Página anterior

FAÇA LOGO UM SEGURO CONTRA CORNO

Próxima crônica

o estado de s. paulo

3.8.94

 


ENTRE DUAS mesas de bar, dividindo suas curvas entre as arestas das quinas, passou uma mulher gostosa. Mas gostosa mesmo. dessas que todo o bar dá uma pausa na caipirinha e na feijoada e acompanha até o lado da rua. Era tão gostosa que ninguém esboçou nenhum comentário, todos boquiabertos. Mas o senhor na mesa ao lado, após acompanhar com o olhar, o coração e um frenesi que devia estar percorrendo sua espinha, disse o que todo o bar pensava: - Por essa mulher eu fazia um seguro!

No que eu perguntei:

— Seguro de quê?

E ele, sem pestanejar:

—Seguro contra roubo, incêndio, o escambau.

E eu fiquei olhando a mulher gostosa entrar num carro com a saia preta justa e os arfantes seios com sardas. E pensei: por esta mulher eu faria um seguro contra corno. Sim, um Seguro Contra Corno. Homens e mulheres deveriam fazer seguros dos seus parceiros e parceiras.

- Como é que ninguém nunca pensou nisso? Segurar a sua mulher e o seu homem contra corno, contra chifre? Porque a sensação desagradável de ver roubado o seu carro, a sua casa, as suas jóias, é a mesma de quando roubam a sua mulher ou o seu homem. Se roubam a sua casa ou o seu carro, logo perguntam: ''tinha seguro?'' E diante da sua resposta afirmativa, você passa, imediatamente, de idiota a herói. Levaram o seu carro, mas o seguro vai Ihe dar outro. Com a mulher deveria ser a mesma coisa.

Como fazer o seguro de uma mulher? Da mesma maneira que se faz um seguro do carro, por exemplo. Isso quer dizer que mulher mais nova, do ano, digamos assim, vale um seguro mais alto. Já se a sua mulher for velha, chata, cheia de banhas, ela não deve valer um bom seguro. Como o homem barrigudinho, chegado numa birita ou boêmio. Deve ter mulher que a seguradora não paga nada. Homens, então, nem se fala. Pelo contrário, tem mulher - e aí também depende da idade do homem que faz o seguro - cujo seguro deve ser caríssimo. Você vai ter que parcelar. Assim como a seguradora vai ter que parcelar o prejuízo, caso você leve uma corneada.

Provar que você foi corneado não deve ser difícil. O difícil deve ser saber quanto é que você vai receber por aquele determinado chifre. Como vão nos pagar, a nós, eternos e conformados corneados? Um carro, por exemplo, quando é roubado, eles dão o mesmo valor de mercado. Será que vão nos pagar o seguro do corno com uma mulher ou um homem igual? Ou vai haver aí uma defasagem de uns quinze a vinte por cento? Quem é que me garante que esta mulher que estão me dando como pagamento do seguro é igual ou melhor que a que me traiu?

E a franquia, como é que vamos resolver este problema? Claro que, ao assumirmos o compromisso casamenteiro com a mulher, a gente tem que levá-la ao seguro para ser avaliada, depois de devidamente vistoriada. E o rapaz do seguro vai fazer aqueles comentários horríveis, como ''tá com uma verruguinha aqui; estas estrias, são pra declarar ou não? Bunda caída não nos responsabilizamos. Essas estrias aqui, ela já tinha quando o senhor conheceu, ou aconteceu com o senhor?" E vamos ter aqueles seguros mais sofisticados, que vão levantar problemas como: "o senhor sabe que ela adora discutir a relação, não é? Pagamos menos por essas". E outras: "essa mulher é reincidente". Ou seja, já levou trombadas por aí, não esta com o eixo no lugar, está vazando óleo.

Claro que vão surgir uns espertinhos que vão sumir com a esposa e dizer que levaram corno. Muito provavelmente elas foram vendidas no Paraguai. E piores serão aqueles que provarão por a mais b que tinham trava de direção e alarme e nem a trava (ou seria melhor dizer cinto de castidade) nem o alarme funcionou? Neste caso, como agiria o seguro contra corno?

Vão surgir, evidentemente, aqueles mais chatos ainda, reclamando de um simples arranhãozinho na calota da mulher, ou da buzina do marido que não toca mais. Mas tenho certeza que, até lá, as seguradoras estarão mais seguras que nós, os cornos, para saberem quem deve não ser segurada ou segurado.

Afinal, dirá o slogan da seguradora: Esse negócio de chifre não existe! Isso é um negócio que puseram na sua cabeça!

É pagar pra ver!..

Haverá seguros de meses, de anos, de bodas de prata e até de bodas de ouro. Claro que surgirão mil maneiras das mulheres, sempre maravilhosas, ludibriarem as seguradoras. Os homens, então, nem se fala. E surgirão expressões como "segurado manso", "o segurado é sempre o último a saber", ou ainda "gasta todo o dinheiro dele com o seguro."

Mas, ao apresentar a mulher aos amigos, diremos contentes: "está no seguro, sejamos modernos! Pode dar uma voltinha. Olha, a marcha à ré é pra cima, hein? E cuidado, que não tem estepe. E não se esqueça, meu amigo, de colocar gasolina, senão ela vai te deixar na mão."