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ESTOU PERDIDO EM LOS ANGELES

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o estado de s. paulo

14.7.94

 


LOS ANGELES— Na quarta-feira passada, pela prImeira vez em um ano e meio, deixei de ocupar este espaço que foi brilhantemente preenchido pelo meu amigo Antonio Bivar, aquele mesmo que ajudou o Peninha a traduzir o sensacional On the road, do Jack Kerouac, hoje nome de rua em San Francisco.

Mas vamos às explicações que, espero, convençam o leitor e a leitora e eu não perca definitivamente o meu espaço. Conforme é do conhecimento de vocês, estive durante um mês em San Francisco, uma cidade pequena, com 750 mil habitantes, ao norte da Califórnia. O jornal pediu que eu me locomovesse até Los Angeles (de onde escrevo apressadamente agora) para cobrir a semifinal e a final da Copa do Mundo. Olhei no mapa: pode olhar no mapa, é ali mesmo. Vou de carro, pensei. São apenas 450. Já na estrada, me lembrei que não eram quilômetros e sim milhas. Vezes 1,6 dão 720 quilômetros. E eu escolhi a estrada mais bonita. Foi o segundo erro. Praias, montanhas e precipícios ininterruptos durante doze horas e meia de viagem. Dava para ter ido ao Rio de carro, voltado e ido outra vez.

Chegando, só para atravessar Los Angeles e chegar onde está o meu hotel, foram 60 milhas (multiplique por 1,6). Mas chegamos. No dia seguinte, o dia que eu deveria mandar a crônica, precisei ir até o hotel onde estão os diretores da Stella Barros para marcar a minha passagem de volta. Saí ao meio-dia e meia e voltei às sete da noite. Juro que não tomei nenhuma cervejinha pelo caminho. Fui, entreguei as passagens, voltei. Dava para retornar do Rio e ir até Santos, no embalo.

Finalmente no hotel, notei que estava sem cigarros. Aí foi bem mais fácil. Tinha um lugar que vendia bem pertinho: dez quadras. E tem que ir a pé, me disseram. Porque, para ir de carro, tem que pegar a West Avenue à esquerda, cair na estrada 35 South, entrar na estrada 101 North, fazer o balão depois da 10 East e voltar. E se você errar qualquer saída dessas, pode muito bem chegar a Boston, Dallas ou Detroit. Segundo informações do Hotel, de carro levaria 40 minutos, se tudo desse certo. Para comprar cigarros, leitor. E note que eu não estou falando em ruas e sim em estradas (sem acostamento).

Quando me instalei, percebo que esqueci o cabo da impressora em San Francisco. Desço de novo no saguão. É fácil, o senhor poga a 605 South, entra à direita na 110 North, pega o caminho de Pasadena; ao chegar na 2 North, entra à esquerda na 49 East. É lá. De carro, o senhor leva umas três horas e meia para ir e voltar. A pé, tem gente que não voltou até hoje. Mudou-se para lá.

Pode parecer brincadeira ou mentira, mas Los Angeles é assim. São umas quarenta estradas que se cruzam, cometendo cebolões, ou melhor, verdadeiros repolhões de mais de 50 metros de altura, com casas por todo o lado. Tem dez milhões de habitantes e onze milhões de carros, o que dá uma média de 1,1 carro por habitante. De ponta a ponta, é como se a cidade fosse de São Paulo a São José dos Campos e de Santos a Sorocaba. Ou Itu. A cidade tem poucos prédios, comparada com São Paulo, por exemplo. Tem é estradas. E casas (medo de terremoto?). Ruas são poucas, apenas para levar das freeways até a sua casa. E o pior, tudo congestionado. Das cinco da tarde às oito pára tudo, e quem tem sanduíche no carro não reclama. Acho que por isso é que as telenovelas são de tarde. Antes do congestionamento. E os noticiários às onze da noite, para os que conseguem chegar em casa.

Quando já estava chegando no hotel (o que é um feito raro por aqui), um engarrafamento monstruoso - o termo é este mesmo. Era a saída da Disneylândia, que fica perto do meu hotel. Aliás, é a única coisa que fica perto do meu hotel. Dá para ir a pé, vejo aqui da minha janela. Eu sei que estou aqui para falar da Copa e não do Mickey, mas acho que amanhã eu vou mesmo é para a Disney.

P.S.: avisem o nosso diretor de redação que eu não vou mais devolver o carro alugado. Tem que entregar lá no aeroporto, que fica depois de Itu, perto de Bauru, e o táxi para voltar são 150 dólares. E eu preciso comprar cigarros de vez em quando. E um remédio para dor de cabeça. Fora o Lexotan. Mas tudo isso é perto: é em Itaquaquecetuba, ali mesmo, pela marginal, antes do Colorado. Mas, antes, faço um seguro.