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Feliz Natal, seu Natalino

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o estado de s. paulo

03/01/96

 


Seu Natalino é funcionário público, tem uns cinquenta anos, ganha pouco (é claro) e há vinte anos vinha enfrentando o mais desagradável dos problemas masculinos: a impotência. E o desejo era cada vez maior. Mas não tinha jeito. Na hora H, não conseguia colocar os pingos nos is.

Depois de três anos achando que era coisa passageira e constatando que não era, começou uma verdadeira peregrinação para resolver o seu problema, já que a mulher de há muito o deixara por outro, a ingrata.

Tentou de tudo, desesperado: médicos de plantão em hospitais públicos, curandeiros, pai (e mãe) de santo, poções mágicas. Barro, águas não sei de onde. Espiritismo. Igreja Universal. Nada. E seu Natalino gostava de fazer sexo. Como gostava.

Foi quando ele viu, pela televisão, que se podia fazer implante de silicone e a coisa ficava "uma beleza, tinindo". Mas onde arrumar todo aquele dinheiro? Seu Natalino percorreu hospitais e cidades e até pequenos empresários para o ajudar. Ele tinha vontade, mas não tinha a ferramenta. Era caro. Mas seu Natalino era perseverante, firme. E quem o conheceu garante que o penteado a Clark Gable lhe dava um ar de firme conquistador.

Durante dezessete anos seu Natalino batalhou. Depois de muita procura, conseguiu um microempresário que financiaria o material. Não era nem silicone mais, a medicina tinha evoluido muito nesses 17 anos de infortúnio. Mas tinha apenas o material. Seu Natalino recebeu, pelo correio, a prótese em três tamanhos. Pequeno, médio e grande. Faltava o hospital, o médico. O sucesso parecia estar chegando perto.

Pois não é que um hospital público da periferia se prontificou a fazer o implante? Mas tinha uma condição: seu Natlino teria que trazer um atestado assinado por um psiquiatra ou psicólogo do Estado, com firma reconhecida, etecétera e tal. Faltava pouco, portanto.

Foi quando ele procurou um amigo meu, jovem psicólogo. Faltava apenas um papel e seu Natalino voltaria ao normal. Tiraria o atraso, como ele disse na primeira sessão. Depois da quinta sessão, o psicólogo deu o tal papel para ele. O problema estava mesmo na cabeça (sem trocadilhos, por favor).

Foi feita a operação. Um sucesso.

Passa um mês, seu Natalino vai fazer uma visita de cortesia ao meu amigo psicólogo e levou até uma garrafa de cachaça. Estava com uma justíssima calça jeans onde se podia notar, escandalosamente, a protuberância. Ele deve ter posto o tamanho grande, pensou meu amigo.

- O senhor quer ver?

- Não, não, não é necessário.

- Faço questão, doutor.

- Não, não, dá para perceber.

- As mulheres adoram. Estou fazendo o maior sucesso, doutor. Tá uma luta, doutor.

E lá se foi o seu Natalino de cabeça (literalmente) erguida.

Mais uns três meses se passaram e seu Natalino volta a procurar o meu amigo.

- Preciso fazer terapia com o senhor, doutor.

- Mas o que foi, seu Natalino. Alguma rejeição?

- Não doutor, a coisa tá firme como o diabo gosta. O problema é que eu perdi a vontade. Dá para o senhor me ajudar?

O problema continuava na cabeça.

Em tempo: acabei de falar com o meu amigo que disse que o seu Natalino teve um excelente natal.