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ESCATOLÓGICA CRÔNICA BIZARRA

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O ESTADO DE S. PAULO

04/02/2004

 


O que mais me encanta nesta última flor do Lácio, inculta e bela, a nossa língua portuguesa, é a capacidade do brasileiro de inventar palavras novas e expressões novas mais ainda. Ou, o que é mais incrível ainda, dar novos significados para centenárias palavras.

Me lembro bem quando surgiu a expressãocair a ficha”. É recente, minha filha. Ela surgiu depois do orelhão, é claro. Porque antes não havia ficha nenhuma para cair e a pessoa se ligar.  E confesso que, a primeira vez que ouvi alguém me dizer que havia caído a ficha, demorou um pouco para cair a minha. Mas achei uma das melhores invenções do finado século. Mil e uma utilidades.

E agora, a palavra da moda é bizarro. Ou bizarra. Tudo que acontece é bizarro. O time do Corinthians está bizarro, a festa foi bizarra e outras coisas são verdadeiras bizarrices.

Mas pelo o que eu ouço dizerem por , bizarro está quase sempre sendo usado no sentido de estranho, esquisito. Acho isso tudo, no mínimo, bizarro.

Segundo pesquisa rapidinha ao velhinho Houaiss, fiquei sabendo que a palavra bizarro é usada na nossa língua desde 1595. Mas os quatro séculos de bizarria não foram o bastante para que ela sobrevivesse ao modismo deste começo de terceiro milênio.

Veja você, bizarro leitor, o que nos ensina o dicionarista.                              

Bizarro: que se destaca pela boa aparência ou expressão pessoal; bem-apessoado; que tem bom porte ou boa postura corporal; garboso; elegante nos gestos e nos trajes; que se faz notar pelo refinamento das maneiras ou pela pureza do caráter; primoroso no comportamento; gentil; dotado de magnanimidade; nobre, generoso, liberal; que demonstra seu valor pessoal em grandes feitos; dotado de valentia; brioso”.

Claro que, no finalzinho, o Houaiss dá uma colher de chá para os novos modernistas: “que é esquisito, estranho, excêntrico”.

Portanto, saibam todos que, se você for chamado de bizarro ou bizarra, tem logo que ir perguntando em que sentido. Não fique logo enfezado. Pode ser um elogio ou alguma coisa mais esquisita.

E, por falar em enfezado, você sabe muito bem que uma pessoa enfezada está irritada simplesmente porque está cheia de fezes. A origem é esta, me desculpe a escatologia. escatologia, não é bem aquilo, não. Na verdade, segundo o mesmo dicionário, é “a doutrina das coisas que devem acontecer no fim dos tempos, no fim do mundo; doutrina que trata do destino final do homem e do mundo; pode apresentar-se em discurso profético ou em contexto apocalíptico”.

Portanto, enfezado não é escatológico, não.

Mas, no fim do mundo, todos deveremos estar bem enfezados. Afinal, quer coisa mais bizarra do que o final do mundo? Quem viver, verá. Mas não se enfeze antes não porque vai demorar muito ainda. Muita coisa bizarra ainda vai acontecer com a nossa língua e com a nossa vida.

ps - e quer me irritar é pronunciar iôga.