Sim, falemos de paz! Terminado aquele duelo de tantãs
pra lá de Bagdá, vamos rezar pra cá de Uberaba.
(Mas antes, só uma coisinha rápida sobre os nossos
irmãos americanos do norte. Você não acha incrível que o Clinton quase foi
decapitado e expulso do poder por fazer sexo com uma estagiária enquanto o
seu sucessor foi glorificado... deixa pra lá. Vamos voltar à paz e à missa.
Não disse que ia ser rápido? Quase um míssil.) Sim, a missa. Pois no sábado
passado assisti a uma, rezada pelo meu tio padre, o padre Pratinha, em
Uberaba. A missa não era pela paz mundial, mas pela paz familiar. Dois
parentes nossos comemoravam 50 anos de casados. O Aluísio e o Arnaldo,
irmãos, cada um com uma Marta. E, hoje em dia, 50 anos de casamento tem mais
é de ser comemorado e encomendar missa e bufê.
O bufê, nestes 50 anos, continua o mesmo, embora os
nossos cabelos... Mas a missa já não é mais a mesma. Não estou dizendo que
melhorou nem que piorou.
É bom deixar isso claro, porque depois ficam escrevendo
para o dono do jornal me chamando de entusiasta iconoclasta. Não é nada
disso, minha senhora. Em tempos modernos, já diria o Chaplin, abaixo os
ditadores tiranos e os tiranos democratas.
Mas voltemos à paz da familiar Catedral de Uberaba.
Continua a mesma (se tem uma coisa que não muda é interior de igreja. Já
notou?) Mas tem um pequeno detalhe. Onde foi parar o confessionário? O
temível? Já que não precisa mais se confessar, comunguei, pensando nos
mortos da guerra e até mesmo na Monica Lewinski.
Não vou me ater aqui ao ato da confissão porque a
página é pequena e o assunto fica para outro dia. Quero falar mesmo é da
missa.
Em primeiro lugar, era em latim. E o latim, é lindo.
Pelo menos eu acho, depois de ter estudado por nove anos. O som do latim é
bonito e suave. E o padre rezava a missa em latim. E havia dois coroinhas
(não confundir com sacristão) que o ajudavam. Pois hoje não tem mais
coroinha. Eu fui coroinha.
Respondia ao texto do padre em latim, de joelhos,
tocando sininho em horas determinadas e soltando incenso. Aquele incenso era
bonito, dava um ar teatral à coisa, enchia a igreja com um cheiro gostoso,
enchia nossas vistas e até as nossas almas. Como aquilo era bonito,
espetacular. Todo mundo queria ser coroinha, segurar o pratinho de ouro onde
estavam as hóstias.
Introibo ad altare Dei (se meu latim não estiver
errado) e a gente respondia: ad Dei que letifica juventude mea. Assim
começava a missa no meu tempo de convicto e compenetrado coroinha. Conforme
você pode observar, tiraram a confissão, o coroinha, o sininho, o incenso e
o latim.
E os cantos? Não havia um coro. Quem cantava era o
pessoal que estava assistindo à missa. Quem é que não se lembra do "Louvando
Maria, a voz repetia de São Gabriel, ave, ave, ave Maria".
E tinha um saquinho de veludo vermelho que ia passando
de banco em banco e o pessoal ia jogando uns trocados lá dentro. E tinha o
dízimo (dez por cento) que as famílias davam para a manutenção da paróquia e
o próprio padre.
Mas a missa continua a ser rezada, de uma maneira ou de
outra. Prefiro a de antigamente. Era mais perto do Oriente Médio, por onde
Jesus pregava, era mais perto dos mistérios da fé. Acho que por ser em latim
era mais perto de Cristo, embora Jesus não falasse nem latim e muito menos
português.
O que importa é que ao assistir à missa de 50 anos de
casados dos meus primos, nestes dias de guerra e tantos crimes, senti uma
paz interna muito grande. E a paz não precisa ser nem em latim nem em
português. Pode ser também em inglês e iraquiano.
Que a fumaça do incenso substitua a fumaça das bombas,
que os sinos voltem a tocar em Belém. Que todos nós comunguemos a paz e que
os verdadeiros pecadores dos dias de hoje um dia tomem coragem na cara e
confessem seus mais recentes pecados. E crimes. E espero que Deus não os
perdoe.