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Estive com Nostradamus

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o estado de s. paulo

1999

 


Procurei novamente aquele meu psiquiatra doutor e professor Leonardo Ramos. Aquele com quem fiz as regressões às vidas passadas para escrever um livro.

Estive com Michel de Nostradamus em 1556, quando ele tinha exatamente a minha idade, na cidadezinha francesa de Salon, onde reapareceu depois de andar sumido por uns tempos, casado com outra mulher e, além de fazer as previsões, exercia a medicina, afinal era filho e neto de médicos.

Michel me recebeu muito bem. Simpático e até bonachão.

Logo de cara foi me dizendo que já conhecia as leis de Newton e de Kepler e ambos não haviam nem nascido. E me disse mais, que em 1781 iriam descobrir Urano e em 1846, Netuno. E mais, deu os nomes e me perguntou, sabendo que eu era do futuro, se tais previsões haviam dado certo. Peguei o Almanaque Abril e confirmei. Ficou felicíssimo com isso. E eu preocupado, pois o homem era mesmo bom.

- Não vai ter um eclipse?

- Vai.

- Pois é esse eclipse é que vai detonar tudo.

- O senhor está então afirmando que o mundo vai mesmo acabar?

- Sim, mas não vai ser geral. Nem todos os países sumirão e nem todos morrerão. E algumas regiões serão beneficiadas com a hecatombe. O problema é que, com o eclipse, parte da lua se deslocará na direção da terra, colidindo com ela.

- Onde?

- Pra lá de Bagdá. Mas, ao bater na Terra, essa parte lunar lançará estilhaços por todo o planeta. E esses estilhados de partes internas da lua são de duas qualidade. Uma é ferro puro, pesado. Essa parte fará muito estrago. Uma parte dela, por exemplo, cairá sobre a Câmara Municipal da cidade de São Paulo. Só cinco ou seis sobreviverão. Alguns outros estilhados – estou me referindo ao Brasil – sobre os bancos estrangeiros.

- Muitas pessoas morrerão no Brasil?

- Políticos corruptos. O corrupto atrai esse tipo de mineral. Brasília será muito afetada. Praticamente metade da população receberá a carga negativa.

- O senhor valou em duas partes internas do interior da lua. A outra parte qual seria?

- E o maná! Mas não aquela firma, o maná mesmo que, se não me engano, já andou rolando pelo planeta há pouco tempo atrás. O lugar mais afetado pelo maná – depois basta adubar – será o nordeste do seu país. Aquilo vai virar um paraíso.

- Quer dizer então que o fim do mundo, pelo menos no Brasil, vai ser numa boa?

- Com certeza. Estilhaços de ferros lunares entrarão nos computadores de um tal de FMI que eu não sei exatamente o que é e apagará a memória das dívidas de todos os países, antes mesmo de um tal de bug do milênio, que eu ainda não sei exatamente do que se trata, mas sinto umas vibrações sobre bug. Não temos esta palavra aqui na França e eu não sou advinho. Tem alguma coisa a ver com jipes (jipes?, o que é isso) em dunas?

- Mais ou menos.

- Ainda sobre o Brasil, prevejo mais coisas.

- Por favor.

- As pessoas vão parar de dizer menas, questã e a nivel de. Os bingos não vai mais poder usar computadores, atletas negros deixarão o cabelo crescer novamente com os estilhaços de maná. São Paulo terá uma prefeita que vai alisar de novos as ruas.

- E o Corinthians? Vai ser campeão nacional?

- O Corintios, não. O campeão será o Levítivo. E o vice o Gênesis, que vem crescendo muito de produção.

- Uma última pergunta, Michel.

- Por favor, me chame de Nostradamus. Mas antes, me responda você uma pergunta: ainda sou famoso?

- Muito. Mas se o mundo acabar mesmo, o senhor também, a sua fama, vai pras cucuias. Não vai ficar ninguém para falar do senhor.

- Então talvez seja melhor deixar a coisa mais pra frente, né?

- A idéia não é má. Vamos ficar, por hoje, só nos estilhaços e nos manás.

- E vamos parar com esse papo porque eu odeio que me contradigam. Já me basta eu ter entrado no Index da igreja católica em 1781. Só para que eu possa dormir, o Newton e o Kepler nasceram, pois não?

- Agradeço a entrevista.

- E a mãe Dinah? Firme?