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ENTREVISTA COM O PAPA

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o estado de s. paulo

1998

 


Depois que eu soube que dois garotos, procurando a mula Juliana, chegaram até a casa de D. Eugênio Sales, onde o papa estava hospedado, comecei a imaginar que a segurança não devia estar lá essas coisas.

Liguei para o 102 do Rio, pedi o telefone do dono do papa e eles me deram na maior.

- É da casa do dom Eugênio?

- Sim senhor.

- Quem fala?

- É a Creuza.

- Creuza, o Papa já acordou?

- Já sim, senhor.

- Pode me chamar, por favor?

- Segundinho. Quem deseja? Vou ver se ele pode falar. Donde é?

- Daqui da terra mesmo, minha filha.

- Pastoral da Terra?

- Isso.

Eu sei que você não vai acreditar e os colegas jornalistas vão ficar morrendo de inveja. E não é que o homem veio ao telefone? De longe eu já ouvia a batidinha do cajado nele no chão.

- Deus te abencõe, filho meu.

Tremi.

- Benção, papa. Como vai o senhor?

- As juntas, filho meu. Fora a gota, o lumbago...

- Queria falar com o senhor sobre cultura.

- Ah, gostei muito da música que o Chico Buarque de Netherland compôs especialmente pra mim. Karol-line. Percebi que tem uma crítica velada, quando ele diz "o tempo passou na janela, e só Karol-line não viu". Sei que ele quis falar na janela do Vaticano, que eu não estaria vendo o mundo passar. Em consideração ao pai dele eu perdôo.

- E teatro, santidade, o senhor, que vai foi ator, até escreveu uma peça...

- Soube que tem uma peça de um autor carioca - e eu sou carioca! - que tem um título muito edificante. Vou ler no avião, na volta.

- O senhor se lembra do título?

- O título, filho meu, vem de encontro a tudo que tenho dito: "Toda Nudez Será Castigada", conhece?

- O senhor está gostando do tratamento que estão lhe dando no Brasil.

- Tudo muito bom, filho. Apenas dom Eugênio que não tampa a pasta de dentes. Mas dom Agnello Rosso também era assim.

- E a família brasileira?

- Filho meu, se os três filhos do presidente Cardoso vivem como amantes, sem os sagrados sacramentos, imagino o resto da nação...

- Futebol, viu alguma coisa?

- Sou Flamen, te uma nega chamá Terê.

- É melhor o senhor cantar só a primeira parte. O senhor soube que o Zé Celso está representando o senhor no teatro?

- Não vi a peça, mas já mandei ordens para o bispo de Araraquara. Vamos tomar providências.

- E os sem-terra, Papa? Encontrou com algum deles?

- Não, sei que sairam na Playboy. Mas não vi. Sou meio São Tomé... Não Eugênio acha melhor não. Ele não compreende que eu preciso ter uma visão mais detalhada dos problemas do campo.

- E, por falar em campo, desta vez o senhor não beijou o chão brasileiro. Por que?

- Beijei na época da ditadura e do Collor. Porque me diziam que havia muita sujeira. Agora, não. Desta vez não vi nenhum mendigo na rua, estava tudo lavadinho, pintadinho de novo.

- E o abominável, santo homem?

- O abominável é um crime abortável (riu da própria piada, engasgou, dom Eugênio deu uns tapas nas costas dele).

- A comida brasileira, gostou?

- Sim, queria agradecer os frangos que a dona Sylvia me mandou e, infelizmente nada acabou em pizza. Não aguento mais comer pizzas na Itália. Lá também, filho meu, tudo termina em pizza.

- Aquele escândalo do Banco Ambrosiano...

- Nada a declarar.

- Desculpe, santidade. O senhor viu televisão no Brasil?

- Vi um jogo do Fluminense. Santo Deus da Cracócia! Vou rezar pela equipe. Não devemos nos rebaixar nunca. Vou rezar para todos os Santos, o São Paulo, o Santo André, o São Bento, o São Caetano, o São Bernardo, o Santa Cruz... Calma, dom Eugênio, já vou. Mania de mandar em mim!

- O senhor tem falado com Deus?

- Sim, estive com toda a família dele. Dona Ruth parece não gostar muito de mim...

- Muito obrigado, santidade.

- Escuta, filho meu, meu português não é dos melhores. Me explica uma coisa. Essa palavra "precatório" tem alguma coisa a ver com "pecado"?

- Tem. Muito. E muito obrigado pela atenção.

- Pois é, meu filho. Agora tenho que ir para o aterro ouvir o Roberto Carlos cantar Jesus Cristo. Fazer o que, filho meu, é a vida. Que Deus abençõe sua família, filho meu, Aliás, o senhor tem família?