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Eu e o Governador

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o estado de s. paulo

10/07/2002

 


O título acima não é meu. Muito menos o governador. No caso, era o Ademar de Barros, uma das figuras mais folclóricas da política e do anedotário brasileiro no fim dos 50 e começo dos 60. Tinha a coragem de dizer que roubava. Não superfaturava, não. Roubava mesmo. E fazia. E, por falar em superfaturar, esse Reinaldo de Barros - liga do Maluf - é sobrinho dele. Mas deixa pra lá e voltemos ao tio. E ao título.

Eu e o Governador foi um livro escrito por uma então jovem chamada Adelaide Carraro. Na época, escreveu outras coisas. Escrevia bem, a danadinha. E, no livro em questão, contava quase que em detalhes suas andanças pelos corredores do Palácio dos Campos Elísios, na capital paulista. E o governador, até onde eu saiba, nunca contestou tal intimidade, um escândalo na época.

Meu pai, terceiro escalão do governo naquela época, dizia que era tudo mentira, defendia o chefe. Até que um dia, anos depois, me confessou que também havia conhecido a exuberante Adelaide. Conhecido, ele disse. Existia um certo glamour na roubalheira de então. Havia uma certa honestidade nas puladas de cerca (ou de muros de palácios). Digamos que a sacanagem era honesta e a corrupção, como dizia Brecht, obedecia a certas regras. Saudades dos textos e contextos da Adelaide Carraro. E do slogan do Ademar: "Fé em Deus e pé na tábua!"

Eu e o Governador poderia ser o título de um texto meu contando uma viagem (no jatinho do governo) e um porre a 10 mil metros de altura com o então governador Fleury, Fernando Morais e Regina Duarte. E as esposas. Mas nada se aproximaria dos encantos e recônditos da Adelaide. Citando isso apenas pra dizer que foi em tal vôo que estive mais próximo de um governador. Que porre!

E agora, posto estava eu no sossego da minha ilha, quando o meu amigo, colega, compadre e cúmplice Fernando Morais me liga e me pede para fazer um terno. Um terno para eu usar na sua posse como Governador do Estado de São Paulo, no dia 1.º de janeiro de 2003. O Fernando, amigo, colega, compadre e cúmplice, é candidato a governador. Pode? Pode. E, claro, me disse que já está eleito. E não sou eu quem vai discutir isso com ele. Turquia e a Coréia, vermelhas zebras, chegaram lá pertinho. Os favoritos França, Argentina, Itália, Inglaterra, etecétera, vocês sabem.

Mas o importante, Fernando querido, não é nem disputar a final. O importante é o treino, o bate-bola. Ou seja, aqueles minutos que você vai ter todo dia diante de mais de 20 milhões de paulistas. Esta é a principal conquista. E você é um mineiro respeitado e invejado. Um dos melhores jornalistas e repórter deste Brasil, escritor de primeira e amigo de todas as horas. E não vai ficar lá dizendo aquelas obviedades que o Maluf, o Geraldinho e demais vão cometer dia a dia dentro do velho estilo cara-de-pau, como se todos nós fôssemos débeis mentais. Aliás, sempre que eu vejo o Maluf falando no horário eleitoral eu fico pensando: será que ele (ele, Maluf) acredita no que está dizendo? Ou será que só a senhora dele? Por que alguém tem de acreditar, né?

Não quero te ver na televisão Fernando, falando de metas como violência, agricultura, educação e essas outras bobagens que TODOS dizem. As chamadas metas. Mentiras, Fernando, promessas vãs, eleitoreiras, marquetizadas, falsas. São todos iguais, meu amigo.

Ao sair do Estado de São Paulo e deitar em Santa Catarina, descobri o que todos os políticos deveriam prometer no horário político. Não estamos mais na hora de construir mais nada, nem escola, nem presídios, nem estradas. Nem de plantar nada. Nem de educar. Porque tudo isso, Fernando, como diria o meu pai, "não faz mais do que a sua obrigação". Na ilha descobri um troço chamado paz. E, se existe paz numa ilha brasileira, por que não no País inteiro?

O que eu quero que você faça, companheiro, é que prometa paz no Estado. Mas não a paz dos evangélicos, nem a bênção de Jesus. Uma paz maior, uma coisa mais ampla. O povo pode até passar fome. Mas que passe fome em paz. Pode até continuar ignorante, mas que seja em paz. Pode até mesmo ficar desempregado, mas deixe o desempregado em paz.

Não sei se você, Fernando - e a leitora -, está a me entender. Mate a fome, dê o escola, dê emprego, mas antes, dê a paz. A paz nas filas, a paz dentro do ônibus, a paz nos estádios, a paz entre os vizinhos, a paz dentro de casa.

Paz, Fernando. Pregue a paz, não pregue a política, não pregue metas, não pregue mentira. E se tudo estiver na santa paz de Deus até o dia 1.º de janeiro, eu mando fazer o terno. Mais, não prometo.

E, na "remotíssima hipótese" de você não se eleger, venha para a ilha. Aqui sou amigo do rei e você terá a cama que escolher (desde que seja com a Marina) e ouvirá CD-ROM em autos e altos brados. Em paz.