Nunca tinha visto nada igual. Mulheres (e alguns homens também) com umas
luzinhas no corpo todo, em cima da roupa ou mesmo na orelha, nos pulsos.
Luzinha de várias cores que fica se acendendo e apagando
intermitentemente.
Você já viu alguém assim, por aí? Pois eu vi neste fim de semana, em
Búzios.
Não sei se é uma moda local, ou mesmo carioca. Mas é que eu me assustei
com aquelas mulheres árvores de Natal entrando no restaurante. Na rua
havia outras.
No meu tempo se diria: quer aparecer, dependura uma melancia no pescoço.
Mas a necessidade de chamar a atenção nos dias de hoje vai mais longe.
Uma dessas mulheres se sentou ao meu lado. Te juro que fiquei com medo de
me encostar nela e levar um choque. Meio de longe fiquei admirando a
iluminada mulher. Já havia feito todas as plásticas possíveis, estava na
cara. Mesmo assim, ninguém olhava para ela. Foi preciso iluminar-se toda,
foi preciso mais que uma melancia no pescoço. Fiquei com tanto dó daquela
senhora que o sentimento virou esta crônica. O que não faz uma pessoa para
aparecer, para chamar a atenção sobre ela mesma. Fui dormir com isto na
cabeça. Piscando na minha cabeça.
Pensando bem, não é tão grave assim. Tem gente que declara guerra para
aparecer.
E tem gente que aparece, fica famosa, sem querer, sem colocar nenhuma
luzinha no peito ou na orelha. Tem pessoas que se imortalizam apenas por
estar perto de outra que se sobressai.
Quer um exemplo? Aquele excelente goleiro do Vasco que levou o milésimo
gol do Pelé em pleno Maracanã. Era um grande goleiro. Mas não foi pelos
seus méritos que entrou para a nossa história. É que ele estava lá naquele
momento do outro.
O Rogério, excelente lateral-direito do Corinthians, é outro caso. Grande
jogador (quase foi para a Copa do penta), vai entrar para a história
porque estava diante do Robinho do Santos na hora da fatídica pedalada. E
há de torcer para o Robinho ficar cada vez mais famoso e melhor. Quanto
mais o Robinho subir na vida, mais o Rogério ficará imortalizado. Daqui a
30 anos vão passar aquele lance, como passam até hoje o gol no Andrada.
Não sei muito bem por que apareceram estes jogadores aqui na crônica, já
que eu estava falando de luzes e ribaltas. E é claro que tanto o Andrada
como o Rogério não fizeram nada por se imortalizar. Exatamente: se
tivessem evitado o gol e a pedalada, seriam logo esquecidos por mais
craques que fossem.
Volto à senhora iluminada sentada ao meu lado. Será que ela não tem nenhum
amigo ou amiga para lhe dar uma luz própria? Como será a noite dela depois
de chegar em casa, desligar a pilha e se apagar na cama? Que coisa triste,
gente. Pessoas sem luz própria comprando luz artificial para serem
notadas, para ficarem acesas.
Onde chegamos, meu Deus? Alguém aí, me dá uma luz!