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EU NÃO SOU DAQUELES...

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ISTOÉ

1998

 


- Meus senhores e minhas senhoras, eu não sou daqueles que...

E empacou o discurso de fim de ano da empresa na primeira frase. Silêncio na platéia. O orador, presidente da firma, não sabia se ele não era “daqueles que diz”, ou se não era “daqueles que dizem”. E agora?

Pensou um pouco, já nervoso diante de todos os subordinados, e retomou:

- Meus senhores e minhas senhoras, eu não sou daqueles que...

De novo. Começa a suar frio. Olha para a esposa desesperada. Todos os funcionários esperando a palavra de alento do homem. Respirou fundo e voltou:

- Meus senhores e minhas senhora, enfim, eu não dou daqueles!!!

E terminou com apenas esta frase o seu discurso, ovacionado. O presidente, enfim, não era daqueles! Que alívio!

A história não é minha. Foi uma brilhante crônica de uma página na revista Manchete nos anos 60, onde os melhores cronistas do Brasil brilhavam. Fernando Sabino, Rubem Braga, Henrique Pongetti e Paulo Mendes Campos. Fora o mestre Millôr Fernandes no Cruzeiro e Sergio Porto na Última Hora do meu querido Samuel.

Sempre achei que era do Fernando Sabino. Décadas depois, já amigo dele, ele disse se lembrar da história mas que não tinha sido ele. Talvez o Braga. Já o poeta Sergio Antunes me garante que a história é verdadeira  e ocorreu com o jornalista e político Danton Jobim.

Mas quis começar este meu primeiro texto aqui fazendo esta homenagem aos grandes cronistas da minha adolescência que me ensinaram este pequeno (e imodesto) ofício de, em poucas palavras, tentar conseguir transformar a banalidade em arte.

Já escreveu o Aurélio: crônica: “texto jornalístico redigido de forma livre e pessoal, e que tem como temas fatos ou idéias da atualidade, de teor artístico, político, esportivo, etc., ou simplesmente relativos à vida cotidiana”

Foi com isso na cabeça que fui conversar com o Helio Campos Mello (o homem mais bonito do Brasil), diretor de redação deste hebdomadário. Quando ele me propôs esta página, tremi nas teclas. “esse espaço já foi do Millôr!” logo pensei, tenso.

- Mas o que é que você quer que eu escreva?

- Aquelas besteiras que você escreve toda quarta no Estadão.

Entendi. Pelo menos, acho.

Encontrei-me apenas uma vez na vida com o Rubem Braga. Fomos eu, ele e o Samuel Wainer jantar no Pirandello, ponto da época. Tinha uma porção de espelhos na parede. Uma mulher horrorosa - ponha horrorosa nisso -chegou na frente de um deles e ficou retocando a maquiagem. O Rubem, atento, olhando. Poetou:

- Os espelhos deveriam refletir melhor antes de refletirem certas imagens.

Adorei e pedi para ele escrever no papel. Escreveu, guardo até hoje.

Depois o papo rolou para crônica e eu, meio fanzoca, meio jornalista:

- Qual é a diferença entre uma crônica e um artigo?

Tranqüilo:

- Na crônica você conta uma história. No artigo, você explica essa história.

Mais tarde, ao levarmos o velho Braga ao Othon, ele me pega no braço e diz, baixinho:

- Aquele história do espelho, acho que não é minha, não. Deve ser do Paul Valery, que eu traduzi. Mas pode dizer que é sua.

Meses depois morreriam ele e Samuel Wainer e me deixariam a refletir sobre suas falas, espelhos de toda uma grande geração de jornalistas.

Portanto, não esperem aqui neste espaço, nem grandes elucubraçoes politicas ou sociológicas. Jamais escreverei que o sucesso subiu à cabeça do Fernando Henrique, nem que o fracasso subiu à do Lula. Muito menos que o Serjão é o bobo da corte. E do corte.

Tem gente mais abalizadas para essas análises.

Lendo hoje os cronistas do final do século passado Machado de Assis e Eça de Queirós, aprendemos muito mais sobre a sociedade de então do que nos ensinam os livros didáticos (didáticos?).

PS. -  Em tempo e não menos importante. Até hoje eu não sei se “eu sou daqueles que escreve crônicas”  ou “daqueles que escrevem crônicas”.

Mas, estamos aí. Istoé, aqui.