Filho não acaba, não

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o estado de s. paulo

18/04/2001

 


Deu vontade de ver o Brasil dar uma goleada no Peru. E convidei uma professora austríaca que está no Brasil fazendo uma tese de doutoramento sobre os nossos cronistas. Andou lendo o Nélson Rodrigues, queria ver um jogo. Comigo mesmo.

Fui educado, fino e caro: consegui ingressos de R$ 50. Os mais caros. No melhor lugar, avisei a Barbara. "R$ 50? Trinta por cento de um salário mínimo?" E o ingresso impressionava qualquer primeiro mundo. Uma cartela cheia de efeitos e, no meio, encaixadinho, o ingresso que parecia um cartão de crédito. E escrito lá: Cadeira Superior. Mais do que isso: Cadeira Superior Especial. Coisa de luxo. E ela me fez a primeira pergunta:

- Não é numerado? A cadeira não tem número?

Tive de dar a explicação: antigamente era. Mas, como ninguém respeitava a numeração, deixou de ser. Ou seja, como a lei era desrespeitada, em vez de fazerem valer a lei, tiraram a lei. Mas fica tranqüila, é Cadeira Especial.

Eu havia lavado o carro. E estava bem vestido, porque depois do jogo, lá mesmo, no Morumbi, tinha o aniversário do meu primo, o Hugo. Eu disse que havia lavado o carro, porque você não pode imaginar o estado em que ele ficou logo depois. Sim, quanto mais você se aproxima do estádio mais elementos pulam em cima do seu carro, tentando te vender ingressos (por três vezes o valor) ou querendo te garantir uma vaga logo ali por aquele preço que você sabe. Foi quando ela fez a segunda pergunta, diante da horda de hunos:

- Mas não tem policiamento?

- Tinha, mas essa turma foi ficando maior que a dos policiais, então tiraram.

Aí já não valia mais mão ou contramão. A única mão que valia era a do cara no seu vidro. Travei tudo. Olhei para ela e achei que ela estava pensando na morte.

Depois de estacionar (vou pular esta parte, porque não temos espaço) chega-se em frente do estádio. No ingresso estava escrito portão 5. Azul. Mais ou menos 10 mil pessoas apertadas perguntavam entre si: aqui é azul ou laranja? Ninguém para responder. Ninguém! Para facilitar as coisas, cinco policiais montados a cavalo tentavam colocar ordem na coisa. Cocô para todo lado. Dizem que aquela fila é a azul. Não, aquela é a laranja. Tem uma cerca, não pode pular. Rodamos, rodamos e achamos o portão 5. O número estava escrito bem pequeno.

Entramos. Catraca eletrônica, modernérrima. Aí pergunto, todo cheio de orgulho e riqueza:

- Onde é a Cadeira Especial?

- Daqui até lá.

Daqui até lá, era o lado direito inteiro do estádio. Tudo ali era Cadeira Especial. Nos sentamos lá em cima, na penúltima fila. Aos nossos pés uma poça d'água completa. A fileira inteira molhada. Água pra valer. Não, não havia chovido naquela noite. A moça estava de sandália... Arregaçou a calça como se nada estivesse acontecendo.

As pessoas que iam chegando, pediam licença, passavam por cima da gente, pisavam nas nossas cadeiras e desciam. Pisavam com os pés molhados, é claro. O líquido parecia ser água. Foi quando ela fez a terceira pergunta:

- Não tem corredor, para as pessoas descerem?

Antes de eu tentar explicar que antigamente tinha, ela fez a quarta pergunta:

- Por que o jogo não começa às 8 da noite? Nunca vi um esporte começar às 10 horas.

Ia falar na televisão, na novela das 8. Mas ela não ia entender. Ia fazer muita pergunta. Como explicar para ela que é para os torcedores ficarem enchendo a cara no bar das 6 até as 10 da noite, esperando a novela acabar? Que não vendem bebida alcoólica lá dentro porque todo mundo já entra de cara cheia? Happy hour de torcedor brasileiro é coisa séria, pensei olhando para os olhos azuis dela, pensando no Mozart, em Salzburg. Mas logo voltei ao Morumbi.

Quando ia começar o jogo, ela me perguntou onde era o banheiro.

- Melhor, não. Em último caso, voltamos para casa.

- Non entender.

Como se ela estivesse entendendo alguma coisa até ali. E me fez mais uma pergunta complicada:

Queria saber por que é que entre o alambrado e o gramado tinha quase cem metros de distância. Por que a arquibancada era longe do campo.

É que antigamente...

Deixa pra lá.

Saímos do estádio à meia-noite imundos, suados e apertados para fazer um inocente xixi. O carro, uma impressão digital só.

Isso tudo durou quatro horas. E ela não acreditou que esteve no melhor estádio de futebol de São Paulo.

Entendeu, Hugo, por que não fomos ao seu aniversário? Soube que tinha até peru. Parabéns, cara!!!