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Eles voltarão

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o estado de s. paulo

1998

 


Paris - Passei o final do dia de ontem triste. Acabrunhado como a palavra acabrunhar. Eles vão embora de Paris. Mas eles voltarão. Um dia eles voltarão e o mundo voltará a sorrir.

Ontem, durante o jogo não sabia se torcia para eles ou contra eles.. Se eles ganhassem, na sexta seríamos nós ou eles. E eu torceria contra eles, apesar de neles estarem as nossas origens, o nosso jeitão de ser.

Com eles vai embora a alegria da copa. Nenhuma outra raça - ou seria melhor dizer time, palavra inglesa? - me contagiou tanto. Ninguém jogou futebol com tanta alegria como eles. Parecia que, para eles, o importante não era vencer. Era se divertir. Eles eram desengonçados. Vão ser sempre desengonçados, como era o Garrincha. Vendo aquela correria, parecia que todos eles tinham todas as pernas tortas.

E como sorriam bonito. Riam quando faziam falta. Riam quando levavam porrada. Quem é que nunca levou porrada na vida, como dizia aquele português de cintura dura e cabeça fina? Caiam no chão sem odiar ninguém.

Aquilo é que era jogo de cintura. A impressão que me passaram é que eles não queriam num fazer um gol de longe, de falta, de uma rebatida. Eles queriam era entrar lá dentro de bola e tudo. Eles queriam dar passe de chaleira, drible da vaca, como se dizia e se jogava antigamente. A meta não era o gol. O que eles queriam era sambar, gingar. Nos fazer lembrar o ritmo de Cuba, da Bahia.

O que restou depois da saída dele para nos divertir? Torcer para o Brasil não é mais um prazer há muito tempo. É um sofrimento. É nunca saber o que vai acontecer.

Com eles a gente sabia. Ganhando ou vencendo, era bom ver aquela negrada correndo dentro de campo, meio sem direção, como que a favor ou contra o vento.

Eles me davam a impressão de jogar sem nenhum Zagallo branco no banco. Me passavam uma idéia nítida de que ali era cada um com o seu feijão com arroz. Nada de quatro-quatro-dois, nada de três-seis-um. O time tinha onze e os onze jogavam atrás da bola. E até tropecavam nela. E não estavam nem aí. Um ria do e para o outro.

Levaram duas goleadas, é certo. Parecia até que eles deixavam os outros fazerem gols neles. Não estavam nem aí. Se o gol é o espetáculo, que seja aqui ou lá. Tomavam um, dois, três, quatro ou até mais e não mudavam esquemas táticos porque - deliberadamente? - não tinham. Repito: impossível não lembrar do Garrincha que, quase nunca, sabia muito bem contra quem ia jogar e nem como. O que ele queria era jogar. Se divertir.

Você poderá me dizer: esse tipo de futebol já acabou. Acabou para você, cara-pálida. Acabou para búlgaros, dinamarqueses, croatas, romenos, belgas, russos, ingleses, franceses, enfim, acabou para esse bando de brancos calçando Nike para quem o futebol deixou de ser, há muito tempo, um divertimento. Passou a ser negócio, negociata, fatura, duplicata, loira oxigenada na platéia.

O futebol deles, meu caro leitor, é o renascimento do esporte, da alegria do povo. Não a morte e a tristeza que parece que é o que nos restou na copa sem eles.

Tudo bem, vamos torcer para o Brasil. Vamos ter que sofrer muito para sermos felizes. Vamos torcer para o Brasil porque, afinal, sete dos nossos titulares são negros como eles. São descendentes dos mesmos avós e bisavós.   Quem sabe um dia a gente se livre dos zagallos da vida e o nosso futebol volte a ter a cor da morena alegria, o ritmo do negro samba, o gingado dos nossos pretos-velhos.

Eles foram embora. A copa ficou branca, muito branca. Vão fazer falta esses negros com almas tão coloridas.

Agora, a noite parisiense está muito silenciosa. Não tem nenhuma estrela no céu. Mas elas voltarão. Eu tenho certeza.