Paris
- Passei o final do dia de ontem triste. Acabrunhado como a palavra
acabrunhar. Eles vão embora de Paris. Mas eles voltarão. Um dia eles voltarão
e o mundo voltará a sorrir.
Ontem,
durante o jogo não sabia se torcia para eles ou contra eles.. Se eles
ganhassem, na sexta seríamos nós ou eles. E eu torceria contra eles, apesar
de neles estarem as nossas origens, o nosso jeitão de ser.
Com
eles vai embora a alegria da copa. Nenhuma outra raça - ou seria melhor dizer
time, palavra inglesa? - me contagiou tanto. Ninguém jogou futebol com tanta
alegria como eles. Parecia que, para eles, o importante não era vencer. Era
se divertir. Eles eram desengonçados. Vão ser sempre desengonçados, como
era o Garrincha. Vendo aquela correria, parecia que todos eles tinham todas as
pernas tortas.
E
como sorriam bonito. Riam quando faziam falta. Riam quando levavam porrada.
Quem é que nunca levou porrada na vida, como dizia aquele português de
cintura dura e cabeça fina? Caiam no chão sem odiar ninguém.
Aquilo
é que era jogo de cintura. A impressão que me passaram é que eles não
queriam num fazer um gol de longe, de falta, de uma rebatida. Eles queriam era
entrar lá dentro de bola e tudo. Eles queriam dar passe de chaleira, drible
da vaca, como se dizia e se jogava antigamente. A meta não era o gol. O que
eles queriam era sambar, gingar. Nos fazer lembrar o ritmo de Cuba, da Bahia.
O
que restou depois da saída dele para nos divertir? Torcer para o Brasil não
é mais um prazer há muito tempo. É um sofrimento. É nunca saber o que vai
acontecer.
Com
eles a gente sabia. Ganhando ou vencendo, era bom ver aquela negrada correndo
dentro de campo, meio sem direção, como que a favor ou contra o vento.
Eles
me davam a impressão de jogar sem nenhum Zagallo branco no banco. Me passavam
uma idéia nítida de que ali era cada um com o seu feijão com arroz. Nada de
quatro-quatro-dois, nada de três-seis-um. O time tinha onze e os onze jogavam
atrás da bola. E até tropecavam nela. E não estavam nem aí. Um ria do e
para o outro.
Levaram
duas goleadas, é certo. Parecia até que eles deixavam os outros fazerem gols
neles. Não estavam nem aí. Se o gol é o espetáculo, que seja aqui ou lá.
Tomavam um, dois, três, quatro ou até mais e não mudavam esquemas táticos
porque - deliberadamente? - não tinham. Repito: impossível não lembrar do
Garrincha que, quase nunca, sabia muito bem contra quem ia jogar e nem como. O
que ele queria era jogar. Se divertir.
Você
poderá me dizer: esse tipo de futebol já acabou. Acabou para você, cara-pálida.
Acabou para búlgaros, dinamarqueses, croatas, romenos, belgas, russos,
ingleses, franceses, enfim, acabou para esse bando de brancos calçando Nike
para quem o futebol deixou de ser, há muito tempo, um divertimento. Passou a
ser negócio, negociata, fatura, duplicata, loira oxigenada na platéia.
O
futebol deles, meu caro leitor, é o renascimento do esporte, da alegria do
povo. Não a morte e a tristeza que parece que é o que nos restou na copa sem
eles.
Tudo
bem, vamos torcer para o Brasil. Vamos ter que sofrer muito para sermos
felizes. Vamos torcer para o Brasil porque, afinal, sete dos nossos titulares
são negros como eles. São descendentes dos mesmos avós e bisavós. Quem
sabe um dia a gente se livre dos zagallos da vida e o nosso futebol volte a
ter a cor da morena alegria, o ritmo do negro samba, o gingado dos nossos
pretos-velhos.
Eles
foram embora. A copa ficou branca, muito branca. Vão fazer falta esses negros
com almas tão coloridas.
Agora,
a noite parisiense está muito silenciosa. Não tem nenhuma estrela no céu.
Mas elas voltarão. Eu tenho certeza.