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Estresse, para mim, é piada

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o estado de s. paulo

18/10/2000

 


18/10/2000Há dias que o estresse vinha batendo. A ponto de ser necessário procurar o velho Aurélio. Sim, porque a palavra é nova. Há uns anos atrás, não sei se era a palavra ou o estresse que não existiam. Acho que primeiro inventaram a palavra. Aí estressou todo mundo. Com o colesterol foi a mesma coisa. Criou-se o mito, depois que se proibiu a gordurinha. Aliás, há alguns anos atrás ninguém relacionava o estômago com a cabeça. Aí pintou a palavra psicossomático e todo mundo passou a ter explicações para o que antes era a simples, corriqueira e velha diarréia.

Descobriram que a dor de barriga era mais em cima.

"Conjunto de reações do organismo a agressões de ordem física, psíquica, infecciosa, e outras, capazes de perturbar-lhe a homeostase; estricção."

Isso é o que está no Aurélio, sempre em dia com os bodes novos. Resumindo o que ele quis dizer: pertubaram a minha homeostase. Uma questão de estricção, sacou? E eu não iria aumentar o meu estresse indo atrás da homeostase. E jamais iria me estriccionar. Imagina, nessa idade.

Preferi procurar um psicanalista e contar a parte da minha vida mais recente, desde que eu comecei a conviver com anjos e demônios. Os Anjos do Badaró.

Ele achou perfeitamente normal o meu estresse, mas não podia me recomendar repouso absoluto. Mesmo porque, anjo que é anjo da guarda não sai da cabeça da gente. Principalmente quando esses anjos são invenções da gente mesmo.

Mas podia me ajudar, me tranqüilizou no final da tarde de hoje. Eu precisava não voltar correndo para casa, eu precisava me afastar do trabalho. Esquecer o livro, as crônicas, os palpites alheios, os chats. Eu precisava relaxar, me orientava o jovem psicanalista que, na verdade é meu vizinho, além de titular de psiquiatria da Federal.

- Por exemplo, me disse ele. Aqui embaixo, no prédio mesmo, no sub-solo, tem um barzinho manero. Um piano-bar. Tem lá agora um happy hour bonzinho. Pouca gente, sossegado. Você desce, fica ouvindo um pianinho, depois vai pra casa, cuidar da vida. Um pianinho bem piano piano.

- E você acha que se eu ouvir uma hora de pianinho piano piano eu vou ficar numa boa, esquecer tudo, desestressar?

- Não não é só ir lá e ouvir. Precisa ter um certo método. Precisa procurar o relaxamento, o distanciamento do mundo lá de fora. Lá dentro não se ouve nem as buzinas da rua. Só o piano. Quando eu fico muito estressado com os estresses dos outros, vou lá. Saio de lá, outro.

- Método? Método para relaxar, cara?

- Você entra e vai até o balcão. O bar tem um belo balcão. Pede um martini seco.

- Martini seco. E daí?

- E daí que não vá virar a taça de uma vez. Ameaça fazer isso, mas não faça.

Controle a sua ansiedade. Apenas passe o lábio pelas bordas. Pegue o palitinho da azeitona, fica girand ele pra lá e pra lá. Se começar a ficar ansioso, leve a azeitona até a boca. Mas ainda não dê nenhuma mordidinha.

Domine a situação. Vai com calma. Lambe gostoso. De um lado, depois do outro lado. No galhinho.

Desci, entrei. Realmente um pianinho pianíssimo lá no canto. O bar vazio.

Sete da noite. Fui ao balcão, pedi o Martini Seco. O garçom trouxe. Confesso que quase virei num gole só. Mas, não, eu não podia ter pressa. Já ia levando a mão, recuei. Deixei a tacinha lá, ela que tinha que ficar estressada. Ela que me suplicasse.

Foi quando eu vi o macaquinho. Um macaquinho, pequeno, de verdade, lá na ponta do balcão. Me olhando. Fiquei firme. Não iria me estressar por causa de um macaquinho na ponta do balcão.

Mas o danado do macaquinho veio andando lentamente para o meu lado, quase ao ritmo do bolero do pianista. Velhinho o pianista, como o som que tentava me relaxar.

O macaquinho veio andando, parou em cima da minha taça de martini, uma perna de cada lado, agachou-se, colocou o saco lá dentro, levantou-se e foi embora.

Eu não podia me estressar. Eu estava ali para relaxar. Mas aquilo começou a me subir à cabeça. Não tinha ninguém por perto para comentar a situação. Só o velhinho tocando o píano. Eu precisava falar com alguém.

Segurando uma explosão interna, fui até o velhinho, tentado manter a compostura. Calmamente coloquei a mão no seu ombro e disse:

- Um macaquinho colocou o saco dentro do meu martini!

O velhinho parou a melodia, olhou nos meus olhos, aproximou a orelha e disse:

- Assovia o comecinho pra ver se eu lembro a melodia...

ps. Marina, você já conhecia?