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Eu fico jururu, Rita

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o estado de s. paulo

09/01/2002

 


A culpa primeira foi dos pais dela. Tenho a impressão que o dia em que ela percebeu o seu nome, deve ter pensado: não vou ser uma pessoa normal. Rita Lee Jones!!!

Ninguém se chama Rita Lee Jones impunemente. Talvez, se Rita Gouveia fosse, ou ainda Rita de Souza, não teria se tornado a ovelha negra da família. Da nossa tradicional família brasileira.

Conheci a moça quando ela tinha uns 20 e poucos anos e, como todos nós, amava os Beatles e os Rolling Stones. E o Roberto, é claro. Além de uma imensa sucuri dentro de uma caixa de vidro que ficava na sala dela, sob o olhar assustado de um marido inglês. Já não era mais Mutante, era mutante já.

Trabalhei para ela. Era um misto de assessor de imprensa, galanteador e fã. Me lembro bem, daquele começo dos 70. Amigos do ramo da esquerda me olhavam enviesado. Ela ainda não fazia muito sucesso. Eu dizia para a empresária dela que ninguém conseguia ouvir as suas letras com a barulheira que o Tutti Frutti fazia. Mas apostava, defendia. Um dia vão ouvir e entender o que ela diz.

Quando morreu a Elis Regina, nossa maior voz, ficou a dor, o buraco e a pergunta: quem será agora a melhor cantora do País? Vinte anos se passaram desde a imaturíssima morte da Pimentinha. E nada. A mídia sempre a querer inventar a nova namoradinha da música nativa. Nada. Vinte anos!

Estou escrevendo isto tudo, Rita, porque está tocando aqui na minha rádio-vitrola o seu disco. Aqui na vitrola, ali, em qualquer lugar.

Te vi no réveillon. Na tevê. Naqueles réveillons brancos e globais. E, diante de tanto pagodeiro vestido de branco, baiana gritando, desconhecidos de 15 minutos de glória, velhas vozes casadas, duplas vagindo, surge você. Magnífica como os rojões da noite, calma como a gaivota que agora circunda a minha janela ouvindo você cantar I Want to Hold Your Hand.

Surgiu, apareceu, de roxo e vermelho, madrugando 2002. Cantando como nunca, minha cara prima (sim, minha ouvinte, nossos filhos têm um parentesco que começa lá no reinado do Pedro II), para usar uma expressão bem 70, você arrasou.

Fiquei te olhando, te ouvindo e pensando: ela conseguiu! Ela é a melhor cantora do Brasil, hoje. E nunca nos decepcionou como fez o Roberto Carlos quando descobriu Jesus. Largou os meninos de Liverpool e começou a cantar para a minha mãe.

Você, Rita, foi fiel à nossa geração. Foi crescendo, trabalhando, se aperfeiçoando. Cantando a nossa cabeça, escrevendo nossos bodes e colocando uns filhos lindo na praça da alegria.

Não sou crítico de música, nem de nada. Mas I love you pra chuchu! Só você, Rita, para colocar um jururu numa letra do Paul e do John.

E se você, leitora mais jovem, ainda não ouviu a Rita Lee Jones traduzindo e cantando os Beatles, você não teve nem Natal, nem réveillon. Você continua no ano passado, aqui, ali, em qualquer lugar.

Obrigado, meu amor, nossa ovelha negra, pelo réveillon que não deixou passar em branco. Rita in the sky with diamonds, é puro RSD! E não se fala mais nisso!