Conheci o grande (nos dois sentidos) Marinho Perez em Lisboa, na casa de
um dentista brasileiro maravilhosamente maluco e simpático, o Marcelo
von Zuben.
O Marcelo é autor de frase lapidares como "Filho é bom,
mas dura muito", que eu usei para título do meu livro de crônicas
publicadas aqui no Estadão. Outra: "O homem, depois dos quarenta, não
precisa de mulher: precisa de um advogado e de um psiquiatra". Mais uma:
"Portugal hoje é um país cheio de novos ricos e velhos pobres".
Conheci na casa dele é modo de dizer, pois era fã daquele
zagueiro machudo que veio do então gloriso São Bento de Sorocaba, andou
pelo Palmeiras, Santos e Inter de Porto Alegre. E foi o capitão da nossa
seleção em 74, na Alemanha. Aquela em que o Zagalo não escalava o Ademir
da Guia.
Era forte, mas magro. Avançava, com suas avantajadas
costeletas. Foi jogar no Barcelona ao lado do Cruyf. Diziam que ele ia
ganhar 40 mil dólares por mês. Quando chegou o holerite só tinha vinte.
Reclamou. Explicaram que era porque era estrangeiro. Mas se ele se
naturalizasse... Ele se naturalizou e foi imediatamente convocado para
servir o exército espanhol. Fugiu para o Rio Grande do Sul, onde
nasceria seu filho Junior "que chuta com os três dedos".
Quantos e quantos borregos não comemos na casa do
Marcelo, lá em Parelheiros, feitos pela briosa e simpática Cristina,
auxiliada pela mulher do Marinho, a divertidíssima Mazé. Quantas
latinhas de Cristal...
Marinho foi treinador no Golfo Pérsico (antes da guerra)
e depois fez uma carreira brilhante em Portugal. Primeiro levou o
Belenense a campeão da Taça de Portugal (uma espécie de Copa Brasil).
Depois treinou o Sporting por dois anos e oito meses, um récorde no
clube e no país.
Me lembro duma vitória importante do seu time contra a
Inter de Milão, lá na Itália, por um a zero.
Me lembro também que uma vez o filho dele precisava fazer
uma redação para a escola e não conseguia. Marinho pediu que eu a
fizesse. Fiquei meio sem jeito com o amigo, mas não topei. E não é que o
próprio Marinho fez a redação? E ficou ótima? Filho de médico em
Sorocaba, classe média, inteligência e cultura acima da média dos
jogadores brasileiros. Bem acima.
Quando os portugueses começaram a encher o saco dos
brasileiros, Marinho achou que era a hora de voltar. "O dinheiro tá
acabando aqui e esses caras estão muito metidos". Cheio de imóveis, uma
fazendinha e um belo apartamento na Praça Buenos Ayres, resolveu
descansar, beber cerveja e aguardar. Recebeu convites de todo o mundo.
Até do Japão. Mas sempre dizia que era a hora de ficar por aqui. E
engordar. Chegou até a pintar o cabelo e ficou horrível. Mas já deixou
essa vaidade de lado, aos 47 anos.
E nos vimos várias vezes na sua casa aqui, comendo a
feijoada da Mazé ao lado do Leivinha, o centroavante daquela mesma
seleção de 74. E a contar casos de futebol. Principalmente da
sexualidade dos jogadores nas copas do mundo. Daria um livro. Um dia
vamos nos juntar os três e escrever este livro. Tem casos de arrepiar
qualquer escritor e leitor mais experimentado.
Agora recebeu o convite do União São João, de Araras,
para disputar o campeonato Brasileiro. Tarefa difícil, árdua, mas é
apenas mais um desafio para o hoje barrigudo Marinho. E vai começar
pegando uma pedreira: o Fluminense, lá em Araras. Vou assistir, Marinho.
Da arquibancada, onde assistimos vários jogos juntos no estádio Alvalade,
em Lisboa, quando você estava expulso de campo.
Espero que o trabalho no União São João seja um começo de
sua volta, um trampolim para um time de mais expressão. Benvindo ao
Brasil, Capitão. Benvindo ao futebol brasileiro que te jogou no mundo da
bola e da vida.
PS - E aquele uisquinho, quando sai? Avisa o Leiva.