Antes de mais nada, vamos deixar uma coisa bem clara. Não estou aqui a
defender o cigarro (de tabaco). Sei de tudo, não precisa mandar cartinha
para a redação reclamando. Bem para a saúde não deve fazer. Mais ou menos
como respirar o ar de uma cidade como São Paulo durante anos e anos. Como
é que os pais têm coragem, hoje em dia, de colocar uma criança para
respirar aquilo?
O que eu quero defender são as pessoas que fumam.
Nesta campanha contra o tabagismo (liderada pelo país do
Bush e só seguida pelo Brasil, em todo o mundo), o fumante virou bandido e
ignorante. E o cerco está se fechando cada vez mais sobre nós. Somos
caçados como traficantes dos morros. Estamos proibidos de freqüentar os
melhores lugares.
Não podemos mais entrar em lugar nenhum (nos Estados Unidos
e aqui). Nem em bar de aeroporto podemos mais fumar. Já tem prédio
inteiros onde não se pode fumar.
Mas se a gente fuma é porque vendem. Se vendem é porque
fabricam. Dinheiro! E eu, que entro com dois reais por dia nesta grande
negociata, é que tenho que pagar o pato?
Dizem que somos minoria, minha amiga. Só que todas as
minorias têm seus defensores, seus líderes, suas ONGS. Nós não temos. Nós
somos burros e pronto. Ninguém vai te defender, menina.
Quando eu acendo um cigarro em algum lugar fora da minha
casa, me olham. Me secam! Me olham com uma mistura de ódio e pena. E devem
pensar: vai morrer, o babaca.
Mas é para as mulheres que eles olham com mais desdém. Como
se estivéssemos no começo do século 20, devem achar que elas não prestam,
que não merecem o nosso respeito e, em alguns casos, nem a nossa (deles)
amizade.
Por que é que você quem não fuma ou deixou de fumar (e sofre
desesperadamente até hoje, esperando morrer mesmo com uma bala perdida),
por que você nos trata assim? É da sua conta, como diria meu pai?
Você não fuma, mas bebe. Você não fuma, mas sonega imposto.
Você não fuma, mas trai a sua mulher. Você, não fumante, pode tudo. E nós
não queremos nada. Queremos só fumar.
Fico vendo filmes americanos antigos. Todos fumam. Todos.
Outro dia revi o famoso concerto com o Sinatra e o Tom Jobim. Os dois
cantando Garota de Ipanema e fumando ao mesmo tempo. Fumar nem desafina,
seu desafinado!
Pior que você, que nunca fumou, são aqueles que pararam.
Deviam andar com uma advertência escrita na testa: não fumar pode dar
câncer no saco! Tanta gente passando fome no Brasil, tanta gente sem teto,
sem terra, tanta gente sem saber escrever e vocês preocupados com os que
fumam? Sim, o governo e toda a sociedade estão contra nós. Nos tornamos
inimigo público número um. Porra, não é mais fácil parar de fabricar e de
vender?
Porque se mata mesmo, se dá câncer mesmo, o governo que
deixa a mercadoria solta por aí é responsável por todas as mortes de
fumantes. Ou estou louco, viajando?
Você estava lendo a revista calmamente e, de repente, caiu
aqui neste desabafo entre uma tragada e outra. Te peço desculpas, minha
leitora (fumante ou não). Eu só queria dizer que fumante também cria seus
filhos, pagas suas contas, ama, se diverte. E morre da mesma maneira que
você, que não fuma.
Só nos deixe viver em paz! O título é em defesa da mulher
que fuma, pois acho que ela fica ainda mais encabulada. Tem homens,
conheço alguns, que já andam virando mesa de restaurante e dando porrada
em pentelho ex-fumante.
Brincando ou não, tenho medo que isto ainda vire uma guerra
civil.
Tudo bem, vamos todos parar de fumar, mas vocês aí, vêem se
maneram na repressão. A gente é do bem.