Quando eu era garoto, lá pelos anos 50, começo dos 60, o Brasil dava o seu
grande impulso industrial. Juscelino falava em 50 anos em 5 e foi isso que
se deu. Mas tinha a turma do contra, como sempre.
Logo surgiram os nacionalistas que eram contra a entrada de produtos
estrangeiros no País. Naquela época, eu e o meu primo Marcelo fumávamos
escondidos no fundo do quintal, lá em Uberaba. Fumávamos ramos secos de
chuchu. Posso garantir que era muito bom. Dava até para tragar.
E eu lembro como se fosse hoje de uma espécie de cartilha chamada Seu
Brasilino, em que, em forma de história em quadrinhos, desandava com tudo
que não era autenticamente brasileiro. Seu Brasilino implicava até mesmo
com o plástico; "que coisa plástica, que coisa elástica, que coisa
drástica", cantavam Ary Toledo e Carlinhos Lyra.
Pois nessa cartilha estava escrito que a Souza Cruz não era nem do senhor
Souza e muito menos do senhor Cruz. Era de uma tal de British American
Tobacco. Já disse, nunca me esqueci daquilo. E fiquei meio triste ao
descobrir que nem o seu Souza nem o senhor Cruz existiam.
Pois agora, mais de 50 anos depois, o jornalista e escritor Fernando
Morais escreveu um histórico livro sobre os cem anos da Souza Cruz, onde
veio confirmar as informações do seu Brasilino. Em parte, vou logo
dizendo. O seu Souza e seu Cruz realmente nunca existiram. Sim, mas
existiu o senhor Albino Souza Cruz, nascido lá no norte de Portugal e
emigrado para o Brasil com 14 anos, em 1885.
O livro, editado pela DBA, não trata apenas da vida e a saga do menino
Albino (Souza Cruz). E nem só da história da maior indústria de cigarros
do Brasil. É bem mais do que isto. A vida do portuguesinho aventureiro se
confunde com a do país que escolheu para viver e trabalhar. E dar emprego
para milhares e milhares de brasileiros.
E se você for um fumante inveterado como eu, o texto do Fernando vai fazer
com que você faça uma viagem no tempo. No seu tempo, através de cada marca
de cigarros que você fumou durante toda a sua vida.
Sim, do ramo seco de chuchu, passei direto para o Continental (sem filtro,
como convinha), com o majestoso desenho em cinza do nosso Continente.
Estamos no fim dos anos 50. Foi fumando Continental que o Brasil foi
campeão na Suécia.
Passei depois para o Luís XV, que era mais elegante e as meninas fumavam
escondidas nos banheiros das festinhas e dos clubes. Ah, que maravilha,
quando surgiu o Minister, o primeiro com filtro. Era um pouquinho mais
caro, mas a gente se esforçava. Era quase um Charm.
Pois bem, aqui estou eu a escrever este texto, fumando o meu Camel,
turkish & american blend. Mas é da Souza Cruz, é do seu Albino que já
morreu e não foi de câncer no pulmão. Foi de velhice mesmo, com mais de 90
anos.
Resumindo e encerrando, tudo isto me fez voltar ao passado, a ter saudades
do meu tempo do chuchu, do Continental, do Hollywood (o sem filtro, é
claro), do Luís XV, do Minister.
Antes de encerrar, filtro uma tragada do texto do Fernando, contando os
momentos que antecederam a vinda do menino Souza Cruz para o Brasil:
"E foi em suas andanças por Lisboa que ele, sempre com o irmão caçula pela
mão, ao descer a Rua Augusta em direção à Praça Dom Pedro IV (que os
lisboetas, já naquela época, conheciam apenas como Largo do Rossio), deu
com uma vidente que, dentro de uma gaiola, trazia um canário amestrado.
Por cinco réis (um bom dinheiro para alguém nas circunstâncias deles), o
canário tiraria com o bico um papelzinho que anunciava o destino do
cliente. Albino achou que valia o preço, convicção que aumentou depois que
leu o pedaço de papel, que ele carregaria no bolso até morrer, quase 80
anos depois. Lá estavam as palavras proféticas:
- És inclinado a passar águas do mar; terás de lutar muito pela vida e,
por fim, serás feliz.
E agora, se me permitem, vou acender mais um Camel.
Nota - E por falar no Fernando (que agora só fuma charutos), volto a falar
do Maranhão. A favor. Descobri que são maranhenses os dois mais
importantes cabos eleitorais do escritor Fernando Morais, em disputa pela
cadeira de Roberto Marinho na ABL: os irmãos Fernando José e Roseana
Sarney. Nenhum dos dois vota, mas são ambos filhos do mais influente de
todos os eleitores da Academia, o ex-presidente José Sarney. Como é que
eu, aqui de Floripa, sei disso? Li na página de opinião d'O Estado do
Maranhão, jornal de propriedade do já referido presidente Sarney...
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