. Não tinha ninguém correndo com a faca na mão para pegar a maior fatia do bolo. Ia ter bolo para todo mundo. Não só para os mais rápidos ou que pagassem mais.

Fiquei a observar cada vez mais atentamente aquele grupo. Gente bonita, inteligente. Gente feliz com a novidade da amiga que virou prefeita. Não se falava do candidato derrotado pela segunda vez por uma mulher do PT. Ninguém ali estava preocupado com ele. A calma daquela sala era intrigante. Olhei pra dona da casa:

- Já caiu a ficha?

Senti ali, naquele momento, uma calma e uma paz que nunca havia sentido nos meus 34 anos de São Paulo. Senti - mais do que nunca - que estava em casa.

Que estava em boas mãos.

Fui dar um beijo de despedidas, e disse:

- Estou indo para a Paulista.

E ela, não como prefeita eleita, mas como alguém que também queria comemorar, me disse, como se eu já não soubesse:

- Eu também vou!

E foi. E lá, vai ficar por quatro anos.

A cidade respirou aliviada. Em paz.

E eu acho que vai ter macarronada pra todo mundo.