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Eu, embaixador?

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o estado de s. paulo

12/06/2002

 


Sou hóspede, com honra e orgulho, do casal José Gregori e Maria Helena, em Lisboa. O senhor embaixador - como diria Erico Verissimo - e a senhora embaixatriz do Brasil em Portugal. E ambos foram para Beja, ao sul, justamente representar o Brasil em um evento político e cultural. Os filhos e a neta Ana Catarina também foram. Eu fiquei sozinho aqui. Na embaixada!

Neste momento eu sou a única pessoa aqui dentro. O único brasileiro, já que os simpáticos serviçais são todos lusitanos. Para você ter uma idéia, minha amiga, estou escrevendo no computador do embaixador. Ou seja, nesse momento, dia 8 de junho de 2002, um sábado, 15 para as 6, primavera lá fora, sou o embaixador do Brasil em Portugal. Tenho o computador nas mãos, tenho jardins, quadros, papéis, fax, telefones, celulares, arquivos, tudo ao meu alcance. Quartos, banheiros, uma cachorra imensa e uma adega de vinhos portugueses. É tudo meu! Eu tenho o poder máximo!

Daqui, a menos de 10 metros da cama do senhor embaixador, posso mudar o mundo. Mas antes de mandar e-mails para o presidente da República (o daqui e o daí) dizendo o que ainda nem pensei, antes de interferir na Copa do Mundo com telefones vermelhos para a Coréia e o Japão, antes mesmo de convocar a Gisele Bundchen para o jantar, até mesmo antes de deitar e rolar na grama lendo Ésquilo e Maquiavel, dando nozes aos esquilos, vou vasculhar tudo. Depois eu volto e pensarei no texto que mandarei para o Lula, para o Serra e até mesmo para o Garotinho de Deus. Me aguardem! Isso aqui deve ter porões e sótãos inacreditáveis. A embaixada foi adquirida durante o governo Geisel, logo após a morte do Salazar. E é tudo meu! Tenho o poder.

Preciso me controlar para não telefonar para o Bush (o pai e o filho). Preciso me conter para não asilar o Bin Laden. Afinal, por dois dias sou e serei o embaixador do Brasil. Meu pai iria se orgulhar muito de mim, se vivo fosse. Viu?, pai, e nem terminei o curso de economia na USP.

Desci para começar as minhas investigações pelo porão. Ao abrir a porta um absurdo alarme disparou. Mas era no andar de cima o barulho. Corri, fui seguindo o estrondo, tremia, haviam descoberto meus planos. O alarme vinha direto do computador e um recado estava na tela. "Palácio do Planalto, urgente e confidencial: ficou louco, Zé? Responda urgente. FHC (abraços na Maria Helena)." O telefone vermelho tocou, era o Bush (o filho). Tive de explicar para ele que eu não sabia nada de Bin Laden e ele a me dizer que o Pentágono estava mandando aviões para Lisboa. O Felipão queria saber se eu concordava em manter o Ricardinho no meio de campo. Desliguei o computador e fiquei olhando para uma banana (gesto com os braços) do Bordalo bem na minha frente. O mundo estava me dando uma banana.

O Exército português cercou a embaixada, Salazar ressuscitou, Nossa Senhora de Fátima pousou ali na oliveira, o técnico de Portugal convocou o Eusébio de novo.

O Serra queria saber como ele estava nas pesquisas em Lisboa. O MST a querer saber quanto de jardim não produtivo havia por aqui. O Maluf, até o Maluf surgiu na tela do computador querendo saber de um terno dele que sumiu.

Dentistas brasileiros residentes em Portugal faziam passeata em frente à embaixada em defesa da classe, da prótese e da obturação brasileira. Helicópteros da RTP e da SIC (duas das tevês daqui) rodeavam minha orelha. Convites eram enfiados debaixo da porta para estréias e inaugurações, civis, militares e eclesiásticas. O Libération de Paris queria uma exclusiva comigo.

Foi quando eu desliguei toda a energia minha e da embaixada, me tranquei no quarto e pensei duas coisas. Primeiro: eu sou uma besta mesmo. Segunda: não deve ser mole ser embaixador.