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FERNANDA LYON, MABE e DA SILVA

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o estado de s. paulo

04/12/95

 


- Mas isso é um Da Silva!!!

- O que?

- Um Da Silva!

- Da Silva, é?

Me disse o simpático e informado moldureiro que veio me trazer uma genial reprodução feita pela pintora paulistana Fernanda Lyon, de um Chaim Soutine, aquele, amigo do Modigliani: O Porteiro. Eu fiquei extasiado com o trabalho da Fernanda. Não conseguia tirar os olhos do meu Lyon-Soutine. Mas o homem não tirava os olhos daquele outro quadro amarelo, onde tem um bicho esquisito desenhado que eu nunca detectei exatamente qual.

O homem ficou olhando para o Da Silva, passou a mão, viu a data.

- Autêntico! De 70, a melhor fase dele!!!

- É mesmo, é?

Confesso que não sabia quem era ou tinha sido o Da Silva. Mas o quadro dele, amarelo-cheguei, primitivista e autêntico estava ali.

- Tem muita imitação por aí. Mas esse é dos bons!

Eu tinha um valioso Da Silva em casa e não sabia.

- Depois ele foi para o norte, parece que trocava quadros por garrafas de cachaça. Talvez nem esteja mais vivo.

O quadro tem sua história. Há muitos anos, o escritor Reinaldo Moraes conheceu um milionário baiano em Salvador que se encantou com ele, pelo seu livro Tanto Faz. Deu o quadro para ele. O quadro veio de carro até São Paulo. Reinaldo achava o quadro horroroso. Deixou no quarto de empregada da mãe dele, na rua Lisboa.

Anos depois eu fui morar naquele mesmo apê e o quadro estava lá, num canto, abandonado. Também não gostei dele. Ficou alguns anos em cima de um guarda-roupa. Fui morar em Portugal e o amarelão (como eu o chamava), ficou na casa do arquiteto Fábio Goldman, provavelmente debaixo de alguma cama.

Agora ele está lá na minha sala, imponente. "Um dos expoentes do primitivismo brasileiro", como sentenciou o moldureiro. Só que o amarelo não combina com as minhas poltronas verdes. Minha sala está parecendo uma bandeira desfraldada. Mas é um Da Silva, com muito orgulho.

Essa história me fez lembrar do Manábu (com acento no "a", sim senhora) Mabe que passou a infância e a adolescência dele lá em Lins.

O Mabe era horteleiro, como o pai. Vendia nabos e alface, mas gostava de pintar. Começou pintando gravatas brancas. Aquelas mulheres nuas, aqueles coqueiros, imaginem. Depois começou a pintar telhados de casas linenses, sempre sobre a tutela e as aulas do mestre Kumasaka.

Como ele era meio duro (naquela época, é claro), pagava tudo com quadros. Médicos, advogados, funcionários, bancários, etc. Todo mundo tinha pelo menos um ou dois quadros "daquele japonês gordinho". Assim como o meu Da Silva, ficavam jogados nos fundos de garagens úmidas, em cima de móveis empoeirados.

Esses primeiros trabalhos do Mabe devem valer uma fortuna, pois só o pessoal de Lins é quem tem. Aquele avião que caiu no Pacífico, pilotado por aquele japonês que já havia caído em Orly, levava, para o Japão, quadros dessa fase do pintor. Agora estão no fundo do mar. Menos em Lins.

Conforme o Mabe foi ficando conhecido, os quadros foram mudando de cômodos, até chegarem na principal parede da sala de visitas, logo acima do sofá. Dizem que tem gente lá em Lins que tem 16 Mabe nas paredes.

Será que o Mabe não trocaria o meu Da Silva por um quadro dele? Coisa de linense para linense, Mabe...