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Férias???

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o estado de s. paulo

06/03/2002

 


Tirei férias daqui, durante quatro semanas. Estava em férias, como informava o jornal, estava de férias como gostava de gozá-las no interior de São Paulo e Minas quando era menino.

O que importa é que você não pode imaginar a quantidade de e-mails que eu recebi (fora os que iam para o jornal) e, quase todos eles, com a mesma pergunta: féééérias??? Férias, pôxa.

O subtexto (nem tão sub e muito menos texto) era: pô, esse cara escreve uma vez por semana e tira férias? É por isso que o Brasil não vai pra frente, diria meu pai, nos anos 60, quando cismei em rabiscar na velha Remington.

Comecei a escrever profissionalmente na Gazeta de Lins, em 1960, com 14 anos, me achando o máximo. Portanto, trabalho no ofício há 42 anos. Sem férias. Era aqui que eu queria chegar.

Mesmo ficando quatro semanas sem escrever aqui, não estava nem em férias, nem de. Porque (feliz ou infelizmente) não dá para bloquear a cabeça e dizer: não vou pensar, não vou ter nenhuma idéia nem para crônica, nem para livro, filme, novela, nada. Estou em/de férias!!!, mas não adianta. Quando você menos espera, deitado na praia, vendo ondas e bumbuns, lá venha ela requebrando a caminho do mar no seu doce (e bem-vindo) balanço: a idéia! Pronto, ela chegou, acabou o sossego. E é boa, gostosa.

E, pior ainda, é isso: a idéia é boa. Daquela que vem firme, sem titubear, sem precisar de tirar arestas ou polir. Chega plena. E eu não levei o computador para a praia. Mas tenho o celular. Ligo para a minha própria casa e deixo a idéia na secretária eletrônica, coitada.

De noite vou ver os recados. Duas ou três idéias. Umas para crônica e eu estou de/em férias.

Registro tudo no computador. A idéia.

A idéia é o momento sublime, total, imperativo do processo da criação. É naquele momento, naquele exato pequeno segundo, que o escritor tem o orgasmo. E não quando o livro sai, ou na noite de autógrafo ou ao vê-lo subindo na lista dos mais vendidos. Tudo isso é bom, mas é coisa do ego. O tesão mesmo é a hora da idéia. É tão importante que eu me lembro de onde eu estava quando tive cada idéia que depois viraram crônicas, livros ou filme. Sei até a roupa que estava usando.

Portanto, é nas férias, que a gente tem mais idéias. Idéias que podem me sustentar por mais dois ou três anos de trabalho. Este aqui, da digitação. Mas isso é mesmo moleza e você tem razão sobre o tirar férias. Mas é nas férias que eu mais trabalho, deu para me entender?

Portanto, sempre que eu estiver em/de férias, é porque vem coisa por aí. Boa ou ruim, é outra história.

Estranha esta minha profissão, onde você não consegue parar de trabalhar. Você pode fugir lá para Paris e basta se sentar num barzinho de Marais que a sua cabeça, não tendo mais o que fazer, começa. Tem vezes que eu tento afastar esses maus pensamentos: sai, idéia, sai! Me deixa quieto, tou de férias, não percebe? Férias!!! Mas é tarde demais. Ela sabe que eu vou gostar dela. Aí eu abro a cabeça e o coração e ela vai entrando em mim, num ato quase sexual e sempre lúdico. Algumas vezes a idéia é tão boa (pra mim, pelo menos) que eu me dou o direito de não ter idéia por cinco dias. Consigo. Às vezes.

Será que um médico em férias pensa no baço? O dentista fica a imaginar obtusas obturações? O engenheiro fica olhando para as pontes e refazendo cálculos? O promotor acusa alguém em seus sonhos cheios de culpa? Acho que não. Como o escritor, só o jogador de futebol. Passa as férias batendo bola, já notou? E com um prazer indescritível. Joga bola todo dia. Como eu que também dou tratos à bola todo dia.

Acho que a gente faz isso porque gosta da profissão. Felizmente nós, escritores, ainda não recebemos aqueles salários e não temos compromisso com ninguém, a não ser a distinta platéia. Tenho medo de também sermos corrompidos para fazermos apenas o que um técnico nos mandar fazer, gritando o tempo todo no seu ouvido enquanto você trabalha.

Acho que técnico devia ser proibido até de entrar no estádio em dia de jogo. Para que os jogadores voltem a jogar aquele futebol de pelada, de areia, de amigo, de dribles desconcertantes.

Enfim, deixar o criador ter a idéia dele quando bem entender. E jogar no ataque porque o jogo é de campeonato.