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FIAT LUX

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o estado de s. paulo

21/05/2003

 


Nunca tinha visto nada igual. Mulheres (e alguns homens também) com umas luzinhas no corpo todo, em cima da roupa ou mesmo na orelha, nos pulsos.

Luzinha de várias cores que fica se acendendo e apagando intermitentemente.

Você já viu alguém assim, por aí? Pois eu vi neste fim de semana, em Búzios.

Não sei se é uma moda local, ou mesmo carioca. Mas é que eu me assustei com aquelas mulheres árvores de Natal entrando no restaurante. Na rua havia outras.

No meu tempo se diria: quer aparecer, dependura uma melancia no pescoço. Mas a necessidade de chamar a atenção nos dias de hoje vai mais longe.

Uma dessas mulheres se sentou ao meu lado. Te juro que fiquei com medo de me encostar nela e levar um choque. Meio de longe fiquei admirando a iluminada mulher. Já havia feito todas as plásticas possíveis, estava na cara. Mesmo assim, ninguém olhava para ela. Foi preciso iluminar-se toda, foi preciso mais que uma melancia no pescoço. Fiquei com tanto dó daquela senhora que o sentimento virou esta crônica. O que não faz uma pessoa para aparecer, para chamar a atenção sobre ela mesma. Fui dormir com isto na cabeça. Piscando na minha cabeça.

Pensando bem, não é tão grave assim. Tem gente que declara guerra para aparecer.

E tem gente que aparece, fica famosa, sem querer, sem colocar nenhuma luzinha no peito ou na orelha. Tem pessoas que se imortalizam apenas por estar perto de outra que se sobressai.

Quer um exemplo? Aquele excelente goleiro do Vasco que levou o milésimo gol do Pelé em pleno Maracanã. Era um grande goleiro. Mas não foi pelos seus méritos que entrou para a nossa história. É que ele estava lá naquele momento do outro.

O Rogério, excelente lateral-direito do Corinthians, é outro caso. Grande jogador (quase foi para a Copa do penta), vai entrar para a história porque estava diante do Robinho do Santos na hora da fatídica pedalada. E há de torcer para o Robinho ficar cada vez mais famoso e melhor. Quanto mais o Robinho subir na vida, mais o Rogério ficará imortalizado. Daqui a 30 anos vão passar aquele lance, como passam até hoje o gol no Andrada.

Não sei muito bem por que apareceram estes jogadores aqui na crônica, já que eu estava falando de luzes e ribaltas. E é claro que tanto o Andrada como o Rogério não fizeram nada por se imortalizar. Exatamente: se tivessem evitado o gol e a pedalada, seriam logo esquecidos por mais craques que fossem.

Volto à senhora iluminada sentada ao meu lado. Será que ela não tem nenhum amigo ou amiga para lhe dar uma luz própria? Como será a noite dela depois de chegar em casa, desligar a pilha e se apagar na cama? Que coisa triste, gente. Pessoas sem luz própria comprando luz artificial para serem notadas, para ficarem acesas.

Onde chegamos, meu Deus? Alguém aí, me dá uma luz!