Quase
Paris - Estou escrevendo isso aqui dentro de um avião, no meio do Atlântico,
voando para Paris. Meio-dia de ontem, terça.
É
um vôo-fretado, só de torcedores (poucas mulheres) Dá para você imaginar o
que está acontecendo aqui dentro? Impossível. Supera a qualquer imaginação
do ser humano. Eu sei que você não vai acreditar, mas acaba de passar, aqui
pelo corredor, um galo. Juro! O galo é o símbolo da França. Deve ser isso.
Não me pergunte como foi que ele embarcou nessa.
Inocente,
puro e besta, trouxe um livro para ler na viagem. Qual o quê, como diria o Chico. Aliás, no momento, escrevendo sobre
futebol aqui no jornal, aos domingos. O nome do livro é Enquanto
as Mulheres Mandam, os Homenes Fazem o que Tem Vontade, escrito por uma
comadre jornalista (Silvia Campolim) e um jovem pai psicanalista (Luis Tenório
de Oliveira Moreno Lima).
O
livro trata exatamente do que está escrito no título, se é que eu entendi
bem. E aqui, no avião, fico notando que a Silvia e o Tenório tem lá suas
razões. Os homens aqui dentro estão fazendo exatamente o que querem. Viraram
meninos, crianças de novo. Quer coisa melhor do que isso? Vestiram uma camisa
amarela e sairam (voando) por aí.
Agora,
por exemplo, tem um ex-deputado federal tocando aquela buzina (aquela, sabe,
meio corneta?) bem no meu ouvido. Já tem nego bêbado por aí. Coitada das
aeromoças. Não sabem em que viagem embarcaram. Já-já vão passam a mão na
bunda da Denise, tenho certeza. Pensando bem, olhando bem para a Denise...
deixa pra lá.
Lá
na fileira 18 tem gente fazendo aposta. Vale primeira fase, oitavas de final,
quartas de final, semi-final e final. Arrisco um palpite na primeira fase, ou
seja, vamos ser eliminados. Um dentista quase me dá uma porrada. O jogo corre
solto. Vai começar o filme: Os Desajustados.
Alguém
vomitou na toalete, o comissário já foi providenciar.
Um
casal descobre, só agora, que o hotel deles é quatro estrela. Ela está
quase arrancando os cabelos. Joga a culpa toda nele, diz que ele vai ter que
resolver esse problema, que ela, imagine, não fica num quatro estrela nem
morta! Sabia que não podia deixar nas mãos dele. Pós-feminismo?
Informação
que vem lá da primeira classe avisa que o galo vomitou na 3-C.
A
velhinha pergunta para o velhinho: trouxe a caixinha de Viagra? Ele confirma
com um sorriso maroto.
Duas
bichinhas de Uberaba comentam que estão indo só pela abertura. Acham um
luxo.
Na
minha frente um dentista de Sorocaba acaba de descobrir que o seu vizinho de
poltrona, de Teófilo Otoni, é primo dele, filho do Joquinha, se é que eu
ouvi bem. O de Teófilo Otoni pergunta por vários parentes. Todos haviam
morrido, choraminga o de Sorocaba. Mas eles se abraçam, é Copa do Mundo e
eles vão, pela primeira vez, assistir a uma. Sem as mulheres, sem as
mulheres, como disse o de Teófilo Otoni.
Tem
um outro que sabe tudo sobre o baixo Pigalle. Moulin Rouge é com ele mesmo.
Disse que tem os telefones de umas dançarinas. Coisa finíssima. Aliás, diz
depois de detonar mais um copo de uisque: “Pra falar a verdade, nem gosto de
futebol. Vou mesmo é pelas francesas”. No que um outro retruca: “Me
disseram que elas não tomam banho”.
Realmente,
pelo menos aqui, os homens fazem o que querem. O seu Joaquim, com a alvi-negra
camisa do XV de Piracicaba diz que foi a mulher dele quem mandou ele para a
Copa. Disse que ele estava precisando relaxar. Mostro a capa do livro para
ele. Ele lê, ri: “É isso aí, figura. Vou cair na maior gandaia, meu!”
Leio
uma entrevista do Zagallo: “Crise é invenção de jornalistas mau
elementos”. Sou um deles, pensei.
Agora,
além da buzina, aquela corneta infernal, temos aqui um tambor, uma cuíca e
um reco-reco. De repente é
aquela corrente pra frente. Parece que todo o Brasil deu as mãos, salve a
seleção!
O
comandante anuncia momentos de turbulência e pede pra todo mundo sentar.
Imagina, sentar. O que o torcedor quer mesmo é a turbulência. Bagunça,
diria uma criança. Quer bagunçar. Quer a anarquia total. Deixou pra trás a mulher, os filhos, o trabalho, o penta do cunhado e a
macarronada fria da sogra. Veio pra rosetar mesmo.
Agora
a mulher não manda mais e ele faz o que tem vontade.
Se
deixar, ele se veste de mulher e triunfalmente ensaia um samba em frente ao
Arco do Triunfo.
Se
deixar, ele sobe nu a Torre Eiffel e, se ninguém segurar, faz xixi lá do troisième.
Se
deixar, ele coloca um biquini de bolinha amarelinha e mergulha no Senna em
frente a Notre Dame, sem se dar conta que Notre Dame, em português, é nossa
senhora.
Se
deixar, ele nunca mais volta.
Vamos
aterrisar, pessoal?
(Mais Mario Prata no Caderno 2)