Quem
diria, hein?, parabéns, virou griffe!
Ouvi
isso há dois anos no cinquentenário do Karabeth, amigo de infância, no
interior. Foi uma amiga dos velhos tempos quem me disse a enigmática frase.
Confesso que não entendi e nem perguntas fiz. Deve ter pirado, a coitadinha.
Meses
depois, recebo um telefonema de um leitor me avisando ter achado, na rua, uma
pequena placa com meu nome. Não entendi. Minha cunhada me alerta:
-
Vi uma bolsa na Augusta com o seu nome.
-
Como é que é? Imagina...
Estou
a fazer uma palestra para os alunos do curso de jornalismo do Estadão e uma
garota, com uma bolsa a tiracolo, me pergunta:
-
Por que o senhor (senhor!) vendeu seu nome para uma bolsa?
A
pergunta foi meio agressiva, com um subtexto: um escritor virar bolsa?
Ela
tinha a bolsa. Levou até o palco. Ali, na frente de 60 interessados futuros
jornalistas, tive o meu primeiro contato com ela, a bolsa. Estava escrito lá,
numa placa: Mario Prata. Marca registrada. Deu uma certa emoção, devo dizer.
Marca registrada? Como é que pode? Meu Deus, pensei eu, depois dos 50, virei
bolsinha. Por sinal, uma bela bolsinha. Bom couro, bom acabamento. Era o mínimo
que eu podia esperar de uma Mario Prata.
-
Sim, uma. Além de virar bolsinha, virei feminino:
-
Por favor, o senhor tem a Mario Prata?
-
Quanto que está a Mario Prata?
-
Não tem Mario Prata maior?
-
Nossa, como é linda a Mario Prata!
-
Cabe tudo na Mario Prata.
-
Só tem Mario Prata preta?
-
Tá barata a Mario Prata?
Comecei
a ficar invocado. Descubro que eu sou fabricada em Birigui, interior de São
Paulo, ao lado da minha Lins. Peço ao meu advogado e amigo Sergio Antunes para
entrar em contato com o dono. Ele telefona. Atendem:
-
Bolsas Mario Prata, um momentinho, por favor.
Ele
tem um acesso de riso. Tem que desligar. Resolve escrever. Ficamos sabendo que o
dono é armênio e, segundo ele, o seu nome de origem, traduzido para o Brasil,
daria Mario Prata. Bem, eu não sabia que andavam traduzindo nomes estrangeiros
por aqui. Jack Lemmon, por exemplo, deveria ser chamado de Joãozinho Limão.
No
spa São Pedro, em Sorocaba, encontro com uma bem informada obesinha
biriguiense. Me disse:
-
Ih, menino, a fábrica da Mario Prata cresceu muito depois que começaram a
fazer as bolsas. Estão ricos.
É,
ficaram ricos e ampliaram a fábrica à custa de Mario Prata. E eu, o Mario
Prata, como é que fico? Fico cheio de carteiras, batons, espelhinhos, talão de
cheque, camisinhas, cigarro, isqueiro, conta do telefone, canetas vazando,
cepacol, absorventes mais do que íntimos e, quiçá, uma baganinha. Tudo dentro
de mim? Daqui a pouco vão me sequestrar pensando que, além de virar bolsinha,
virei milionário.
Saí
andando pelas lojas da cidade:
-
Mario Prata em liquidação!
-
Leve a Mario Prata em três vezes sem juros!
-
A Mario Prata, agora, com cartão!
-
Cheques para 30 dias!
Na
Le Postiche o meu nome em letras garrafais como nunca ganhei em nenhuma peça
teatral minha. Nem em outdoor de telenovelas.
Minha
mãe me liga:
-
Que história é essa, menino?
Meu
pai:
-
Não tem vergonha na cara, não? Nessa idade, meu filho...
Filha
me manda um e-mail de Londres:
-
Pá, fiquei sabendo aqui que...
Bolsinha.
Não me faltava mais nada.
Por
que eu? Não podia ser bolsas Paulo Francis, bolsas João Ubaldo Ribeiro? Luis
Fernando Verissimo? Bolsa Millôr soa muito melhor. Parece estrangeira. Mino
Carta? Loyola Brandão? Matthew Shirts, para parecer americana? Experimentem
Sergio Motta só para ver o trator triturando bolsas. Mas não. Mario Prata.
Estive pensando: se este armênio pode (e pôde) traduzir o nome dele para o
português e deu no que deu, eu posso também trasladar o meu para o armênio e,
é claro, vai dar o nome original do bolseiro.
Sim,
esta será minha maquiavélica vingança. Me aguarde, senhor: na minha próxima
novela de televisão vou criar um personagem chamado Mario Prata em armênio (o
seu nome) que será inesquecível. Todos os vilões que a novela brasileira já
criou parecerão virgens anjos perto desse. Vou eternizar o seu nome, meu
senhor.
E
você vai ficar quietinho, aí em Birigui, virando bolsinha. Pra ver o que é
bom pra tosse e dor de cabeça. Vamos aguardar o próximo capítulo, em suaves
prestações.
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