Daquelas danadas, sabe como é? Das que derrubam. Te deixam na cama. Pois é
onde deveria estar agora se tivesse uma outra profissão qualquer. Ligava
para o serviço e, se precisasse, até arrumava um atestado médico.
Dependendo da situação, faturava dois ou três dias.Mas estou
aqui, com o nariz escorrendo, depois de algumas pílulas e uns chás que uma
boa samaritana me fez.
Estou dizendo isto porque sei que tem muita gente com gripe nestes dias
frios. E esta gripe já deve ter nome. Sim, gripe que se preza logo tem um
nome, já notou? Se não, é resfriado mesmo.
Me lembro quando
era garoto, 13 anos, interno num colégio de padres, quando apareceu a
Gripe Asiática. Acho que foi a mais famosa do século passado. Era tão
danada que antes de chegar já era famosa. Claro, como o nome diz, começou
lá na Ásia. E veio vindo. Os jornais anunciavam que ela já estava na
Europa.
Aqui, no terceiro mundo, a gente se preparava para
enfrentar a gripe que vinha de longe, a gripe famosa no mundo todo. E
quando ela chegou, derrubou todo mundo. Foi um orgulho para todos nós.
Estou revendo agora o dormitório do internato cheio de garotos deitados.
Febre alta, aulas suspensas, um horror. Ninguém morreu, mas todo mundo
deitou.
Me recordo de uma outra gripe famosa, a Calabar.
Chamava assim porque era traiçoeira. Começo dos anos 70, auge da ditadura
militar. Eu trabalhava na Última Hora quando ela chegou em São Paulo,
vindo do norte. Os militares mandaram um telex para todas as redações do
país proibindo terminantemente que se escrevesse no jornal o nome da gripe
que derrubava todos nós, inclusive – acho – os milicos. Não podia escrever
Calabar nos jornais, nem dizer nas rádios, nem nada.
Explico: Chico Buarque e Ruy Guerra haviam escrito uma peça chamada
Calabar e a Censura Federal a proibiu. Não podia nem ser lida. Aí os
militares começaram a achar que falar na gripe Calabar era provocação para
todo mundo lembrar do Chico e do Ruy. Talvez você não acredite nesta
história, mas quem trabalhava nas redações naquela época pode confirmar.
Já teve várias gripes com nomes de mulheres famosas, que vinham
acompanhadas da devida explicação: é porque leva direto pra cama. Uma
maldade. Peguei a Xuxa, entre outras.
Dei uma geral agora na
internet para ver se esta minha gripe já tem nome, pois, já disse, gripe
sem nome, pra mim, é resfriado. E, apesar de todo mundo estar com ela,
ainda não tem, não.
Pouco sei sobre gripes, apesar de ser filho de médico. Sei
que a palavra tem origem francesa. Donde se conclui que foi lá que surgiu
o vírus? Tem cara de francesa mesmo esta doença. Passou por Portugal e
chegou nos nossos índios matando boa parte deles. Entradas e Bandeiras, se
chamava a gripe naquela época.
Hoje em dia até o Bin Laden já
virou nome de gripe: quando você pensa que acabou, ela volta mais
surpreendente ainda.
Eu acho que esta gripe deveria se chamar Gripe Crônica. Chatinha...
Mas tudo bem, na quarta que vem eu vou estar bom de novo. Espero.