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FIAT LUX, POR FAVOR  

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o estado de s. paulo

30/01/95

 


Acabou a luz.

 Nada grave, acabar a luz. Nada grave? Não numa segunda-feira, de manhã, quando acordo meio em cima da hora para escrever esta crônica. Aliás, estou escrevendo à mão. Desde o meu tempo de faculdade (e lá se vão quase trinta anos) que não escrevo nada à mão, a não ser preencher o cheque com letras de forma que, de forma, já não têm mais nada. Não tenho mais letra, esta que é a verdade. Até bilhetinho pra deixar na porta, tipo "estou no banho", escrevo no computador. Nem máquina de escrever tenho mais. E o pior é que, escrevendo à mão, jamais saberei o tamanho certo deste espaço que tenho que ocupar. Na máquina, sei que são cinquenta linhas, no computador, 4.000 caracteres. Com esses garranchos, jamais saberei. A verdade é que só acabando a luz é que a gente percebe que não consegue fazer nada sem ela. Deus sabia das coisas quando, num gesto dramático  e divino, disse: Fiat Lux! Depois virou fósforo, mas isso é outra história.

 Tudo começou no banho com a água gelada. O leite, na geladeira, estava frio. E quase coalhado. Devia fazer tempo que estava sem força. Deve ser por isso que luz chama-se força.  Pego o interfone para saber se a portaria pode me dar uma força, uma luz sobre a situação. Claro que não estava funcionando, idiota! E eu tenho que escrever a crônica. Mas o computador... Penso em ligar para a redação e avisar sobre o problema. Inútil: meus dois telefones são ligados na tomada. Estou ilhado. Penso em descer pelo elevador para saber notícias e tomar providências. São dez andares. Descer eu desço, mas jamais conseguiria subir dez andares, sedentário que sou. O único exercício que faço é ir a pé do elevador até o carro, na garagem. Preciso avisar a redação. Preciso fazer alguma coisa! Vou acabar entrando em pânico. Mesmo escrevendo à mão, como passar o fax para o jornal? Ou, pior ainda, como avisar que não vai ter crônica? Logo agora que estou pedindo aumento?

 A crônica que eu ia escrever hoje era sobre os jovens orientais, os nisseis, os coreanos, os chineses e suas maravilhosas perfórmances nos vestibulares da vida. Meus dedos já estão doendo, a caneta não flui, as idéias estancam. O que eu queria dizer é que há mais de quarenta anos, desde que eu me entendo por gente, que os primeiros classificados nos vestibulares são sempre os orientais. Basta olhar nas extensa listas e estão lá os Lin Xang Tings da vida. Homens e mulheres. Desmoralizam a nós, mortais ocidentais ignorantes e preguiçosos. Dizem que os cursinhos dão bolsas para eles para depois usarem as fotinhas nas publicidades dos jornais. São imbatíveis. São terríveis. São muitos.

 Mesmo em Berkeley, onde anualmente há concursos para bolsistas estrangeiros, o problema é o mesmo, fazendo com que a universidade californiana limitasse em trinta por cento a quantidade deles. Porque, até então, noventa e nove por cento das vagas eram orientalizadas. Sulamericano dançava no escuro.

 Tento um interruptor. Nada. O pessoal da redação já deve estar me ligando e deve dar ocupado.

 Mas eu estava falando dos orientais e dos vestibulares. O que iria dizer na crônica é que eu gostaria muito de saber que fim levam e levaram estes geniozinhos, depois que sairam da faculdade. Eles entram em tudo: medicina, engenharia, física, eletrônica, publicidade e até mesmo na EAD (Escola de Arte Dramática). Mas depois somem. Já notaram? Não conheço nenhum médico, engenheiro, advogado ou mesmo físico e ator, oriental. Será que eles são preparados apenas para o vestibular e depois caem na real, somem no escuro? Ou será que se formam e deixam o país? Esta questão estava me intrigando e queria falar dela hoje. Mas com essa Bic está difícil.

 Eu podia acordar o meu filho, pedir para ele descer e avisar o jornal. Mas ele está gripado, tossiu a noite toda, tudo por culpa daquela chuva dos Stones na sexta-feira. Não há corpinho de 17 anos que suporte oito horas de chuva. Meu Deus, e se eu precisar sair para comprar algum remédio para ele? Melhor deixar ele dormindo no escuro.

 Vocês me desculpem, mas eu tinha certeza que a crônica sobre os vestibulorientais ia ser boa, estava toda na minha cabeça. Mas cabeça sem luz, não funciona. Estou como brasileiro no vestibular: nenhuma luz no fim do túnel.